quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O baú de ossos e de espantos da poesia brasileira [com poemas de Pio Vargas]

A Literatura Brasileira tem dois livros importantes com a palavra "baú" nos títulos. Um deles é o primeiro volume das memórias do mineiro Pedro Nava (1903–1984), seu Baú de ossos (1972). O outro é o volume de poemas do gaúcho Mário Quintana (1906–1994), seu Baú de espantos (1986). Minha memória invocou esses títulos hoje quando eu pensava sobre o trabalho de pesquisa para desenterrar certos autores que, por motivos vários – políticos, regionais – não alcançam atenção nacional. Somos uma República que ainda não fez jus a seu nome, seja como república em si, ou no adjetivo que a segue no nome oficial do país, federativa. 




Digo tudo isso para fazer agora meu joguinho de palavras: será decisão nossa, de críticos, editores, escritores e leitores, se a Literatura Brasileira será um baú de ossos ou de espantos. O trabalho é coletivo. Alguns poetas e críticos apreciam-se escrita de certos autores e buscam chamar a atenção dos concidadãos. Vocês me perdoem, mas eu sou extremamente sentimental com algumas dessas palavras: república, federação, concidadão. Essas coisas importam. 

E o esforço de compartilhamento se dá em vários níveis. Foi graças à publicação inicial de dois poemas de Hilda Machado (1951–2007) na revista Inimigo Rumor que meu périplo em busca de mais material levaria à publicação de 'Nuvens' em 2018 pela Editora 34. Foi graças à descoberta e atenção de Guilherme Gontijo Flores, ao ler com acuidade crítica o volume Vivenda de Maria Lúcia Alvim, que pude me unir a ele e à Relicário Edições para que todos nós agora tenhamos essa belezura que é Batendo pasto. E graças ainda a Paulo Henriques Britto, que guardara o manuscrito. E serei eternamente grato à Ciclo Contínuo Editorial  por nos trazer de volta a poesia de Paulo Colina. 

E há outras figuras tão interessantes das culturas brasileiras que mereceriam mais de nossa atenção. Porque nossas vidas seriam menos miseráveis com os poemas e contos destes... ah, a palavra de novo ... concidadãos. Não importa se os autores têm obras monumentais de 20 volumes. Um belo livro não é já uma grande contribuição à pólis? Um belo poema apenas já não é isso? 

Há os casos de poetas que são respeitados, premiados, mas estranhamente não são lidos, não comparecem nas conversas apaixonadas e bêbadas de boteco (elas também contam), nas epígrafes, nas homenagens. E nem mesmo o nascimento em estados que monopolizam a atenção nacional por vezes ajuda, bastaria pensarmos nos casos de Hilda Hilst e Roberto Piva, ignorados por tanto tempo. Ou pensem nesse caso: não é fascinante que São Paulo tenha gerado, nascidos no mesmo ano de 1931, dois poetas tão diversos quanto Augusto de Campos e Alberto da Costa e Silva, ambos vivos e prestes a completar 90 anos? Por que um intelectual do porte de Alberto da Costa e Silva, com poemas que me parecem deslumbrantes, não aparece com mais frequência em nossas conversas?




Mas há sim os problemas de desequilíbrio regional, e muito disso se dá por grandes jornais de circulação nacional se esconderem sob a égide de "jornal local", com os nomes de suas sedes estaduais ou municipais nos seus nomes, mas que então ignoram por completo as RESPONSABILIDADES REPUBLICANAS E FEDERATIVAS que incorrem no momento em que passam a ter circulação nacional.

Esta semana tive duas descobertas, uma foi fruto de partilha republicana do bem comum quando Leonardo Gandolfi chamou minha atenção para o trabalho do baiano Jônatas Conceição da Silva (1952-2009). A outra foi por esforços pessoais de pesquisa sobre a poesia produzida no Centro-Oeste, esta que talvez seja a região mais verdadeiramente ignorada do país, ao lado do Norte. E aqui chego ao motivo dessa postagem: chamar a atenção de vocês, meus queridos concidadãos, para a poesia deste jovem goiano, Pio Vargas (1964-1991). Nascido na pequena Iporá e morto com apenas 26 anos por uma overdose na também pequena Turvelândia, sua poesia ficou por aí nos baús de ossos e espantos. Nem mesmo nossa ansiedade hagiográfica por nossos meninos e meninas mortas da Poesia Brasileira o deu um público maior.

Pio Vargas (Goiás, 1964-1991)

Sua poesia foi porém editada por Carlos Willian Leite, e o poeta dá nome à biblioteca do Centro Cultural Marieta Telles Machado em Goiânia. Num artigo para a revista 'Bula', na qual há um par de outros textos sobre o goiano, C. W. Leite cita uma declaração de Paulo Leminski sobre o poeta: “Pio Vargas tem um ‘eu’ coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético.”

Pio Vargas publicou os livros Anatomia do gesto (1989) e Os novelos do acaso (1991). Nos poemas que encontrei na rede e que reúno e compartilho aqui, percebo um jovem poeta de talento inegável, com belos poemas, imagens fortes, uma musicalidade potente. Se também percebo em certos momentos algo de juvenil no gosto augusto-angelical por um vocabulário científico e certas palavras talvez grandiloqüentes demais, mesmo essas se transformam em música nas mãos desse jovem bastante habilidoso.




PIO VARGAS (Goiás, 1964–1991)

DESPERTÁCULO

Es­tou pron­to
pa­ra a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do:

bo­tei vi­gia nos sen­ti­dos
e ilu­di com com­pri­mi­dos
ou­tros se­res a meu bor­do.
Aban­do­nei o ví­cio
de es­tar sem­pre
a so­le­trar ru­í­nas,
dei li­ber­da­de a meus de­ten­tos
mi­nha pres­sa di­lu­iu nos pas­sos len­tos
e ras­guei
meu ca­len­dá­rio de ro­ti­nas.

In­ver­ti a or­dem.

Já não saio por aí
a de­vo­rar com­pro­mis­sos,
to­mei pos­se no go­ver­no de mi mes­mo
e der­ro­tei os meus omis­sos.

Ven­ci a ba­ta­lhas
de ter que es­tar sem­pre por per­to,
às ve­zes voo pa­ra den­tro
do meu so­nho a céu aber­to.

Es­tou pron­to:

eu já con­cor­do
com a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do.

*

OS SONS DO OFÍCIO 

É por­que re­co­lho o vá­rio
no avi­á­rio das vér­te­bras
e me há um si­lo de cé­lu­las
e me há um qua­se-aquá­rio,
que o po­e­ma se me che­ga,
es­tu­á­rio.

Que me im­por­ta
a si­na ju­gu­lar das fa­ses,
a vi­da con­ju­gal das fra­ses
e o sem­blan­te cí­ni­co
das fe­zes,
se não fa­ço po­e­mas
co­mo quem de­fen­de tes­es.

Fa­ço po­e­mas
pa­ra que pas­sem os di­as
e pas­cem os re­ba­nhos
e os oce­a­nos pas­mem
an­te o nau­frá­gio
de to­das as da­tas
no ca­len­dá­rio-la­nho.

Ou se­ja, fa­ço-os
co­mo quem vi­ce­ja
os la­ços do ar­re­mes­so
co­mo quem vis­lum­bra
si­lên­cio nos en­tu­lhos
e apren­deu a es­tru­tu­ra ide­al
pa­ra mon­tar ba­ru­lhos
sob a lín­gua mais ba­nal.

Fa­ço-os
co­mo quem lam­be oá­sis no pla­nal­to,
dei­xa­do pe­las ba­ses
de um sim­ples so­bres­sal­to.

É co­mo se o ego
cou­bes­se in­tei­ro
na de­ter­mi­na­ção de um pre­go
que me fi­xa exí­li­os sob a car­ne
mas que tam­bém acio­na
os ga­ti­lhos do alar­me.

*

SUCESSÃO

Depois que eu voltar
de dentro das molduras
apago os meus retratos
invento outras figuras

convoco os meus fantasmas
convido mil demônios
e dou posse a todos eles
no governo dos neurônios.

*

ODE ANALGÉSICA

I

a pátria é o embaixo das roupas.

é lá que dói e se desfazem
as linhas mínimas do ventre
o lacre avesso do silêncio
e o destino de selo intêmpere.

é lá o magazine de medos
onde quem sabe há calado
na caricatura de seus becos
ou no domicílio de seus fados.

II

eu não sei o que floresce
no abandono das pedras
e não me ocorre saber
que objetos compõem
as neuronias vitrines
da dor e suas glebas.

há mais de sabor
em não saber
e mais de ardor
em não urdir
o que vai pelas covas
do promontório,
o que fica de espanto
nesse alento provisório.

não me ocorre o que fenece
nestes dias rotundos.
o possível deus que me parece
é outro — a réplica do fundo.
ao milagre de ser vário,
o abismo : albergue estacionário.

*

CONCEPÇÃO TUMULAR PARA QUE NINGUÉM ALEGUE IGNORÂNCIA 

Quando eu morrer
escrevam no meu túmulo:
aqui dorme pio
que era poeta nas horas vagas.
O que distanciou de tudo
pra continuar mudo
com suas amarras

Aqui dorme alguém
que era de todos
e pertenceu a ninguém
que imaginava muito
mas só tinha um corpo
que casualmente se tem
que fazia poemas
só para esquecer os dilemas
do que era um e quis ser cem.

Pensando bem
escrevam mais:
aqui dorme pio
o que em sendo um
foi quase mil.

*

O FOGO NAS VÍSCERAS 

I

pode haver o momento
de transportar o súbito fogo
sem haver a ruptura
de gesto e culpa,
flancos do mesmo jogo.

o tédio se derrama
em todas as direções
e como flagelo
é incenso nos sentidos
ou fragmento de opções?
pode haver
o súbito fogo
em sendo mero silêncio.
O tédio é bélico:
Ogiava de alvo pênsil.

II

o que pode haver
de humano no sentimento
senão a inquietação?
todo o resto
é crochê de desejo
desenhando caminhos
na hipótese da emoção.

se o flagrante
é uma colisão de evidências
pode haver o momento
de transportar o súbito fogo
no porão de fugas pensas.

III

o fogo e o tédio
são produtos sem mídia,
salvo suas cores
pródigas e ingênuas
no painel de dores tíbias.

pode haver o momento
de palavras ajustáveis
em cada frase,

o momento de sombras
em transparente corpoquase
sem que isto denuncie
ruptura de gesto e culpa,
extremos de mesma base.

IV

cada um se mata
o suficiente
para continuar vivo.

cada um possui
a duopção de fogo e tédio,
esses alheios do alívio.

contudo,
na dor e seu compêndio,
resta saber
quem existirá depois do incêncio.

*

ANALEPSIA DO ABISMO

I

enterro vivo meu gesto.

até aqui trouxe dias e palavras
         como signos ambíguos
         débeis mapas
         argumentos evasivos
         o resumo inconcluso
do que julguei abismo
                   e superfície.

habita o âmago
no mais raso da face:
         por isso trago à tona,
         elo de sangue e aspereza,
         a pugna de meus retratos
                   atônitos.

II

mantenho obtuso meu traço.

a memória constrói
espúmeos fantasmas
com os quais divirto
o inverno de meu plasma.

esse cotidiano agrário
foi o que sobrou como futuro
o meu sangue sem calvário
regando vales no escuro.

III

interno e vasto é meu grito.

até aqui trouxe dois olhos
e a visão cíclope dos pesadelos
como quem espalhou lâmina e dilúvio
para envenenar
o próprio espelho
ou se ferir em gumes turvos.

viver é um risco
na ordem dos calendários.

por isso abrigo incerto mangue,
condomínio de alheios viventes,
para manter a humanidade mesma
nos outros eus mais diferentes.

IV

mantenho obscura entrega.
pouco importa
um punhado de vales
para o adejo da carne.

é bem outra
a personagem que me assombra:
         a dor em vestes dúbias
         no endereço noturno
         da face plúmbea.

*

ÁSPERAS ASPAS

nenhuma treva me basta
se me desaba o teto a casa
meu ventre em viagem casta
e meu voo de corpo sem asa

minhas vírgulas como degraus
a entalhar ásperas aspas
o texto-hangar de minhas naus
o nu teclado de outras harpas

o império de meus ampares
nos tantos poros térmicos
os sinais que somam seres
nos andares epidérmicos

* 

VAGA LITÚRGICA 

o volume da chuva
é que decifra o dilúvio
como no corpo eflúvio
é âmbar a dúvida

a porta que mais vence
é a que aberta permanece
e o corpo que mais sente
é nem sempre o que adoece

.
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sábado, 16 de janeiro de 2021

Mais dois poemas para as 'Odes a Maximin'

Mais dois poemas para as 'Odes a Maximin'. Se você tem o livro, sinta-se à vontade para manuscrever estes no volume. Se não o tem, ora, está na hora de comprá-lo para aquela amiga assanhada nesse Natal.



EXORTAÇÃO A MAXIMIN PARA QUE NÃO SEJA SÁDICO FEITO O CUPIDO

Maximin, larga desse látego.
Dá-nos um só bom exemplo
para que o cupido fanático
derrube por algumas horas
o arco e flecha de brinquedo.
Dê paz aos tolos do planeta.
Olha o estado dessa carcaça,
alvo para treino de arqueiros.
Tudo lateja. Põe o teu dedo
numa dessas minhas feridas
que fulgem como lantejoulas.
Faz como Tomé fez a Cristo.
Aproxima tua pele de azulejo,
move os teus dedos grossos
como troncos de peroba-rosa
e aperta aqui. Não é chacra,
é minha doença de mil chagas.
Não aquela do bicho-barbeiro.
A que causas, bicho barbado.

*

TEXTO NO QUAL O POETA INTERPELA MAXIMIN COMO ABŪ NUWĀS NA CAÇA À RAPOSA

Vez tanta, Maximin, tu me escapas.
De novo, de novo, e de novo.

Te rodeio pelas ruas como vira-lata
à espera de carne sem ossos.

Te sobrevoo como pássaro na mata
à espera da páscoa em ovos.

Mas na noite em que já me inflamava,
gozo em Gomorra qual o fogo. 

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

PEQUENA ANTOLOGIA DA PRESENÇA ARACNÍDEA NA ESCRITA BRASILEIRA

"Detenhamo-nos, mais um instante, na aranha. O que acontece nos fios da teia? Acontecem moscas, outras aranhas, as catástrofes que rasgam os fios. E, no centro da teia, acontecimento inalcançável teicamente, acontece a própria aranha secretadora da teia e dona da teia, livre de deslocar-se ao longo dos fios para devorar moscas, copular com outras aranhas, combater outras aranhas e consertar estragos introduzidos na teia por catástrofes. Podemos, então, distinguir, basicamente, as seguintes modalidades ontológicas, as seguintes formas do Ser: mosca, outra aranha, catástrofe destruidora, e, com toda a sua problemática teica, a própria aranha. A aranha civilizada, no sentido ocidental do termo, tenderá a menosprezar a diferença entre mosca e outra aranha, considerando a outra aranha como uma espécie de mosca; ela tenderá a explicar as catástrofes destruidoras da teia como sendo supermoscas que não podem ser suportadas pela teia (provisoriamente, já que a teia cresce e se fortifica e acabará suportando moscas de todo tamanho); enfim, tenderá a considerar o mundo metateico como um reservatório, um vir-a-ser de moscas. A aranha materialista ensinará que a mosca é a tese e a própria aranha a antítese do processo dialético que se desenvolve nos fios da teia, tendo sido alcançada a última síntese quando a própria aranha tiver devorado todas as moscas. A aranha hegeliana afirmará que a aranha pressupõe a mosca e que o processo dialético é uma progressiva aranhanização do mundo-mosca, portanto fenomenal, e que, consequentemente, o devorar da mosca equivale à realização da mosca. A mosca devorada como mosca realizada: eis a última síntese, a total realização, por aranhanização, das moscas. A aranha heideggeriana considerará a mosca a ser devorada como a condição (Bedingung) da situação aranhal, e o cadáver da mosca já chupada como testemunha (Zeug) da passagem da aranha pelo mundo mosca!… Estes três tipos de especulação ocidental, e outros semelhantes, são caracterizados por um aranhismo extremo, já que aceitam a teia como fundamento da realidade sem discutir a própria teia. O aranhismo é inevitável para as aranhas, mas a discussão da teia é aranhamente possível. Essa discussão torna viável uma visão mais apropriada não somente da mosca, mas da própria aranha." 

                                  –  Vilém Flusser, in "A Dúvida"




SEXTILHAS
Fagundes Varela (1841–1875)

Amo o cantor solitário Que chora no campanário Do mosteiro abandonado, E a trepadeira espinhosa Que se abraça caprichosa À forca do condenado. Amo os noturnos lampírios Que giram, errantes círios, Sobre o chão dos cemitérios, E ao clarão de tredas luzes Fazem destacar as cruzes De seu fundo de mistérios. Amo as tímidas aranhas Que, lacerando as entranhas, Fabricam dourados fios, E com seus leves tecidos Dos tugúrios esquecidos Cobrem os muros sombrios. Amo a lagarta que dorme, Nojenta, lânguida, informe, Por entre as ervas rasteiras, E as rãs que os pauis habitam, E os moluscos que palpitam Sob as vagas altaneiras. Amo-os, porque todo o mundo Lhes vota um ódio profundo, Despreza-os sem compaixão. Porque todos desconhecem As dores que eles padecem No meio da criação.
*
É O SILÊNCIO Pedro Kilkerry (1885–1917)

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa. Olha-me a estante em cada livro que olha. E a luz nalgum volume sobre a mesa... Mas o sangue da luz em cada folha. Não sei se é mesmo a minha mão que molha A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa. Penso um presente, num passado. E enfolha A natureza tua natureza. Mas é um bulir das cousas... Comovido Pego da pena, iludo-me que traço A ilusão de um sentido e outro sentido. Tão longe vai! Tão longe se aveluda esse teu passo, Asa que o ouvido anima... E a câmara muda. E a sala muda, muda... Àfonamente rufa. A asa da rima Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda Novo, um fantasma ao som que se aproxima. Cresce-me a estante como quem sacuda Um pesadelo de papéis acima... ....................................................................... E abro a janela. Ainda a lua esfia últimas notas trêmulas... O dia Tarde florescerá pela montanha. E ó minha amada, o sentimento é cego... Vês? Colaboram na saudade a aranha, Patas de um gato e as asas de um morcego.
*

A ARANHA Manuel Bandeira (1886-1968) Não te afastes de mim, temendo a minha sanha E o meu veneno… Escuta a minha triste história: Aracne foi meu nome e na trama ilusória Das rendas florescia a minha graça estranha. Um dia desafiei Minerva. De tamanha Ousadia hoje expio a incomparável glória… Venci a deusa. Então, ciumenta da vitória, Ela não ma perdoou: vingou-se e fez-me aranha! Eu que era branca e linda, eis-me medonha e escura Inspiro horror… Ó tu que espias a urdidura Da minha teia, atenta ao que o meu palpo fia: Pensa que fui mulher e tive dedos ágeis, Sob os quais incessante e vária a fantasia Criava a pala sutil para os teus ombros frágeis…
*

A ARANHA
Murilo Mendes (1901-1975)




*

DESENHO Cecília Meireles (1901–1964) Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras, e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam. Isso era num lugar de sol e nuvens brancas, onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas... O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando, entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas. Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas, que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas, pois a vida completa e bela e terna ali já estava. Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! E o papagaio como ficava sonolento! O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros, e os grandes cães ladravam como nas noites do Império. Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes moravam nos jardins sussurrantes e eternos. E minha avó cantava e cosia. Cantava canções de mar e de arvoredo, em língua antiga. E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos e palavras de amor em minha roupa escritas. Minha vida começa num vergel colorido, por onde as noites eram só de luar e estrelas. Levai-me aonde quiserdes! – aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.
*


TEIA
Theon Spanudis (1915–1986)


*

VISGO TÁTIL Manoel de Barros (1916–2014) O visgo tátil do canto é como a aranha que urde sua doce alfombra nas orvalhadas vaginas das violetas
*

FORMAS DO NU João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
1

A aranha passa a vida tecendo cortinados com o fio que fia de seu cuspe privado. Jamais para velar-se: e por isso são ralos. Para enredar os outros é que usa os enredados. Ela sabe evitar que a enrede seu trabalho, mesmo se, dela mesma, o trama, autobiográfico. E em muito menos tempo que tomou em tramá-lo, o véu que não a velou aí deixa, abandonado. 2
Somente na metade é aruá couraçado. Na metade cimento, na laje do telhado. Porque apesar do teto que o veste pelo alto, o aruá existe nu, nu de pele, esfolado. Sua casa tem teto mas não tem assoalho: cai descalça no mangue, chão também escoriado. E o morador da casa se mistura por baixo com a lama já mucosa: bicho e chão penetrados. 3
Que animais prezam o nu quanto o burro e o cavalo (que aliás em Pernambuco jamais andam calçados). A sela e a cangalha deixam-nos sufocados como se respirassem também pelos costados. É vê-los se espojar na escova má do pasto quando lhes tiram o arreio e os soltam no cercado: se espojando, têm todos os gestos se asfixiado: espasmos, estertores de asmático afogado. 4
O homem é o animal mais vestido e calçado. Primeiro, a pano e feltro se isola do ar abraço. Depois, a pedra e cal, de paredes trajado, se defende do abismo horizontal do espaço. Para evitar a terra, calça nos pés sapatos, nos sapatos, tapetes, e nos tapetes, soalhos. Calça as ruas: e como não pode todo o mato, para andar nele estende passadeiras de asfalto. *

UMA ESPERANÇA Clarice Lispector (1920–1977)
Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha, comentou o menino.
- Sei disso, respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.

*

A TEIA
Lara de Lemos (1925-2010)
A teia se tece de grade sem ferro do negro sem fresta do muro sem pedra. A teia se tece do árduo da espera do aço da espada e sua ameaça. A teia se tece da fala da insídia da rede que enreda na mesma cilada. A teia se tece de liça, contenda açoites, cobiça invídia, solércia. A teia se tece de nomes antigos de amigos perdidos no elo das celas.

*

ARANHA
Lygia Pape (1927-2004)





*

ARANHA
Francisco Carvalho (1927–2013)

I
Medusa tecelã dos fios da morte. Seus olhos de Górgona dilaceram o corpo do vento. Transformam em rochas de sal os filhos do nosso invento. II Num raio de sol os fios da teia. Arquitetura de vidro com vigas de areia. O fulgor da trama que o vento incendeia. Numa gota de orvalho os olhos da teia. Medusa acordada a aranha passeia nas ruas de seda do seu devaneio. III Arquiteta dos minutos fiandeira do tempo circular semeadora das messes do vazio ceifadora de asas e de vôos contemporânea dos anjos e da morte.
*

UMA ARANHA
Ferreira Gullar (1930–2016)

ela surgiu não sei de onde quando abri o Dicionário de Filosofia de José Ferrater Mora no verbete Descartes, René;) mi- núscula com suas muitas perninhas quase invisíveis cruzou a página 1305 como se flutuasse (uma esfera de ar viva) e foi postar-se no alto no limite entre o texto e a margem branca enquanto eu fascinado indagava: como pode residir insuspeitado nestas encardidas páginas – em minha casa, afinal de contas – um tal ser mínimo mas vivo consciente de si (e como eu parte do século XXI) e que agora parece observar-me tão espantado quanto estou com este nosso inesperado encontro? *

dos CANTARES DO SEM NOME E DE PARTIDAS
Hilda Hilst (1930–2004)
Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida. *

“A flor flore. A aranha tece. O uirapuru, no fundo da floresta, toca uma vez por ano sua flauta, para ninguém. O poeta poeta. Quer o vejam, quer não, ele pulsa. O pulsar quase mudo.”
– Augusto de Campos (n. 1931)
flor flore
a aranha tece
o poeta poeta

*

TEIA
Orides Fontela (1940–1998)
A teia, não
mágica
mas arma, armadilha
a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente
a teia, não
arte
mas trabalho, tensa
a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:
no
centro
a aranha espera.


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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

SEIS CANÇÕES PARA A CONCHA

 1.

Deitamos em forma de concha
e as curvas de nossas colunas,
com essa minha pança ao meio,
soletram SOS a Deus e a drones.
Na pele não há qualquer corte
mas, como a alfaiate ou médico,
algo em nós implora por sutura.

2.

Não nos importa o tal Aristófanes,
suas lorotas num velho banquete.
Nós quase já somos aquela bolota
de quatro braços, quatro pernas,
como no leito do mar os polvos,
enfurnados aqui, em sua quitinete.

3.

Um pedaço de nós entra no outro, 
como o anzol na boca do peixe,
como a flecha na carne da onça.
Quisera fôssemos aptos à osmose.
Ainda lateja em nós o descorçôo 
de não amanhecermos siameses.

4.

Meu dedo se acopla ao côncavo 
do seu umbigo. É um molusco
que busca esconderijo num coco.
Fisgada que enrijece um músculo.
Satélites de satélites, em órbita 
de si, a rotação de nossas bundas.

5.

Inspeciono em seu braço direito,
qual cratera de meteoro na lua 
cheia, sua cicatriz de uma vacina.
É uma Lagoa Rodrigo de Freitas
cheia do seu suor e minha saliva.

6.

Como a Maomé veio a montanha,
até mim há-de vir o seu bíceps.
Minha testa, sobrancelhas e nariz 
celebram bodas, glória!, aleluia!, 
com sua cerviz, cangote e nuca.

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

AS TABUADAS E OS COLETIVOS



Na escola o que eu mais detestava
era a repetição diária das tabuadas.
Ali começava a confeccionar 
meu próprio espelho,
a dizer: este sou eu, o das palavras, 
não o dos números.

Rejeitava aquela reiteração 
das certezas pétreas, rígidas 
como a gravidade,
a mais detestada de todas as leis
por qualquer criança.

Nos sonhos raros 
em que podíamos voar
quebrávamos também essa lei,
pequenos mutantes caboclos,
mulas aladas sem cabeça.
Pégaso-Pangaré.

Hoje o coração está repleto
de adições e subtrações, 
multiplicações e divisões.

Está bem. 
1 + 1 são 2
e 1 x 1 é 1.
As compras, as dívidas, as eleições 
provaram seus números e porcentagens 
de forma bastante empírica.

Mas a idade 
também demonstrou outras coisas:
que UM mais UM são 
tantas vezes só isso:
esse ao lado deste, inconciliáveis.
Tão adicionáveis quanto admissíveis,
sem a metamorfose de cada UM
num único pato na lagoa.

E dois patos na lagoa são já um bando?
À matemática, língua certeira,
preferia as ambiguidades da língua incerta,
topônimos como Bonito e Gostoso.
Seria Bonito realmente bonito?
E Gostoso, deveras gostoso?

Os coletivos eram um prazer estranho,
repetia-os e não atentava 
às advertências da professora
contra meus pleonasmos,
afinal a alcateia só podia ser de lobos,
o arquipélago só podia ser de ilhas
e o cardume, só de peixes.

Mas havia o prazer da confusão
e um porco em sua vara
tanto podia ser 
um ser roliço e feliz entre os seus
quanto um cadáver assando no fogo.
Os porcos nas varas!

Havia essa liberdade da palavra
contra os números
e repetia só para mim mesmo,
não como quem comete uma gafe
mas como quem sussurra um feitiço:

matilha de meninos,
arquipélago de namorados,
cardume de amigos,

e éramos então por um segundo
corpos esfomeados 
mas livres no mato (lobos),
separados e cercados
mas pertencentes (ilhas),
submersos mas vivos
pontos móveis de prata (peixes).

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

No centenário de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector

Estou trabalhando em algo para a Deutsche Welle com o centenário de Clarice Lispector em mente, e conversei durante o fim de semana com o escritor e tradutor alemão Oliver Precht, que além de ter vertido trabalhos de Oswald de Andrade e Eduardo Viveiros de Castro para o alemão, tem também trabalhado muito com textos de Clarice Lispector, em especial "O ovo e a galinha" e "Mineirinho", sobre os quais escreveu um texto muito interessante que pode ser lido na edição de dezembro da prestigiosa revista de arte alemã Texte zur Kunst.

Quando estou escrevendo sobre algo, minha cabeça viaja associativamente para vários ângulos da questão. Esta manhã estava a pensar sobre os paralelos interessantes entre dois centenários ilustres neste Ano de Nossa Senhora da Virulência 2020: o de João Cabral de Melo Neto e o de Clarice Lispector. São dois dos maiores escritores nossos do pós-guerra, talvez os mais influentes. São escritores da mesma geração, por vezes agrupados com João Guimarães Rosa na chamada Terceira Geração Modernista (que difere e coexistiu com o Grupo de 45, seu antípoda). 

João Cabral de Melo Neto estreou em 1942, com Pedra do Sono. Clarice Lispector estreou em 1943, com Perto do Coração Selvagem. João Guimarães Rosa, em 1946, com Sagarana. Se pensarmos antoniocandidamente, considerando a estreia de um autor e portanto sua inserção no diálogo republicano como determinantes geracionais e históricas, teríamos que pensar ainda em José Paulo Paes, que estreia em 1947 com O aluno, e decidir o que fazer com Dante Milano e Joaquim Cardozo, autores mais velhos que têm publicações pela primeira vez também em 1947. Perdoem-me, alguns já sabem que tenho dessas obsessões historiográficas. As histórias que nos contamos muitas vezes nos determinam.

Mas retornemos aos centenariantes: Cabral e Clarice. Como é raro pensarmos nos dois juntos! Mas há vários paralelos com diferenças determinantes. Ora, não terão se cruzado na Recife de sua infância? Talvez sim, talvez não. Afinal, um deles era um menino da elite econômica de Pernambuco e neto de senhores de engenho; a outra era uma menina imigrante pobre. Os dois fariam do Rio de Janeiro sua casa, e ali morreriam. Os dois passariam longos anos fora do Brasil, envolvidos com a diplomacia brasileira, Cabral como diplomata ele mesmo, Clarice casada com o diplomata Maury Gurgel Valente.

Na obra de Cabral, Clarice comparece em um poema conhecido:

CONTAM DE CLARICE LISPECTOR
João Cabral de Melo Neto 

Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.

Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o, de gol a gol.

Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar na morte?

[extraído do livro Agrestes (1981/1985)]

Sabemos que Cabral apreciava muito o trabalho de Clarice, e tentou convencê-la a permitir que ele estreasse sua tipografia d'O Livro Inconsútil em Barcelona com um trabalho dela, à época uma peça intitulada 'O coro dos anjos', mas que só seria publicada no livro A legião estrangeira em 1964 com o novo título “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos”. Clarice recusou o convite.

Cabral entraria para nossa história como o poeta objetivo, seco, antilírico e anti-psicologizante. O menino rico também se tornaria o exemplo do autor engajado nas questões socioeconômicas do seu tempo. Clarice, por sua vez, seria lida como a autora das profundidades psicológicas (eu mesmo já cheguei a dizer que foi ela, com Machado de Assis e Nelson Rodrigues, que inventou nossa 'alma', não nos vendo como meros joguetes justamente daquelas forças socioeconômicas), a escritora de potência mística. 

Em seu texto para a revista Texte zur Kunst, Oliver Precht questiona justamente essa visão de Clarice Lispector como autora 'apolítica', a partir especialmente de um texto como "Mineirinho". E, ora, João Cabral de Melo Neto não é o autor daquela gigantesca pérola de profundidade psicológica e mesmo potência mística que é o poema “Uma faca só lâmina"?

Nos nossos dias de horríveis balas perdidas, não sei o quanto nos ajuda, salva ou exorta, pensar nas balas que comparecem em trabalhos de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Mas elas estão lá.

*

"Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

– João Cabral de Melo Neto, Uma faca só lâmina, excerto.

*

"Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.

Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos."

– Clarice Lispector, "Mineirinho", excerto.


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

PEQUENO EXERCÍCIO DE ORNITOLOGIA HAGIOGRÁFICA



de santos e sábios
os céus
têm os seus sabiás
e assuns.

só as aves sãs
são os anjos
que nos cabem,
nos sabem.

na igreja homens
egressos do barro
de novo são barro
cozido e pintado.

mas de Pedro 
vejo o velho 
vivo de cabeça
para baixo,

de Sebastião
vejo o jovem 
que era são 
antes das setas

e Francisco todo,
são e sanado,
canta ao lobo 
-guará e suindara.

São Barro,
rogai por nós,
somos só 
roupa e borra.

o que difere
seu João 
de 
São João?

o que difere
‘ave, Maria’ 
de 
‘vai, Maria’?

o cardeal 
a quem peço 
a bença 
é o pássaro,

o sol no mar
é meu Lázaro
e é você o sal 
da minha terra.

seja sã, Maria,
seja são, João,
nessa febre 
terçã do chão 

enquanto 
no céu, suave 
e só,
vai a ave.

*

Imagem: quatro trabalhos do holandês Albert Eckhout (1610–1665) para a ornitologia brasileira.

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domingo, 29 de novembro de 2020

Quatro poemas novos para o livro 'Odes a Maximin' (2018)


Meu livro 'Odes a Maximin' foi lançado pela Garupa Edições em 2018, com desenhos do artista alemão David Schiesser. Nos últimos 2 anos, acabei por escrever quatro outros poemas que numa futura edição passarão a fazer parte do livro. Eles seguem abaixo.


A CADEIA ALIMENTAR DE MAXIMIN

Pena, rapaz, é não pertencermos
à tradição semítica para que louve
tuas pernas como as da gazela.
Se não há tais bichos no território,
não é rijo o cervo-do-pantanal?
Cairá mal comparar esse teu torso
maciço à musculatura das antas?
Se não como leão, pois qual onça
rondas meu habitat. Eu, capivara
a latir de amor seu destino de presa
nas águas onde, sardento, pairas.

*

MAXIMIN ENTRE OS MINOANOS

Nu, deitado nessa cama com lençol claro,
não sei, Maximin, se és o touro alvo
de Possêidon para Minos, ou o Minotauro.
Eu me mantenho jocastamente coesa:
sou o útero que pariu tua cabeça bovídea
e a que usufruiu o sêmen quadrúpede,
graças a Dédalo arriada numa vaca lígnea.
Zoofílica saciei em coito esse deleite.
Mas uma novidade sei trazermos ao mito:
és livre. Sou eu a detenta do labirinto.

*

CARTA A MAXIMIN ESCRITA NA CAMA COMO SE ESTA FOSSE UM MONASTÉRIO 

Qual monge budista
com as mangas úmidas 
do samue no templo 
choraria por seu chigo, 

Maximin, eu te digo:

nessa tua longa ausência,
muitas vezes a raposa
já cruzou sozinha 
a lua no asfalto chuvoso.

*

MAXIMIN, ÚNICO

Com frequência,
habitantes minúsculos
do nosso planeta,
vírus e bactérias,
põem de joelhos
a nossa civilização.

Em meio ao pânico 
e ao isolamento
das mil pandemias,
Maximin, ajoelho-me
eu mesmo, e adoro
tua multicelularidade.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

ESPADACHINS


ESPADACHINS

                    a William Zeytounlian

Nada se reordenou no mundo
esta manhã em que eu descubro,
nesse desembainhar palavras de coisas,
que sempre chamei de peixe-espada 
o que outros chamam de espadarte.

Eles seguem inscientes do anzol,
essa outra arma nossa,
um deles assemelhando a espada 
com o corpo todo, o outro 
com o que lembra uma espada sobre a boca.

Contra dicionários e nossa indústria bélica
seguem por água doce e água salgada
o peixe-espada e o espadarte,
indiferentes ao que não seja tesão ou fome.

E na minha tesão e minha fome
vou também sendo catalogado no mundo,
em verossimilhanças e incongruências,
com a língua que também se usa
como anzol e como espada.

E se repito agora seus nomes
como quem decora as partes do corpo, 
é só para ordenar um pouco meu caos,
sem espada na boca além da língua,
como se assim os protegesse,
qual pudesse doar-lhes uma bainha:

este é o peixe-espada,
aquele é o espadarte,
e aqui está minha língua.
Nossa bainha é o mundo. 

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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Desanuviai-vos

 Gostaria de pedir a vocês alguns minutos para que se detenham e admirem a beleza do verbo DESANUVIAR.

de.sa.nu.vi.ar

(des- + anuviar)

verbo transitivo e pronominal

1. Limpar(-se) de nuvens.

2. [Figurado]  Libertar do que causa sensação ou sentimento negativo ou opressor; fazer perder ou perder o sentimento de preocupação; tranquilizar(-se); serenar(-se). = DESASSOMBRAR

3. Desenrugar o cenho.

Tanto que alguém pode chamar esta manhã de “manhã desanuviada”, essa característica tão bonita das manhãs, seu caráter desanuviador. Alguém talvez diga nesse exato instante, por exemplo, "Maria, precisamos desanuviar um pouco", ou "Dei uma desanuviada", ou “finalmente DESANUVIEI.”

Despejar-se de nuvens, o céu antes pejado, e, ora, meu caríssimo Fernando Pessoa, se teu "coração é um balde despejado", posso entender hoje, talvez, que você tenha então se desanuviado? É da natureza intrínseca do balde pejar-se e despejar-se. Para isso foi criado, e se despejou-se, cumpriu sua missão. Triste é só despejar o balde no destino errado de seus conteúdos. A isso chamamos: desperdício. “O leite derramado” X “O meu cálice transborda”.

Despejar não é despojar.

Pois despejamos as coisas porque elas se pejam e pesam, nós mesmos nos pejamos, e eu quero desanuviar. Despejar-me. Baldar os pejamentos. Tirar as rugas (voluntárias) do cenho, da testa, dos cantos da boca. 

Só espantam os maus espíritos as carrancas de madeira nos barcos de madeira, não a sua carranca de carne na sua carne de borco. Desenrugar a senha da alegria, até a difícil. Fazer a prova dos nove e dos novelos. Olhar as manhãs dos nossos setembros mas também as dos nossos marços com suas águas. As águas despejadas a balde das nuvens que se despojam para que o céu finalmente venha a desanuviar-se.

Que eu então despeje o coração. Como um balde ou como o céu, mas desanuvie.

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