quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"A sensação de ser transcontextualizado", ou "Quando Clarice Lispector traduz-se Christa Wolf"

Já escrevi inúmeros artigos neste espaço sobre o porquê de minha obsessão com o papel do contexto naquele processo chamado de charging language with meaning to its utmost degree, assim como minha ladainha meditante incansável sobre a necessidade de respeitarmos a inescapável historicidade do fazer poético. Volto a isso com uma frequência exasperante para muitos, seja em poemas, vídeos, ensaios. Não o farei hoje. O preâmbulo está aqui apenas para introduzir uma espécie de "coincidência".

A alemã Birgit Aka, doutoranda em Literatura Brasileira na Universidade de Passau, enviou-me por email na semana passada sua tradução para o alemão do meu poema "Conversa com duas estranhas", publicado no meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005). Fiquei surpreso e contente ao ler a tradução e perceber que ela havia seguido a ideia de contextualizar o poema, mais do que simplesmente traduzí-lo. O texto tem por ocasião uma experiência pessoal minha, um acontecimento verídico (coisa de filme televisivo talvez) do ano 2000, quando retirei na Biblioteca de Munique um exemplar do livro Perto do Coração Selvagem (1943) de Clarice Lispector, no qual encontrei pequenas anotações de uma estranha, anotações que me deixaram fascinado e ligeiramente obcecado. O poema é um resultado deste susto, desta tentativa de conexão quase mística ou telepático-psicótica com aquela estranha. Eu me sentia como que sugado para dentro de um conto da própria Clarice Lispector, com um certo pendor detetivesco que por sua vez me fazia sentir num conto de Julio Cortázar. Esta história é uma das minhas experiências míticas pessoais, tenho certeza que voltarei a ela um dia. Ela renderia mais poemas, um conto, quem sabe até um romance.

O poema relata de forma bastante plana e direta o acontecimento. Ele é a ocasião de sua ocasião. Surgiu primeiro em prosa, e depois, por seu caráter oral, fiz meu velho jogo de cortes de linhas para embaralhar a sintaxe. Seu prosaísmo seco, pelo menos naquela época, parecia-me a única maneira de fazer justiça à sensação estranhíssima que eu sentia ao acompanhar o romance de Lispector e ao mesmo tempo as anotações misteriosas da estranha. Não havia o que poetizar. É também um dos meus textos mais antigos, entre os que publiquei. Eu o escrevi no ano 2000.


Conversa com duas estranhas

prestes
a deixar o país retirei
na Biblioteca Municipal
de Munique Alemanha
o livro "
Perto do Coração
Selvagem
" de Clarice
Lispector
numa edição
brasileira
de 1984
em que encontrei pequenas
anotações em alemão a lápis
nos cantos de algumas
páginas numa caligrafia
que julguei feminina
delicada
algumas apenas traduções
para o alemão de palavras
que ela não entendia
como no alto
à página 34
em que ela não
conhecia a palavra “vergada”
e anotou sua tradução
para sua língua alguns pontos
de interrogação períodos
inteiros e vários “É ISTO!”
e “É
ISTO!” ou “ELA
ENTENDEU!”
todas em alemão
estou traduzindo
muitos pontos de exclamação
um “COMPREENSÍVEL”
é estranho
que as anotações cessam
de repente e só
voltam na página
168 um “ÓDIO” anotado
na página 201 às margens do
trecho “É verdade
que o silêncio entre eles
fora assim mais perfeito”
quando na página
202 as anotações explodem
em pontos
de exclamação interrogação
números 1-2-3 que não
compreendo
escrita ilegível
nervosa a última à página
203 diz “História da
Humanidade” precedida
pelos números 1-1-2-3-4-1
quando na página
seguinte já sem
anotações da
estranha Clarice Lispector
escreveu “... desde
que ela era mulher... A morte...
E de súbito a morte
era a cessação apenas... Não!
gritou-se assustada, não
a morte.”


Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005)

Não sei se fui capaz de fazer jus àquela ocasião poética. Certamente voltarei a esta história em meio à minha História algum dia.

Isso foi há dez anos. Talvez esteja na hora de voltar a Munique e procurar aquele livro.

Em 2006 publiquei na revista Germina um ensaio intitulado "Tradução, contexto e migrações possíveis", no qual discuto a possibilidade de que uma só teoria de tradução não possa dar conta das múltiplas relações poéticas com a historicidade. No ensaio, proponho a possibilidade de que alguns poemas estejam tão ligados a seus contextos, que a única maneira de os traduzir não pode levar em conta apenas semântica, métrica, ritmo, mas também o contexto em que foi escrito, buscando uma espécie de transcontextualização (como a chamei no ensaio), ou quem sabe uma simples contextualização. No segundo número impresso da Modo de Usar & Co., o poeta Fabiano Calixto deu-nos alguns exemplos incríveis desta possibilidade tradutória com suas transcontextualizações para poemas de Allen Ginsberg.

Sem termos conversado a respeito, sem que Birgit Aka conhecesse meu ensaio ou soubesse destas minhas obsessões, ela escolheu contextualizar este meu poema para um leitor alemão, traduzindo Clarice Lispector por Christa Wolf, a importante escritora da antiga Alemanha Oriental, e usando seu romance Medea: Stimmen (1996) no lugar de Perto do Coração Selvagem. Da mesma maneira, quando menciono Munique em meu poema, ela menciona São Paulo, já que ela própria fora estudante estrangeira no Brasil, como eu era estudante estrangeiro aqui na Alemanha naquele ano 2000.

Voltando ao velho adágio traduttore, traditore, eu diria o seguinte: prefiro ser traído a ser exotizado. Deixo vocês com a contextualização de Birgit Aka.




Gespräch mit zwei Fremden

bereit
das Land zu verlassen entlieh
ich in der Bibliothek der Universität
São Paulo Brasilien das
Buch Medea.
Stimmen
von Christa
Wolf eine deutsche
Ausgabe aus dem Jahr 2010 das
Buch in Deutsch in
dem ich kleine Bleistift-
notizen in Portugiesisch in
den Ecken einiger Seiten
entdeckte in einer
delikaten
femininen Schrift
einige sind lediglich Übersetzungen
ins Portugiesische von Wörtern
die sie nicht verstand wie
auf Seite 32 weit
oben, wo sie das Wort
„Augenblicksschwäche“ nicht verstand
und ihre
Übersetzung ins Deutsche
notierte
manche Fragezeichen
ganze Abschnitte einige „SO IST ES“
und „SO
IST ES“ ein anderes „SIE BEGREIFT‘S“
alle in Portugiesisch ich übersetze
viele Ausrufezeichen ein
„VERSTÄNDLICH“ es ist seltsam dass
die Notizen plötzlich aufhören
und erst
auf Seite 139 wieder einsetzen
ein „ARSCH“ notiert auf
Seite 160 neben dem
Abschnitt „Sie hat
es mir vorausgesagt.
Nicht auftrumpfend, nein,
eher traurig, oder mitleidig,
was unverschämt war. Sie hatte sich ja
selbst jedes Mitgefühl verscherzt. Das
sagte man mir im Rat, als ich versuchte,
für sie
um Milde zu bitten, wobei ich
nicht versäumte,
die Schwere ihrer Vergehen zu
betonen, sie hätten mich sonst
in der Luft zerrissen.“
auf Seite 167 explodieren
die Notizen in Ausrufe-
zeichen Fragezeichen
Nummerierungen 1-2-3 die ich
nicht verstehe unleserliche
Schrift nervös
die letzte ist auf Seite
173 und lautet „Geschichte der
Menschheit“ angekündigt durch die
Nummern 1-2-3-4-1
sechs Seiten später ohne
Notizen der Fremden
schrieb Christa Wolf: „Und wie?
fragt der Bursche mit Verschwörermiene.
Gesteinigt! brüllen viele.
Wie sie es verdienten. Die
Sonne geht auf. Wie die Türme
meiner Stadt im Morgenglanze
schimmern.“


(tradução de Birgit Aka)

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma notícia boa que trouxe consigo uma lembrança triste. Pensando sobre a poesia de Leonardo Martinelli dois anos depois de sua morte.

Recebi hoje por correio eletrônico o convite para o lançamento da coleção "Ciranda da Poesia", da EDUERJ, Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Com organização e direção de Ítalo Moriconi, Masé Lemos e Diana Klinger, o projeto busca fomentar o diálogo crítico sobre a poesia atual, convidando poetas e críticos ativos hoje a discutirem o trabalho de seus contemporâneos. Cada volume traz portanto um estudo crítico alentado sobre um único poeta, com uma antologia de seus poemas. Os primeiros volumes são dedicados aos seguintes poetas:

§ - Sebastião Uchoa Leite (estudo crítico e antologia a cargo de Franklin Alves Dassie)
§ - Leonardo Fróes (a cargo de Angela Melim)
§ - Chacal (a cargo de Fernanda Medeiros)
§ - Antonio Cicero (a cargo de Alberto Pucheu)
§ - Carlito Azevedo (a cargo de Susana Scramim)
§ - Claudia Roquette-Pinto (a cargo de Paulo Henriques Britto)
§ - Guilherme Zarvos (a cargo de Renato Rezende).

Também colaboraram com o projeto Viviana Bosi e Marcos Siscar. Espero poder ter alguns dos volumes em algum momento, para poder resenhá-los.

A notícia, que é bastante legal, trouxe-me à memória o querido poeta Leonardo Martinelli, que morreu há pouco mais de dois anos. Nos meses antes de sua morte, estávamos em contacto mais frequente, pois ele estava justamente preparando um estudo crítico sobre o meu trabalho e uma antologia de meus poemas para que fizéssemos parte desta primeira leva de livros da coleção, como a única dupla de poetas dos últimos poucos anos. Como vocês perceberam pela lista, foram escolhidos poetas das décadas de 60 (Uchoa Leite, Fróes), 70 (Chacal) e 90 (Cicero, Azevedo, Roquette-Pinto, Zarvos), mas Martinelli havia conseguido convencer o Moriconi a permitir que ele escrevesse sobre o meu trabalho.

No entanto, Martinelli não teria tempo sequer de preparar seu novo livro de poemas, cuidar de seu estudo crítico sobre Julio Cortázar, ou seguir com nossas conversas sobre Agamben e a poesia contemporânea: nosso companheiro morreu no Rio de Janeiro, em novembro de 2008. Alguns dias depois, Marília Garcia e eu preparamos uma postagem com poemas dele para a Modo de Usar & Co.. Este ano, a convite de Fabiano Calixto, escrevi um pequeno artigo sobre a poesia de Leonardo Martinelli para acompanhar uma antologia de seus poemas, selecionados por mim e por Calixto e publicados na revista Almanaque Lobisomem (2010). Como a morte colheu tantos projetos em que poderíamos ter compartilhado, cooperado, comiserado, coexistido, publico aqui o meu artigo sobre a poesia de Leonardo Martinelli, como uma homenagem ao amigo morto, que escreveu um dos meus poemas favoritos nesta década que se encerra: aquelas receitas para engolir e curar o fracasso. Que a terra lhe seja leve, meu amigo.


Receitas para engolir e curar o fracasso
Leonardo Martinelli

Origem, compra, preparo e sabor

1. Ave sertaneja
de porte médio
fibrosa, rija
de vida noturna

Preços: vinte e
sete contos o quilo
no Mercadão de
Madureira ou

trinta e sete
(ágio de dez paus)
nos açougues febris
da rede Mundial

O jeito é pegar
um 254 na madruga
ou encarar de frente
o trem da Central


2. Embrulhe o fracasso
com jornal de ontem


3. Afogue duas postas numa
panela de barro contendo
dois litros de vinho barato

Salgue e asse
em fogo alto

Enfeite o prato
com uma dúzia de

amóreas secas + 100 g
de fios de óvulos


4. Aí vai ele
numa baixela dourada
ridícula - duas
palavras
em francês fajuto
farão sorrir amarelo

o rapaz de
meia-idade e enrubescer
as bochechas
gentis suburbanas
à mesa

Rende
para uma duas três
mil pessoas


Posologia

Uma vez
hiperdosada
vai-se a bula ao
mar de bile



§
§
§



Pensando em Leonardo Martinelli



por Ricardo Domeneck



O poeta Leonardo Martinelli morreu aos 37 anos, no Rio de Janeiro onde nasceu, com um único livro publicado, Dedo no ventilador (2005), além de inúmeros ensaios, resenhas e poemas esparsos, espalhados por publicações impressas e digitais. Se a sua morte acaba por dar a sua obra o caráter inevitável de incompletude e interrupção, creio que poucas coisas o irritariam tanto quanto a ideia de ter seu trabalho enquadrado no discurso das carreiras promissoras, discurso que ele próprio combateu como poeta-crítico. Se a sua poesia pode hoje, infelizmente, integrar a triste lista dos poetas brasileiros de morte prematura, como Augusto dos Anjos, Pedro Kilkerry, Mario Faustino, Torquato Neto e a própria Ana Cristina Cesar que ele homenagearia com exasperação no poema “Elegia/ACC”, com os versos “Não, / Ana, nem / vem que não / tem: que / há para celebrar? / Teu salto / descalço na piscina / vazia? / As vinte e poucas / edições de tuas / obras / incompletas?”, chegando à asserção franca de “Foda-se, / Ana C., // você exaspera / qualquer um / com dúvidas, dívidas / filhos e culhões / com esses ares / de sereia pré-rafaelita / perdida / no Baixo Gávea”, seu trabalho merece, como o destes poetas, ser avaliado por suas contribuições e conquistas específicas, acima do discurso que Flora Süssekind já chamou de hagiográfico, dedicado com frequência e certo oportunismo crítico a jovens poetas mortos.

Conheci o trabalho de Leonardo Martinelli na revista carioca Inimigo Rumor, com a qual ele viria a colaborar regularmente, chegando a fazer parte de seu comitê editorial. Na revista ele estrearia com poemas, além de ensaios, como o texto importante que dedicou ainda muito jovem ao trabalho de Ferreira Gullar. Formado na década de 90, período em que vigorava, como parâmetro de qualidade, a poética construtivista que se depreendia da obra de João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) e Augusto de Campos (n. 1931), privilegiando uma composição minimalista e concisa em concretude, com um trabalho marcado pela consciência da materialidade substantiva e visual da linguagem (o que também marcou as traduções de maior influência no período, como as do norte-americano Robert Creeley), parte do trabalho de Leonardo Martinelli poderia ser agrupado à estética que comandou a atenção de muitos poetas jovens daquele momento, pelo menos ao sul e sudeste do país no fim do século passado, tal qual a vemos em livros tão diversos entre si quanto Solo (1996), de Ronald Polito; O marciano (1997), de Felipe Nepomuceno; Fábrica (2000), de Fabiano Calixto; Prosa (2001), de Eduardo Sterzi; Carbono (2002), de Tarso de Melo; Geografia íntima do deserto (2003), de Micheliny Verunshk; ou Crivo, de Danilo Bueno, e Primeiro as coisas morrem, de Diego Vinhas, ambos de 2004. Essa poética pode ser ainda ligada a Sebastião Uchoa Leite (1935 - 2003) e encontra raízes, no Brasil, em modernistas como Oswald de Andrade (1898 – 1954) e Joaquim Cardozo (1897 - 1978), sem mencionarmos poetas portugueses como João Apolinário (1924 – 1988), António Ramos Rosa (n. 1924) ou mesmo Ana Hatherly (n. 1929), com conexões variadas ao trabalho dos poetas brasileiros mencionados. Alguns destes poemas de Martinelli publicados na Inimigo Rumor, como “Anular” ou “Dorian”, viriam a integrar seu único volume editado.

Dorian

Então fitei
a tela - meus
olhos impressos
no espelho
(leitor-irmão
de sangue e tinta
ausente)
Cupins e traças
se encarreguem
da moldura:
quem sabe de mim
sou ele

Em seus poemas posteriores, Leonardo Martinelli parece introjetar a tática do conciso, para então transformá-la em uma espécie de estratégia do pontiagudo, passando a evitar o descritivo neutro de paisagens urbanas e máscaras mortuárias (cf. “Nietzsche: máscara mortuária”), assumindo também um desejo de intervenção histórico-textual, o que marca sua participação no afastamento que temos sentido, nos últimos tempos, da ideologia ligada a um conceito questionável como o de “trans-historicidade”. Como exemplos, poderíamos mencionar os poemas “Três torres, dois séculos, um dia” e “Dois fogos”, que integram esta seleção (refiro-me à antologia publicada no Almanaque Lobisomem).

Três torres, dois séculos, um dia
Leonardo Martinelli

A primeira tornou-se mito
ao servir de suporte à loucura
de um poeta farto dos homens
a não ser por certa Susette
falecida quatro anos antes
dele abrir seu prontuário
no manicômio de Tübingen
em 11 de setembro de 1806

As outras chamavam-se Gêmeas
cravadas no centro de Manhattan
bombeando usura aos quatro cantos
da Terra – ainda estariam lá
não fora um tresloucado
do Extremo Oriente Médio
explodir ambas de uma vez
em 11 de setembro de 2001

Creio que seus melhores textos estão entre aqueles que foram produzidos e divulgados nos últimos dois anos de sua vida, quando Martinelli elide a camuflagem do eu-ventríloquo que passou a se flagrar cada vez mais em alguns casos desta poética da objetividade, no fim do século XX e início do XXI, retornando, creio poder dizer, à lição de Ezra Pound, a que predicava o tratamento direto da coisa, seja objetiva ou subjetiva, além do importante conselho de que only emotion endures, entregando-nos alguns de seus poemas mais bonitos. Sua ligação no Rio de Janeiro à música popular viria a trazer ao seu trabalho uma aproximação escritural à mímica dos enunciados orais, sem no entanto recorrer a um discurso do espontâneo falsificado, outro aspecto que o aproxima à simplicidade da dicção do poeta português João Apolinário, injustamente esquecido.

Não compete ao crítico a veleidade futurológica. Poemas provam sua força, alguns diriam, por sua longevidade canônica; outros, por sua flexibilidade histórica, mostrando-se capazes de prover aquilo que necessitam as gerações sucessivas, adaptando-se aos novos parâmetros de qualidade e às novas funções históricas dos poetas, em cada um de seus contextos. Se pensarmos em poetas de morte prematura como Sylvia Plath, cuja obra tanto lucrou como foi prejudicada pelo discurso hagiográfico que a envolveu por muitos anos, encontraremos um exemplo de trabalho poético que, se se fragilizou com o tempo em suas manifestações iniciais, segue mostrando-se vigoroso em seus textos finais, escritos sob a pressão do terror que estreita (na estonteante etimologia da palavra angústia), como é o caso de uma das séries de poemas finais de Plath, conhecida como “poemas das abelhas”. Acima de quaisquer discursos de perfeição formal, são textos que perduram pelo choque intenso entre o veículo e o que veicula. Uma avaliação mais clara e completa sobre o trabalho poético e crítico de Leonardo Martinelli só será possível quando todos os textos dispersos forem reunidos em um volume futuro. Minha crença e aposta, por ora, torna-se aqui pública em favor de alguns dos seus poemas finais, como o bonito “Receita para curar e engolir o fracasso”, um dos poemas memoráveis (outro parâmetro crítico de Pound, o memorável) e também um de meus poemas favoritos nesta década que se encerra, entre alguns outros poemas do carioca. Textos que, eu creio, serão capazes de manter pontiagudas suas quinas, para perfurar cérebros e miocárdios futuros, em seus terrores privados e públicos, ou talvez ajudando-os a cavar, cavar até encontrar do estreito o escape.


Retrato Cubista (para cdcl)
Leonardo Martinelli

Não há remédio
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e

o amor através -

além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -

do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -

então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -

esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso

(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Péter Forgács, contexto e outras febres

Descobri o trabalho de Péter Forgács ao acaso, mas em um contexto específico; e é o acaso e o contexto que parecem estar tão ligados à est-É-tica do cineasta e artista visual húngaro. Naquela noite, há alguns anos, eu estava na verdade investigando na Rede uma de minhas obsessões febris, Ludwig Wittgenstein: o filósofo, o arquiteto, o austríaco, o judeu, o homossexual. Naquele emaranhado de informações que tanto nos despistam como nos presenteiam nesta tal WWW, acabei pousando na página recém-criada para Péter Forgács no arquivo do Ubu (infelizmente foi apagada por questões de copyright), justamente por causa de seu vídeo Wittgenstein Tractatus (1992), com sete vinhetas em que cada uma das sete proposições centrais do Tractatus Logico-Philosophicus (1922) recebe uma oralização sóbria e tocante, assumindo uma carga explosiva de emotividade ao unir-se à técnica principal de Péter Forgács: a utilização de filmes caseiros da sociedade húngara da década de 30 e 40, logo antes da catástrofe da Segunda Guerra.



Excerto de Wittgenstein Tractatus (1992), de Péter Forgács.


Há autores que me dão febre. Certas páginas de Clarice Lispector em A maçã no escuro (1951) e A hora da estrela (1977); muitas páginas de Miguel de Unamuno em Do sentimento trágico da vida (1933); páginas de Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso (1979); tantas páginas de Hilda Hilst, especialmente em Qadós (1973); assim como praticamente todos os momentos em que toma a palavra Alyosha, n´Os irmãos Karamazov (1880). Eu poderia me estender e mencionar alguns outros, mas não era exatamente sobre os autores de minhas febres que eu queria escrever hoje: para o que vou comentar aqui, preciso acrescentar apenas mais um febril meu: certamente entram na lista páginas e mais páginas de Ludwig Wittgenstein, algumas no Tractatus Logico-Philosophicus (1922), muitas nas Investigações filosóficas (1951) e em vários outros livros do austríaco povoando meu quarto.

Pois bem, retomando o fio desta meada, queria dizer que o vídeo de Péter Forgács, de apenas 35 minutos, foi uma das experiências mais incríveis de transposição para uma tela de imagens do que eu antes chamava de minha febre, que reside geralmente em algum lugar entre o diafragma e a faringe deste meu corpo, quando está na presença dos autores da minha paixão, como alguns dos supracitados. O vídeo é lindo, uma coisa realmente linda em minha suspeita opinião. Usando imagens da felicidade particular alheia, de pessoas que não sabem que lhes está por sobrevir grande destruição, enquanto uma voz pacata recita as proposições cheias de implicações zen-aterrorizantes de Wittgenstein, é como se você, telespectador, se transformasse em uma espécie de Cassandra.

No ano passado, voltando de um festival de poesia na Eslovênia onde eu lera em Liubliana e Medana, decidi juntar as moedas e ir de busão a Veneza (onde quase fui comido por pulgas num albergue lazarento) para ver pela primeira vez a Bienal. Caminhando pelos pavilhões centrais após sentir-me bastante constrangido pela representação brasileira, entrei no Pavilhão da Hungria. Pois era justamente Péter Forgács quem representava (muito bem) seu país, apresentando mais um de seus trabalhos em que um arquivo de imagens históricas é usado para o recontextualizar-se, não no prefixo re que insinua transformação, mas intensificação.

Forgács nasceu em 1950 e vive em Budapeste. Desde 1978 já dirigiu mais de 30 filmes. Começou a se tornar notório com seu trabalho de garimpo de imagens com uma série chamada "Hungria privada", resgatando histórias pessoais em meio ao cataclismo coletivo por que passou o país, não apenas sob os nazistas como sob o domínio soviético.


Either-Or, da série "Private Hungary" (1989)


A técnica de Forgács, ao usar found footage, não é o readymade. Nem pode ser confundida com o uso que a Internacional Situacionista fez de found footage. O que Forgács faz parece-me o oposto do détournement situacionista (que eu, diga-se de passagem, sigo admirando imensamente). O que Forgács faz é mais um rétournement. Seu trabalho é uma fonte de meditação pessoal muito rica para mim, tão obcecado como sou pelo papel do contexto em nosso processo de significação. How does one really charge language with meaning to its utmost degree? Imagino que resida aí parte do meu, do seu, do nosso interesse por Wittgenstein?

A você, querido leitor, recomendo a visita à página pessoal de Péter Forgács, e que escreva uma carta ao seu representante constituinte cultural exigindo uma retrospectiva do húngaro no cinema mais próximo de sua casa, enquanto você ainda a tem. Se você já leu Wittgenstein ou assistiu a Forgács, saberá que o abismo se abre a cada passo, logo atrás dos seus calcanhares.



Excerto de Meanwhile Somewhere 1940-43 (1993).

Recontextualizing the W.W.II. time home movies, is juxtaposing the extremely different lives of Europeans. The patchwork images of the "Übermensch", the "Normal" and the "Untermensch" families in Meanwhile Somewhere offers visible evidence of the private aspects of the war. Hitler's plan was simple with most of the population of occupied East and Southern Europe, destroy or enslave them. In 1942 after the Wannsee Conference the European Jews deadly destiny was decided as the Final Solution. In Meanwhile Somewhere the intimate, the brutal, the happy, the rare or clandestine amateur shots of different European amateurs home movies and clandestine shots counter point a Nazi ritual's film, the miscegenation's racist punishment of the two young lovers, the eighteen year old German boy, Georg-Gerhard and the seventeen year old Polish girl, Marie in occupied Poland, Scinawa Nyska village, 1940. This public punishment film document is the rondo pulse through out the piece. Mosaics of suggestive different families images stories counter point the sadist shaving: a National Socialist performance lesson to the children of the German-Polish village. Meanwhile Somewhere's elegy accompanied by Tibor Szemzõ's visionary music.

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Poetas da América Latina em Berlim: a quinta edição do Festival de Poesia Latino-Americana. Nota, com poemas de Erber, Zaidenwerg e outros autores.

Ocorreu no início deste mês aqui em Berlim a quinta edição do Festival Móvel de Poesia Latino-americana, com leituras e debates que têm sido sediados desde 2006 por instituições como o Instituto Cervantes, o Instituto Ibero-americano (Ibero-Amerikanisches Institut) e o Instituto para a América Latina da Universidade Livre de Berlim (Lateinamerika Institut der Freie Universität Berlin). Com direção dos alemães Timo Berger e Rike Bolte, o festival já trouxe ao país, sempre cuidando para que uma pequena seleção de seus poemas seja traduzida para o alemão, poetas do Chile, Argentina, México, Guatemala, Peru e, entre outros, até do Brasil. Participei com Douglas Diegues da primeira edição, em 2006. No ano seguinte, o festival trouxe a Berlim os poetas Carlito Azevedo e Angélica Freitas. Não houve poetas brasileiros nas edições de 2008 e 2009, mas este ano a poesia em língua portuguesa voltou a soar no festival com a vinda de Laura Erber.

Ainda que possamos discutir a tarjeta de "latino-americanos" reunindo poetas tão diversos em cultura/poética/língua, não se pode negar que o festival tem sido um portal importante para a divulgação do trabalho de jovens poetas do continente velho/novo aqui no continente novo/velho. Não só por isso, mas também por permitir o encontro e possível colaboração entre os próprios poetas latino-americanos, já que nem sempre é possível que se encontrem em outros festivais do próprio continente.

Quanto à tarjeta, há sim aquela velha discussão, que me parece ainda interessante: podemos realmente crer que um poeta em Buenos Aires compartilha da mesma cultura, poética e tradição de um poeta da mesma idade em Lima? Em Caracas? Até que ponto um poeta de Santiago do Chile compartilha da mesma língua usada por um poeta de Bogotá? Um poeta de São Paulo compartilha com um poeta do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte ou de Fortaleza a mesma língua?

Apesar das inevitáveis escolhas institucionais que um festival de poesia dependente do dinheiro público acaba por ter que fazer, Berger e Bolte conseguem trazer todos os anos alguns poetas realmente muito bons, que eu infelizmente não viria a conhecer de outra forma. Creio que mesmo no Brasil é difícil conhecer com amplidão a poesia sendo feita em outros países do continente, já que os próprios canais usuais da poesia hispânica no Brasil seguem as agendas publicitárias de grupos e "movimentos" específicos.

Um dos maiores prazeres, tanto de ordem pessoal como poética, foi poder reencontrar a poeta carioca Laura Erber e ouvir seus poemas recentes. Nascida no Rio de Janeiro em 1979, Erber já publicou três coletâneas de poemas: Insones (2002), Os corpos e os dias (lançado em edição bilíngue português /alemão em 2006, e em português/inglês em 2008) e Vazados & Molambos (2008). Sobre os dois últimos, escrevi o pequeno ensaio "A incerteza como princípio: dois livros de Laura Erber" para a revista Cadernos de Não-Ficção, editada por Antônio Xerxenesky. Publiquei uma versão do texto aqui. Erber leu poemas inéditos, além de textos do seu último livro. Gravei um vídeo com sua leitura, que pretendo publicar em breve na Hilda Magazine. Ela me deu a permissão gentil de reproduzir aqui um dos inéditos:

§

uma amiga não tem chaise longue
nunca teve
nem em Gotemburgo
nem em Lisboa
um dia descobriu que gostava muito
da palavra chaise-longue
sentia um arrepio bom estranho
espécie de sexo sem sexo
sem o homem e sem a mulher e sem os sexos
começou a freqüentar a Rua do Alecrim
decidida a testar a arbitrariedade do signo
colecionou inflexões tensas bruscas
suavíssimas da chaise longue
mas nada alterava (o frisson?)
pressionou vozes roucas contra a parede
graves contra o assoalho
agudas contra padrões fisiológicos
de veludo contra teóricos húngaros
e a posterioris
de tanta pressão adoeceu
foi então que descobriu a rádio Vox
uma rádio amarela num país cinzento
para ouvir numa chaise longue
debaixo do toldo


(poema inédito de Laura Erber)

§

O festival deste ano trouxe vários poetas dos quais jamais havia ouvido falar. Creio que o único de quem eu já conhecia alguns poemas era o guatemalteco Alan Mills, que viveu um período em São Paulo. Imagino que alguns dos leitores escassos mas generosos deste meu espacinho o conheçam, tenham suas opiniões, seus gostos.


Marca de agua

Lenta es la luz
cuando quiere alumbrar
los pozos de lo olvidado.
A Brodsky lo encerraron
por huevón/
por parasitismo social
y nadie supo entonces
nadie sabe ahora/
que muchos más quedaron
saludando muros eternamente.
Hay quienes esperan/
hay los que confían
en que sus huesos se abracen/
se froten y clamen por ellos.
Lenta es la luz y la luz es
la confirmación del abismo.
Estéril soñar con poetas apolíneos
que caminen/ lloren/ canten
con una marca de agua en el alma.
Inútil todo
y las bombas que amenazan
caer como cae la lluvia.

(poema de Alan Mills)

§


Gostei da leitura da porto-riquenha Mayra Santos-Febres. Não havia lido seus poemas antes e não sei se eles também funcionam na página tão bem quanto em sua voz. Deixo com vocês a decisão.




HOY SALE EL anuncio por la prensa
hoy se enteran las monjas del último colegio
hoy lo sabrán los enemigos
la cabeza de mayra santos tiene un precio
dice: sale, sale, venta, aproveche.
y habrá quien tenga cambio exacto
habrá quien haya ahorrado de su bono navideño
para tenerla en su casa y en su closet.
ya lo dicen hasta las abuelas:
oh hijos del expreso, oh señora de las bolsas repletas
le compraría usted a su nietocito núbil
a esa que se agarra el pipicito sin saber de su ceguera futura
esta bella cabeza con pelo
bella, sí bella
reluciente cabeza que palabrea sin necesidad de baterías.
y usted, señor de las papayas
quien vende con la balanza arreglada
como la cabeza de nuestra protagonista. seguramente un día
tendrán que hacer sus niños sobre ellas.
a usted, sí, como a tantos
esta cabeza es un verdadero negocio.
la asociación de mujeres embarazadas han avisado su interés
para que la cabeza juegue con sus niños que,
según últimas predicciones, serán grandes futbolistas.
la comisión de asuntos para la preguntas la quiere
para su programa de educación continuada a la comunidad
tal así una firma de cosméticos, best copies, y calzado kinneys.
pero a usted, señor transeúnte, señor desempleado de atunera,
se la vendo.
existen especificaciones sobre su manejo que deberán ser respetadas, no faltaba más.
oh, señor guaguero mire lo que traigo en esta bolsa,
es la cabeza de mayra santos
escojimos su casco para esta venta pre-inventario.
seso rebosado y tierno, dicen que de ámbar.
usted sabrá cuando la abra y vea
que es de ver esta cabeza, una maravilla
mayra santos la donó, dijo que ya no la necesitaba
su cabeza marcaba precaución, peligro y ella
de rabia, llamó a sus amigos,
“póngale precio a mi cabeza
pónganle precio a este azote eléctrico
a esta ponchador de a tres minutos”.
así sale en la etiqueta, así
SALE, SALE, VENTA que se acaba
asegúrese de tener seso para cuando no haya.
la cabeza de mayra santos tiene precio
cómprela, cómprela,
quién la quiere, quíen.

(poema de Mayra Santos-Febres)

§

Dentre os poetas que descobri aqui, posso mencionar em especial um deles, que me parece um poeta realmente bom e inteligente, com quem gravei um vídeo para a minha Hilda Magazine: o argentino Ezequiel Zaidenwerg, nascido em Buenos Aires em 1981. Ele mantém um blogue muito bom com suas traduções poéticas, e uma pesquisa rápida pela Rede indica que ele tem recebido bastante atenção crítica na Argentina. O festival o apresentou como "um dos melhores poetas argentinos contemporâneos". Estas nominações em geral causam apenas mal-estar e problemas, então prefiro simplesmente mostrar-lhes seu trabalho, para que cada um chegue à sua conclusão. Abaixo, veja o vídeo de sua leitura para os poemas "Doxa" e o esperto "Lo que el amor les hace a los poetas", dos quais reproduzo os textos em seguida.



Ezequiel Zaidenwerg lê os poemas "Doxa" e "Lo que el amor les hace a los poetas", nos originais em castelhano.


O vídeo começa pelo poema "Doxa", mas sigo aqui a ordem inversa: primeiro o inédito "Lo que el amor les hace a los poetas", e então "Doxa", publicado na coletânea de estreia e de mesmo nome de Zaidenwerg.

Lo que el amor les hace a los poetas

no es trágico: es atroz. Les sobreviene
una luctuosa ruina a los poetas que el amor captura,
sin importar su orientación o identidad
poética. El amor lleva al total desastre
de la uniformidad a los poetas gay,
a los poetas pansexuales y bisiestos,
y a las poetas y poetrices feministas, fementidas o veraces;
a los obsesionados con el género
y a los degenerados por igual, y a los perversos polimorfos:
y hasta los fetichistas de los pies
del verso capitulan a las plantas del amor,
que no distingue ideología,
programa ni poética. A los vates de la torre de marfil
los precipita del penthouse ebúrneo
directo a planta baja. A los apóstoles
del Zeitgeist, que proclaman sin empacho que la lírica está muerta,
les permite insistir en el error
y en sus prolijas parrafadas. Les produce una hemorragia palatal
a los que comban parcos aforismos diagonales,
a los herméticos de lata, a los que envasan
sus versos al vacío, a los falsarios del silencio,
y a los que fraguan haikus castellanos
al itálico modo. A los puristas de la voz les corta en seco
su dulce lamentar, y a los maniáticos del ritmo
les quiebra las falanges, y estropea
el íntimo metrónomo que llevan junto al corazón
para marcar el paso de sus versos. Les compone el sensorio
a los videntes y malditos y demás
rebeldes e insurrectos sin razón ni causa
poética, y les cura el desarreglo razonado
de todos los sentidos. Desaloja de su noche oscura
a los que piden luz para el poema
en las cavernas del sentido, y los devuelve sin escalas
a la trasnoche de la carne literal. Lo que el amor
les hace a los poetas, con paciencia y mansedumbre,
mientras las mariposas lentamente les ulceran el estómago
y el páncreas poco a poco deja de funcionar,
es harto inconveniente. A los que buscan con ahínco
y precisión de cirujano la palabra justa les arruina
el pulso, y en lugar de dar la vida, la aniquilan en su afán.
Y a los que con ardor y devoción persiguen
un absoluto en el poema, como un grial
todo de luz, tirante, diáfana y febril,
les nubla las certezas, y el deseo mismo
de saciar su ansiedad. Lo que el amor
les hace a los poetas, inadvertidamente,
mientras cosen y cantan y se atoran de perdices, es agudo, terminal
y fulminante. Es un torrente arrollador
de prosa, que espolea y multiplica, en progresión exponencial,
a los zopencos y palurdos de la poesía:
a los que cortan sin razón sus versos diminutos;
a los jinetes compulsivos;
a los diseñadores tipográficos del verso;
a los que quiebran la sintaxis sin saber
torcerla; a los que escarban en el éter a la busca de inauditos neologismos inaudibles;
a los modernos sin pretexto; a los que creen descubrir
la pólvora en sus versos balbucientes;
a los contestatarios automáticos y a los porno-poetas;
a los que sueltan grandes nombres por la densa
fronda de sus poemas, como Hansel y Gretel arrojaban
migas; a los que impostan en su voz
vacante los mohines de una infancia lobotomizada;
a los poetas bellos y felices, caprichosos;
a las tribus urbanas y los groupies de la poesía pubescente;
a los poetas pop y los rockstars del verso; a los videopoetas y performers;
a los ovni-poetas, voladores o rastreros, identificados;
a los objetivistas sin objeto
ni vista; a los que exigen que el poema
se vista de mendigo; a los filósofos poetas;
y a los cultores convencidos
de la “prosa poética”. El amor,
que mueve el sol y a los demás poetas,
los lleva hasta el postrero paroxismo: los convierte
en tierra, en humo, en sombra, en polvo, etcétera:
en polvo enamorado.
Y si resulta todavía que entre ellos
se aman amorosos los poetas pares,
felices en su amor solar sin escansión,
como si fueran en verdad el uno para el otro
un agujero negro de opiniones nebulosas,
tácitas palmaditas en la espalda y comentarios al pasar,
enanos, enfriándose, se absorben entre sí
y desaparecen.

(poema inédito de Ezequiel Zaidenwerg)

§

Doxa


Me quedé y me olvidé de que tenía que haberme quedado,
trabajando, quizás. Y abrí los ojos, grande,
hice una carpa con los codos y el encuentro de las manos.
Puse la cara encima. Esa película abrasiva,
el halo capilar que empieza a titilarme entre las palmas, eso
no puede ser mi gloria. No me glorío en nada
que avise cuando va a manifestarse;
o nunca me glorié, o nunca supe en qué gloriarme,
y cómo. Y estos ojos,
la piel de la nariz, el caracol de los oídos,
el breve vaso de agua de la conciencia, eso,
sólo lo puedo ver cuando me miro en el espejo,
o lo ven los demás sin que yo mire,
o me miro en los otros. Y está bien que así sea,
supongo. ¿Adónde está mi roca,
me pregunto, mi fuerza, mi peñasco, entonces?
Tiene que haber alguna cosa en mí que brille más
allá de mí, o vaya a hacerlo alguna vez, o lo haya hecho,
quizás sin darme cuenta yo. Y se me ocurre algo:
cuando era un embrión, cuando me hicieron,
la bola de epitelio que intentaba, ajena a mí,
actuar la simple forma que era yo, miraba toda para afuera,
un tubo dado vuelta, dado vuelta de nuevo,
con el estómago y el hígado indistintos, y los oídos y la boca:
la misma superficie, un guante solo,
única esponja-flor posada sobre el mismo, único, eje,
fisonomía pura en el abigarrado aire del vientre de mamá.
Debía haber un brillo ahí que se perdió cuando la cara ya formada
se tragó todo el resto, cuando por un pudor que no me dieron a elegir
–¿acaso el artificio le reclama al artífice: “¿por qué me hiciste así?”?–
un resto de esa gracia se ocultó en las sucesivas dimensiones desplegadas,
aquel aumento sordo de espesor y de entidad
que me permitiría ver el mundo como un mundo, luego.
Y ahora estoy pensando en esa parte que quedó indigesta,
y hay algo que me arrastra, una corriente subcutánea o algo
menos solemne acaso, al nombre que me dieron
para darme la fuerza. Taparon con un nombre
irreprochablemente israelita una mitad de mí.
¿Qué era lo que querían, que supiera
que si quería ser más parecido a lo que fuera a ser,
iba a tener que ser distinto de eso?
Mi gracia: un trabalenguas perfectamente hebreo.
¿Acaso se trataba de algo así como un Scrabble de la identidad,
pensaban que a su hijo le darían más puntos en la vida
por tantas zetas y esa cu y la doble ve?
Si había alguna cosa en mí que no era idéntica a sí misma,
¿no era mejor, acaso, hacer visibles las costuras?
Si a fin de cuentas la matriz que me engendró
jamás escuchó hablar, de chica, sobre el ghetto,
ni tuvo que saber qué cosa es el exilio en carne propia
hasta que, bueno, se exilió papá.
Si además, fueron ellos los que me criaron,
los de la parte árabe, del Líbano,
católica, o católica a su modo, que borraron de mi nombre.
Ellos también tenían a su hijo en el exilio:
acaso también él estableció su alianza en el desierto,
y lo llevaron como a Elías. Pero pagó la sangre,
porque era de otro pueblo. Y el sarcoma
le recubrió la espalda como un mapa.
¿Querían que yo fuera su Eliseo, que tomara
las dos terceras partes de su gracia?
Hasta les daba, a veces, por llamarme con su mismo apodo.
Fue demasiado para mí, un árabe imposible;
para un judío errado, un circunciso fraudulento,
que consagró su alianza en el quirófano
con el celoso dios de la fimosis
(me acuerdo lo que era, una campana henchida,
un girasol de agua si orinaba).
Fue demasiado para mí. Pensé que era mejor hacer
como con una herida que quisiera suturarse desde adentro
para dejar la cicatriz cubierta y proteger mejor
la piel. Se me rompió de todos modos. Engordé y se me rajó,
como una copa de cristal muy burdo. Se llenó de estrías,
una retícula delgada, discontinua, sobre el plano vertical
de las axilas a las nalgas, mezcla del diseño
de un árbol genealógico desnudo de su fronda
y el mapa del genoma. ¿A qué o a quién
había que culpar, a la genética, a la frágil epidermis de mamá,
o a aquella fuerza primigenia desatada,
esa dispepsia primordial que haría de la indigestión
la principal de mis pasiones? La respuesta
pugnaba por caer en saco ciego, disfrazada de un confiado
escepticismo sin objeto que, después,
demostraría ser una nesciencia temerosa, replegada
sobre su propia falta: ¿la eludía o solamente
la estaba difiriendo? No sabía que sabía. Y elegí aferrarme
a la intuición, un poco frívola y pueril,
de que mi centro geográfico, mi casa, no podían ser
el fuelle alveolar y el abanico delicado del espíritu.
Y ahora, que me quedo y que me olvido, que clavé
mi tienda con los codos y los brazos, y la cara sumergida
entre las palmas, como un cántaro que cae dado vuelta
y que se quiebra, sin saberlo, al lado de la fuente,
estoy cayendo en una edad en la que necesito
un sustituto digno para el alma:
para ponerme en marcha, y recordar
y recordarme. Un sucedáneo digno de un prosélito
forzoso. Y el asiento de mi amor,
la sede de mi juicio, debe ser, por ende,
ese baluarte hepático, la gloria polvorienta
de mis antepasados, los que no volvieron:
el saco ponderal, la piedra hueca,
la copa sucia en la que se mezclaron.

(poema de Ezequiel Zaidenwerg, do livro Doxa (Bahía Blanca: VOX, 2008)

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Nota: as fotos dos poetas aqui mostradas são de Timo Berger.


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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Peter Christopherson (1955 - 2010)

Morreu ontem o músico, artista visual e designer britânico Peter Christopherson, também conhecido como Sleazy. Integrante fundador da banda Throbbing Gristle, uma das mais importantes do pós-punk industrial, Christopherson fundaria ainda o coletivo Psychic TV e a banda Coil, tendo também feito parte do grupo de designers conhecido como Hipgnosis, com Storm Thorgerson e Aubrey Powell, que foi responsável por capas lendárias de bandas como Pink Floyd, The Pretty Things, UFO, 10cc, Bad Company, AC/DC ou The Alan Parsons Project.

Sua carreira foi extensa e ele esteve envolvido em muita coisa legal desde a década de 70. Uma última menção: Christopherson e Coil trabalharam na trilha do filme The Angelic Conversation (1985), de Derek Jarman, um dos trabalhos mais bonitos do cinema britânico, prediletíssimo.

Peter Christopherson morreu dormindo.



Throbbing Gristle - "Weeping"

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Psychic TV - "Godstar"

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Coil - "Ostia: The Death of Pasolini"

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Cena do filme The Angelic Conversation (1985), de Derek Jarman, com trilha sonora do Coil.



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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Das canções favoritas: "Meu primeiro amor", de Cascatinha e Inhana

Cascatinha e Inhana foram os nomes artísticos escolhidos pelo casal paulista Francisco dos Santos (1919 - 1996) e Ana Eufrosina da Silva (1923 - 1981). Ambos do interior de São Paulo, estão entre os mais importantes artistas da música caipira brasileira. Fossem norte-americanos, seriam chamados de representantes da música folk e talvez pudessem estar na raíz da melhor música sendo produzida hoje no país, mas eram brasileiros, e sua sorte portanto foi um tantinho diferente.


Cascatinha e Inhana - "Meu primeiro amor"

Tenho uma lembrança infantil muito forte ligada a eles. Meu pai costumava cantarolar a canção "Índia" em fins de semana modorrentos do interior, flertando com minha mãe, que tinha os cabelos pretos de descendente de índia. Esta foi a canção que fez Cascatinha e Inhana famosos, uma guarânia composta por J. Flores e M. Guerrero, gravada em 1952. Ela viria a ser regravada, dentre vários outros, pelo gigantesco Dilermando Reis (1916 – 1977). É deste mesmo ano a canção "Meu primeiro amor", outro grande sucesso da dupla, que apresenta de forma tão decisiva e clara a voz linda de Ana Eufrosina da Silva, a maravilhosa Inhana. É uma canção realmente muito bonita, uma das minhas favoritas no cancioneiro brasileiro.

Tenho ouvido muita música folk nos últimos meses, gente tão diversa entre si quanto Woody Guthrie, Lead Belly ou Dilermando Reis, passando pelas vozes de Joni Mitchell e Inhana. Talvez a música pop brasileira estivesse produzindo algo mais variado e plural se fosse beber nesta fonte, sem medo de ser caipira, já que é tão chique ser folk. Enquanto isso não acontece, vou ouvindo Cascatinha e Inhana.

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Uma nova aparição na música e poesia cantada alemãs: HANS UNSTERN.

Há alguns meses um amigo me relatou sobre um concerto obscuro num clube ainda mais obscuro, uma apresentação que o havia deixado desconcertado. O rapaz sobre o palco, segundo ele, chamava-se Hans Unstern, aparentemente uma criatura do Berlimbo. O álbum de estreia saíra em abril, chamado Kratz Dich Raus (2010).




Hans Unstern - "Anglet", ao vivo



Comparações nem sempre ajudam e ainda irritam. Mas, ao escutar sua música, passam pela minha cabeça nomes da Neue Deutsche Welle dos 80, unidos a nomes da atual New Weird America; sua voz me faz pensar num Klaus Kinski tentando cantar Kurt Weill; fico, como aquele meu primeiro amigo a mencionar o sr. Hans Unstern, desconcertado.




Hans Unstern - "San Simon", ao vivo



Alguns estão falando sobre "o novo dândi alemão"; outros reclamam da voz e amam a música; outros ainda dizem psychedelic, man, right on!. É uma aparição meio bizarra no atual cenário alemão. Sim, as bandas da NDW são a influência principal das novas bandas. Mas não DESTE jeito. A guitarra esquisita é ótima, como em Micachu & The Shapes. Alguém poderia pensar em Devendra Banhart ou Joanna Newsom, mas há um elemento cabaretista em Hans Unstern que me parece germânico. Talvez uma contraparte alemã para a austríaca Anja Plaschg, também conhecida como Soap & Skin?




Hans Unstern - "Paris"


Eu digo apenas: finalmente um novo troubadour interessante por estas bandas!




Hans Unstern - "Ein Coversong"


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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Meu amigo Jorge Wakabara visita Berlim. Postagem com um conto, sua colagem "Monstro", e minhas respostas para seu famoso "Questionário Dourado"

Meu amigo Jorge Wakabara está em Berlim há uma semana, misturando meus mundos paulistano e berlinense, fazendo deles agora nosso mundo paulistano-berlinense em uma experiência comum. É sempre uma sensação de cócegas no contexto, criando canais entre mundos estanques, quando amigos próximos meus de São Paulo visitam-me em Berlim. O legal é que eles saem daqui entendendo por que eu escolhi viver nesta cidade.

Conheci Jorge em 1999, creio. Tínhamos um amigo em comum, Roberto Borges, que era como eu membro da Tribo de Teatro Tumutupugá, com a qual encenamos, naquele mesmo ano, a peça 1999, para a qual servi de dramaturgista. Não, não dramaturgo, mas dramaturgista, aquele que tomava as improvisações e os textos não-teatrais que todos traziam para os ensaios, e os limava, redigia, teatralizava. Com esse trabalho coletivo, entravam no texto da peça fragmentos de Charles Baudelaire, Gaston Bachelard, Hilda Hilst, Vladimir Maiakóvski, Robert Browning, José Saramago, e até meus, contrabandeados por mim no trabalho de costura dos fragmentos.

Jorge e eu nos tornamos muito amigos e tenho memórias ótimas de conversas por caminhadas, descendo ou subindo a pé a Rua dos Pinheiros, zanzando pela Vila Madalena, na nossa São Paulo do início do século. Com ele, tinha conversas literárias que eram completamente diferentes das que tinha com outros amigos escritores. Suas perspectivas nunca eram formalistas, eram sempre intuitivas, instintivas, vinham de um gut feeling. Sua escrita era despretensiosa, e isso era refreshing, sem empáfia. Suas leituras eram também alheias às modas do momento, mesmo a muitas das minhas obsessões; ele lia Márcia Denser, Caio Fernando Abreu e João Silvério Trevisan, por exemplo. Seus poetas eram Allen Ginsberg, Ana Cristina Cesar. Nós compartilhávamos o amor por Hilda Hilst e Clarice Lispector, mas era também bom ouvir sobre um mundo literário com referências diferentes das minhas. Eu não amava J.D. Salinger como ele, nem me entusiasmava com C.F. Abreu, mas era legal saber que havia muitos cânones pessoais, que cada altar recebia seu santo.

Hoje, Jorge Wakabara é jornalista e editor de moda, braço direito de Lilian Pacce. O mais importante: ainda é um dos meus amigos mais queridos.

Reproduzo nesta postagem 3 coisas ligadas a Jorge Wakabara:

§ - em primeiro lugar, seu conto "Cinco minutos na cama", que publiquei há anos em uma versão antiga da Hilda Magazine.

§ - em segundo, a série de colagens "Monstro", inédita, que deveria ter entrado numa revista que planejei mas jamais saiu do projeto.

§ - por fim, reproduzo aqui o que ele já publicou em seu blogue esta semana: minhas respostas para o seu divertidíssimo "Questionário Dourado", uma sátira com o Questionário Proust que ele tem feito com amigos há muito tempo.


:


CINCO MINUTOS NA CAMA
Jorge Wakabara

Quando você olhou o meu pé e começou a rir, eu nunca pensei ter tanta placa tectônica dentro do meu crânio, por debaixo desse meu couro cabeludo, e pelos poros dessa minha pele que se revelou quente e áspera: pura reação psicossomática. Você riu, Carlos, por causa de um dedo, o meu dedo que seria o médio, o do meio, que era nitidamente maior que o meu dedão. E você disse, Carlos, com um humor que não te é peculiar, que eu tinha quatro mãozinhas no lugar de duas mãos e dois pés. Eu era, de repente, uma anormalidade digna de um 'freak-show'. Então eu estava ali, nu, com tantas coisas a serem vistas, e você notou o pior dos meus defeitos físicos. Notou-o descompromissadamente. Como se o fato de teu namorado ter aquele dedo médio comprido fosse equivalente à morte de um cachorro, ou ao enterro de uma vizinha chata. Eu fiquei muito perturbado, talvez sem razão, porém terrivelmente perturbado. O meu cabelo, por exemplo, podia estar feio e eu o cortaria, ou o pintaria, ou até mesmo o rasparia, se fosse esse o caso. O dedo, Carlos, não se corta, não se arranca, e muito menos se morde, já que se tratava de um dedo do pé e não da mão e ficaria muito mais difícil para mim, que tinha pouco condicionamento físico e alongamento, alcançar o dedo médio do meu pé com os meus dentes. Mesmo que ele fosse tão anormalmente comprido. Eu te detestei por vívidos e intensos segundos, eu te desejei morto e enterrado, mas antes de tua morte, ah, Carlos, desejei ainda que você sofresse doenças horrorosas, que te fariam coçar e escamar inteiro; imaginei tua cabeça estourando e teus miolos gritando "chega" em uma freqüência tão alta que não seriam escutados pelo ouvido humano. Depois eu quis que você se sujeitasse e lambesse aquele meu dedo médio horroroso, e todas as veias saltadas do meu pé magro horroroso, e ainda a minha canela magra, peluda e horrorosa; eu te chamaria de porco, canalha, bruto, e sussurraria com autoridade: "lambe mesmo, Carlos", "mais aqui", "agora te esmago". No entanto, teu sorriso cínico se desmanchou pouco a pouco e você, Carlos, percebeu que talvez eu tivesse certos traumas com aquele dedo específico, e também percebeu que talvez eu não gostasse que falassem daquele meu defeito físico. Imaginou que certamente eu já havia sofrido com gozações de família, colegas e desconhecidos. Eu derreti embaixo dos lençóis, levando as minhas terceira e quarta mãozinhas para longe de teu senso crítico com um “ar de cotidiano”, como se essas coisas acontecessem todos os dias, como se o cachorro tivesse morrido durante o enterro de uma vizinha chata. Esbocei algumas frases que lembravam algo muitíssimo inteligente vindo de alguém bem resolvido, enquanto apalpava o feio, o bobo, o metido que cresceu mais do que devia, e o acariciava, sangue do meu sangue, pele da minha pele, pedaço de mim metade adorada de mim, ao mesmo tempo em que mentalizava: "Calma, dedo. Não foi nada dessa vez".

2004


§


Monstro
um texto-colagem de Jorge Wakabara (2006)

(clique nas imagens para aumentá-las)






§

Ricardo Domeneck responde em Berlim às perguntas douradas de Jorge Wakabara:


QUESTIONÁRIO DOURADO INTERNACIONAL
COM RICARDO DOMENECK

(publicado originalmente no blogue Caminho Dourado. Adicionei aqui algumas notas em vermelho sobre as respostas.)


1. Me conta uma coisa que você fazia há 5 anos e não faz mais.
Ir no Biu.

(restaurante de comida caseira na Rua Cardeal Arcoverde, ao qual eu ia muito com meus amigos paulistanos quando morava na cidade, no início da década.)

2. Me diz um filme que você gostaria de ter feito, e o porquê.
“A professora de piano”, pra poder convidar a Isabelle Huppert quando eu quisesse pra gente tomar champanhe e ver uns pornôs.





(este filme é uma das minhas obsessões, eu o vi 11 vezes no cinema, ele conjuga todas as minhas preocupações políticas, estéticas, metafísicas e um vasto etc.)


“Me dá essa taça logo, então”

3. Me diz uma coisa que você comprou e nunca usou. Por que você nunca usou?
Uma calça xadrez no Mercado Mundo Mix da qual eu me arrependi assim que pus os pés pra fora do galpão. Isso foi em 2001! Coloca que foi em 2001!

(ah! meus tempos de pseudo-clubber!)

4. Qual é a fase da sua vida que você quer lembrar pra sempre?
Quando eu morava no Sobrado, com um bando de gente inteligente mas proletariado, escrevendo meu 1º livro e mais facilmente deslumbrado com as coisas.

5. Qual é a palavra que você está usando muito agora?
“Banause” – que é uma expressão alemã pra cafona.

6. Me conta uma coisa muito exótica que você amava nos anos 90.
A tatuagem no braço esquerdo do Jon Bon Jovi – especialmente na perspectiva generosamente doada pelo vídeo “Keep the faith”.

(os anos 90 deram-nos uma adolescência meio insana, mas esta resposta vocês devem creditar mais à minha sexualidade adolescente desenfreada.)




Bon Jovi - Keep The Faith
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7. Me fala o que te faz rir muito, e o porquê.
Qualquer tipo de humor autodepreciativo.

8. Que personagem de novela você gostaria de ser? Por quê?
Viúva Porcina, porque é o mais perto que o Brasil já chegou de Almodóvar.


9. Me diz um defeito seu e um defeito meu.

Meu: Quando dois amigos meus que me tinham como elo passam a ter um relacionamento independente de mim, a minha primeira reação incontrolável é a ofensa.

Seu: na 1ª semana de julho de 2001, eu costumava achar você um pouquinho judgemental (a Carrie já disse isso pra Miranda).

10. Qual é a música mais linda que você já ouviu?
Vou dizer a 1ª que me veio na cabeça, sem pensar muito. “Rising”, da Lhasa de Sela.



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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um videorretrato antigo só agora editado, de Christopher, com poema inédito


"Christopher" (2006), por Ricardo Domeneck. Christopher barbeando-se em sua casa, verão berlinense, 2006.



Gravei este vídeo na casa de Christopher, no verão de 2006. Já não estávamos juntos, e, na verdade, é possível até mesmo ouvir seu novo namorado lavando a louça na cozinha, enquanto gravávamos o vídeo. Sim, foi uma situação bizarra, difícil. Era como um ato de arquivar os danos, catalogando os ossos quebrados antes de engessá-los tortos, salvaging what was left of the shipwreck.

Eu o conheci no primeiro dia do ano de 2005. Ele me parecia o menino mais lindo que já havia visto. Aqueles olhos gigantes, aquela epiderme cobreada que o revestia uniforme, uniforme. Nosso relacionamento foi uma das experiências mais fortes e destrutivas por que já passei.

Todas as tentativas de um videorretrato enquanto estávamos juntos haviam falhado. Eu dizia que não conseguia filmar alguém por quem estava apaixonado. É apropriado que por fim tenha conseguido apenas este vídeo, este retrato de costas, enquanto você carpe o matagal do rosto e eu me faço voyeur do corpo com que já não podia compartilhar a temperatura.

Ele foi my own private Hurricane. Perdi banhas que não tinha, banquei a Margo Channing, almodovariquei, fiz-me híbrido, liztaylorca, escrevi todos os poemas cínicos sobre o amor desastroso, voaram copos. Ecumênico, ensandecia-me. Ele foi o Cabo das Tormentas. Apelidei-o de Okeechobee, o pior furacão antes do Katrina, Okeechobee soava para mim como Christopher.

:

Texto em que o poeta dirige-se a um ex
e relata a seus leitores sobre o furacão Okeechobee



O plantão do Jornal da Globo
anunciava a morte das mortes
da Rapunzel das importâncias
e o bípede predileto impunha
suas lesões como lições.
Seu bíceps era um fórceps
na manteiga das minhas guelras.
É como se seu tubo de eustáquio
se posicionasse, ainda por cima,
na expectativa de um Thank You
por sua devastação em meu clima,
e eu temia, ao leme, que o próprio
meio-dia fosse a praga que assola
ao meio-dia. Há outros perigos
para um barco ao mar,
mais terríveis que a tormenta
que prenuncia o naufrágio.
Talvez o vício
do farol, demasiada confiança
nos botes, nas bússolas.
De sua testa à sua glande
e desta às falanges,
aquele cobre solar e uniforme,
como os pelos em suas pernas
distribuíam-se
feito um milharal
querendo esconder o milho.
A proporção entre seu nariz
e outros membros do império
em seu mapa de côncavos
e convexos era minha última
porção de simetria, Bauhaus
do meu lumpesinato físico.
Quando nascerá o comunismo
do proletariado amoroso?,
era o que simulavam murmurar,
revolucionárias, minhas mucosas,
estas cavidades hipócritas
em seus mal-dissimulados
delírios napoleônicos.
Eu queria ser seu dono e seu dog,
parceiro majoritário
do monopólio
que ele presidia.
Um feudo de fluidos,
de corpos. Suas fotos
ainda me coçam.
Ele era um conjunto de carpos
e cilindros, e, se aos dezenove
fazia-me de vaso, aos vinte
e cinco era eu dejeto,
despejo.
Ele era uma alegria difícil,
um improviso de rês pública.
Queria tudo,
a mim inclusive,
mas sem contrato exclusivo.
Redigia todas as cláusulas,
eu as aceitava, do sim tácito
ao silêncio tático,
qualquer manobra
que mantivesse seu corpo
aberto ao meu tato.
Quem jamais viveu o momento
que faz de migalhas
um banquete
que atire o primeiro tomate.
Ele, em minha boca,
foi o nascer-do-sal.
Quem me dera o tivesse
discernido a tempo
como o analgésico exato
para as minhas ilusões
de pertencer a alguma espécie
em extinção,
quando hoje sei ser eu praga.
Contudo, não me arrependo
de permitir aos meus dedos
aquela orgia típica
de gafanhotos
nos campos férteis
dos seus cabelos,
e, mesmo daninho,
dedico a ele hoje
este honorário
por seus extermínios.


Ricardo Domeneck. Berlim, 2008/2010.

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Christopher (centro), fotografado por Walter Pfeiffer (2007),
sessão para a qual servi de assistente



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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em meio à minha descoberta tardia e boquiaberta do cineasta Joseph Losey

Foi há alguns meses, em minha visita quase diária à locadora do bairro. Na verdade, eu estava passando por uma fase de admiração e obsessão por Dirk Bogarde (1921 - 1999), aquele ator-mestre da elegância. Deparei com a capa do filme The Servant (1963), com Bogarde e, como se não bastasse, roteiro de Harold Pinter. E foi por Bogarde e Pinter que aluguei o filme naquela noite, não me importando muito com o diretor, um certo Joseph Losey do qual nunca tinha ouvido falar.





Baseado em um romance de Robin Maugham, o roteiro é mesmo excepcional, assim como a atuação de Bogarde, sempre brilhante. Mas foi a direção do filme que mais me deixou espantado e admirado, e comecei a pesquisar mais sobre Losey.

O diretor nasceu no estado do Wisconsin, nos Estados Unidos, em 1909. Estudou na Alemanha com Bertolt Brecht (sua primeira relação frutífera com um dramaturgo), e quando este exilou-se nos Estados Unidos, passaram a colaborar. Codirigiram uma adaptação cinematográfica da peça Leben des Galilei (1937), que se tornaria o filme Galileo (1947), com Charles Laughton no papel principal após ter traduzido a peça com Brecht, e Losey ainda faria um curta-metragem baseado na vida de Galileu.

É na década de 50 que começam as agruras de Losey, e aquilo que eu creio explicar sua obscuridade, quando é obviamente um mestre absoluto do cinema: o diretor cai na fogueira anticomunista da chamada Era McCarthy. Impossibilitado de trabalhar em Hollywood, onde estava na infame entertainment industry blacklist, Losey emigra para o Reino Unido, onde passa a trabalhar com Harold Pinter e outros roteiristas, construindo uma obra que não recebe as loas e prêmios e homenagens que merece e deveria receber. Mesmo no Reino Unido, ele acabaria dirigindo muitas obras primas com pseudônimos.

Há pouco tempo, assisti ao excelente King and Country (1964), mais uma vez com o brilhante Dirk Bogarde, e com Tom Courtenay, outro ator britânico de quem gosto muitíssimo. O filme retrata o julgamento de um soldado acusado de deserção durante a Segunda Guerra Mundial.

Cartaz do filme King and Country (1964)


Outro excelente filme, com jogos de câmera impressionantes, é The Criminal (1960). Assista ao trailer no Youtube, não é permitido embutí-lo aqui.

Há pouquíssimos lançamentos aqui na Alemanha. Estou tentando encontrar outros. Quero muito ver seu remake para o filme de Fritz Lang, M. O de Lang é de 1931, o de Losey é de 51.




Ou sua Eva (1962), com Jeanne Moreau, Stanley Baker e Virna Lisi:





Joseph Losey. Mestre mesmo.

E foda-se McCarthy, aquele bufão.

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