sexta-feira, 22 de julho de 2011

Uma canção de Ann Peebles e um poema de Angélica Freitas

Manhã de chuva em Berlim. Difícil não acordar com vontade de cantarolar a clássica de Ann Peebles, "I can´t stand the rain" (1973).





Tenho pensando num poema da minha querida Angélica Freitas nestes últimos dias, chamado "O livro rosa do coração dos trouxas", uma série de 12 textos que ela publicou no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co.. Mais especificamente no primeiro poema da série, com sua visão sobre o fim de relacionamentos. Será possível tornar-se realmente amigo de um ex? Depois de compartilhar a vida de uma maneira tão intensa, passar a compartilhá-la de outra maneira? Talvez leve tempo. E como em quase tudo o que é difícil, the only way out is through. Querida Angélica, estou tentando seguir seu conselho de pensar no passado só se me der prazer. Mas é difícil, quando o passado é uma bolha de prazer encapsulado por um inchaço dolorido e doloroso.



Primeiro texto da série O livro rosa do coração dos trouxas
Angélica Freitas


eu quando corto relações
corto relações.
não tem essa de
briga de torcida
todos os
sábados.
é a extinção do estádio.
vejo as forças
que atuam; a tesoura,
o papel,
a vontade de cortar.
tudo é provocação?
então embrulha
tua taquicardia
num sorvete de amêndoas,
reza que derreta.
quando lembro do
corte revivo a
ferida.
melhor não.
o corte é definitivo,
a dor retorna em forma
de milão madri
ou liverpool
quando convocada.
ricardo
lembra do teu passado
só se te dá
prazer.
how elizabeth
bennet of you.
mas tirar
deleite da perda,
convencer fulana
de que minha fraqueza
não oblitera?,
exigir um rio de janeiro
com gatos e livros,
legítima esposa?,
fico sonhando com
a viagem a um país onde a
língua seja vértebra
sobre vértebra,
palavras com j
antes do l,
e cacos gregos
que me devolvam
ao aluguel da casa.


.
.
.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Mais uma noite na companhia de amigos-heróis


Organizar uma festa todas as quartas-feiras é uma trabalheira danada. Em geral, somos apenas um grupo de amigos que se encontra para tocar suas canções favoritas. Mas nestes mais de 6 anos, primeiro organizando a Berlin Hilton, agora SHADE inc, tive algumas noites de quarta-feira e madrugadas de quinta-feira realmente memoráveis. Algumas memórias se perderam depois de tantos rabos-de-galo, como costumávamos dizer na Vila Madalena no início do século em botecos, quando me encontrava com amigos como o então jovem poeta Érico Nogueira, os então jovens cineastas Pablo Gonçalo e Pablo Martins, os jovens atores, os futuros escritores e editores de moda, meus amigos infinitamente queridos dos tempos paulistanos, se espalhando pelos botecos de Pinheiros para as biritas depois das aulas na Universidade de São Paulo. Tempos lendários.

Aqui em Berlim agora, me espalho pelos botecos de Prenzlauer Berg e Kreuzberg, com os amigos e já não tão jovens videoartistas, não tão jovens curadores e escritores para os Schnaps nossos de cada dia. Com alguns deles, organizo a festa às quartas-feiras, por onde já passaram alguns heróis meus, hoje amigos. Vou evitar o name-dropping, quase sempre deselegante.

Mas é que hoje será outra noite especial no clube NBI (Neue Berliner Initiative), onde organizamos a festa há 6 anos. De passagem pela cidade, teremos um DJ set com Fischerspooner, com a presença de Casey Spooner e sua companheira Lauren Flax atrás da mesa dos DJs. Conheci Casey no ano passado, quando ele passou por Berlim e veio à nossa festinha de quarta-feira. Decidimos que faríamos algo quando ele voltasse, o que só aconteceu agora. Lauren Flax discotecou na festa no ano passado. Quando comecei a discotecar em Berlim por volta de 2003, ainda imperava o electroclash, que teve dois berços: Nova Iorque e Berlim. O duo Fischerspooner (Warren Fischer e Casey Spooner) havia acabado de lançar seu álbum intitulado simplesmente #1, após lançar singles de sucesso como a canção "Emerge", um dos hinos daquele momento. Suei muito com esta canção em clubes berlinenses como o lendário Black Girls Coalition.

No vídeo abaixo vemos a gravação do vídeo para "Emerge", com imagens de sessões de fotos com Casey Spooner e o fotógrafo Terry Richardson. Quando escreverem a história do início deste século maluco, imagino que será difícil não mencionar personalidades como a de Casey Spooner e Terry Richardson. Vale mencionar que eu tinha uma crush abismática no dançarino do grupo, o ator Jeremiah Clancy, que aparece no vídeo com olho roxo e o nariz sangrando. Há dez anos... uma época de excessos auto-indulgentes. Me diverti muito.





Toca ainda hoje à noite o querido Joel Gibb, vocalista e letrista (em outras palavras, o poeta lírico) da banda canadense The Hidden Cameras, que mora em Berlim. Já escrevi sobre ele aqui, e traduzi uma de suas letras. O vídeo abaixo é seu mais recente.





Encerra a noite meu amigo e DJ em ascensão na cena noturna berlinense, Marius Funk. Abaixo, seu mix mais recente.




.
.
.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Da série das Brigas Cinematográficas Favoritas: a de "Doubt" (2008)



As personagens de Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em Doubt (2008),
dirigido por John Patrick Shanley.

.
.
.

sábado, 16 de julho de 2011

Leitura de poesia com músicos hoje à noite em Berlim

Hoje à noite farei uma leitura ao lado dos poetas Daniela Seel, Gerhard Falkner, Oya Erdogan, Gabriele Guenther e Christian Steyer, acompanhados dos músicos Els Vandeweyer, Andrea Sanz-Vela, Helen Gillet, Antonio Borghini, Matthias Schubert, Florian Bergmann, Matthias Bauer, Johannes Lauer, Sara Ercoli, Liz Albee, Lothar Fiedler, Antonis Anissegos, Almut Kühne e Georg Graewe, numa velha fábrica no bairro berlinense chamado Wedding, hoje transformada em espaço alternativo para ocupações e intervenções de artistas.

Farei duas leituras. Na primeira, improvisarei ao lado da musicista espanhola Andrea Sanz-Vela, que toca viola de arco. Na segunda, ao lado do videoartista grego Andreas Karaoulanis e do clarinetista alemão Florian Bergmann.

O projeto é uma iniciativa da cantora Almut Kuehne, que interpretará canções baseadas em textos da poeta alemã Anja Utler.

Estou também contente de participar ao lado da querida Daniela Seel, uma das forças motrizes da cena poética berlinense, editora da mais prestigiosa editora independente da cidade, a Kookbooks, e do senhor Gerhard Falkner, nascido em 1951 e um dos poetas mais respeitados de sua geração.

Vamos ver no que dá, acho que será a primeira vez que lerei com acompanhamento musical.





.
.
.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Compreensão é uma queda sem amortecimento no contexto próprio

Uma das fotos mais famosas de Nan Goldin,
do livro The Ballad of Sexual Dependency


Quantos poemas e canções, lidos e escutadas por anos, aqueles que pensamos compreender, entender, à luz de uma nova situação parecem entrar de forma tão natural sob a nossa pele, a ponto de acreditarmos que pela primeira vez os compreendemos de verdade? Como se nunca antes os houvéssemos lido, escutado.

Alguns poemas e canções têm voltado à minha mente com um frescor estranhíssimo nos últimos tempos, como se eu agora, com 34 anos, vários pés-na-bunda, inúmeras ascenções de alegria e quedas em alergia, estivesse um tiquinho mais apto a compreendê-los. Um tiquinho só mais apto.

Há épocas em que certas textos, certas fotografias, cenas de filmes, começam a nos seguir na rua, uma companhia estranha, obsessiva. Vou compartilhar com vocês três companhias obsessivas dos últimos tempos, que eu sinto estar começando a compreender melhor, não com qualquer noção de inteligência besta, apenas uma sensação de que eles estão começando a me pertencer de uma maneira que antes não era possível. A primeira é a foto de Nan Goldin que abre esta postagem, uma de suas mais famosas, do livro The Ballad of Sexual Dependency (1986). Outra companhia é um poema famoso do Drummond.


Consolo na Praia
Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.



O poema foi publicado em A Rosa do Povo, de 1945. À data de sua publicação, Drummond tinha 43 anos. Há novos ou outros sentidos que só compreenderei quando me aproximar desta idade? Ou os amores perdidos até esta data dos meus 34 anos já começam a me mostrar que consolo é este? Há perdas e consolos pela frente. Quantos poemas e canções ainda têm as portas vedadas para minha compreensão porque eu preciso perder mais um ou dois amores, um ou dois amigos, reconhecer uma ou outra impossibilidade?

Que susto hoje ao escutar pela milésima vez uma canção favorita, a "Running up that hill" da (suprema) Kate Bush, e sentir um halo de compreensão maior se abrir sobre as palavras cantadas, como se eu a estivesse escutando pela primeira vez! Aquelas palavras memorizadas ao longo de tantos anos se entregando de maneira nova, aquele início:

It doesn't hurt me
Do you wanna feel how it feels?
Do you wanna know, know that it doesn't hurt me?
Do you wanna hear about the deal I'm making?
You
It's you and me
And if I only could
I'd make a deal with God
And I'd get him to swap our places
I´d be running up that road
Be running up that hill
Be running up that building
If I only could








Às vezes me parece muito triste aquela ideia de Wittgenstein, nossa prisão dentro do eu pelo fato "do mundo ser sempre o meu mundo". Mas Wittgenstein jamais a chamaria de prisão, isso é patetice minha, pois Wittgenstein não acreditava na possibilidade de estar do lado de fora - e a aceitava.

E nesta luz, entre Wittgenstein dizendo que "o mundo é sempre meu mundo", e Kate Bush dizendo "Come on, angel / Come on, darling / Let's exchange the experience", será que há muita diferença? Tenho amigos que vão ficar bravos mais uma vez por eu misturar um filósofo com uma cantora de música pop, mas eu sou mesmo caso perdido neste aspecto.

Não, nós jamais chegamos a convencer Deus a trocar nossos lugares. Em algum momento, talvez, alguém chegue com as próprias pernas a perda ou alegria parecida, e só então uma compreensão mútua?

E então dizemos ao Outro, usando vocativos como angel e darling, dizemos estas palavras patéticas:


You don't wanna hurt me
But see how deep the bullet lies



A bala, como sempre, está funda demais em nosso couro para que o outro veja ou sinta.

"O inferno são os outros"? Não. Eu acho que prefiro pensar que o paraíso sou eu quando estou com os outros... ou com um outro bem específico, com nome e endereço.

Fique aí no Paraíso, você.

Quem sabe eu possa visitá-lo.

Ou, como Frank O´Hara terminou aquele poema,

of light we can never have enough
but how would we find it
unless the darkness urged us on and into it
I am dark
except when now and then it all comes clear
and I can see myself
as others luckily sometimes see me
in a good light



.
.
.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Traduzido por Aníbal Cristobo e uma conversa com ele sobre poesia

Aníbal Cristobo


Ao longo da última semana, o poeta argentino Aníbal Cristobo apresentou traduções de seis poemas meus em seu blogue, Kriller 71, parte de sua série de postagens semanais de traduções, nas quais já traduziu ao longo de uma semana inteira poemas de brasileiros como Marília Garcia, Carlito Azevedo e Arnaldo Antunes; portugueses como Manuel António Pina; norte-americanos como Kenneth Koch e Mary Jo Bang; ou catalães como Gabriel Ferrater, etc.

Aníbal, como vocês devem saber, nasceu em Buenos Aires, em 1971. Viveu alguns anos no Rio de Janeiro, onde publicou seu primeiro livro Teste da Iguana (1997), ao qual se seguiram Jet-lag (2002) e Krill (2002), reunidos no volume Miniaturas Kinéticas (2005) da coleção de poesia contemporânea Ás de Colete, da Cosac Naify, a mesma pela qual saíram meus dois últimos livros, a cadela sem Logos (2007) e Sons: Arranjo: Garganta (2009). Aníbal vive hoje em Barcelona.



Aníbal Cristobo lê três de seus poemas


Vocês podem ler todas estas traduções feitas por Aníbal seguindo o link abaixo:



Ele também conduziu uma pequena entrevista comigo, traduzida e apresentada ontem. Reproduzo-a abaixo com minhas respostas em português.


Conversa entre Aníbal Cristobo e Ricardo Domeneck, julho de 2011.


AC: Cómo empezaste a escribir poesía?

RD: Respondendo de forma bem prática, foi quando abri os manuais escolares de literatura que encontrei na minha casa (minha mãe é professora) e li os primeiros poemas, misturando tudo, o "Pré-história" de Murilo Mendes e o "Pneumotórax" do Bandeira, aquele soco sarcástico do "Acrobata da dor" de Cruz e Sousa e as "Ideias íntimas" do Augusto dos Anjos com os poemas satíricos do Gregório de Matos. Durante muito tempo o único acesso que tinha à poesia era o de manuais escolares. Eu morava numa cidade pequena, não sabia que era possível comprar livros só de poemas, então eu caçava manuais escolares, lembro-me de como ficava feliz quando eles iam além do Pré-Modernismo ou mesmo do primeiro Modernismo e traziam poemas de Drummond, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles... alguns tinham exemplos da Poesia Concreta e das outras vanguardas brasileiras da década de 50, ou mesmo letras de canções de Caetano Veloso e Chico Buarque. Quando eu encontrava manuais mais completos assim eu ficava em estado de alegria absoluta, especialmente se traziam poemas que eu não conhecia. Antes disso tudo, creio que minha primeira exposição à poesia e à ideia do que era um poeta foi com Vinícius de Moraes e os seus sonetos famosos.

É uma coisa muito louca, mas eu tenho uma memória muito antiga também, criança ainda (eu tinha dez anos), do anúncio do Plantão do Jornal da Globo sobre a morte de Carlos Drummond de Andrade em 1987. É estranho, mas eu me lembro claramente de estar assistindo algo na TV e a programação sendo interrompida para anunciar a morte dele. Eu me lembrava do anúncio da morte de sua filha uma semana antes e me lembro de como aquilo me marcou, minha mãe correndo da cozinha para ouvir a notícia (como ela sempre fazia quando vinha aquela vinheta do Plantão do Jornal da Globo) e dizendo algo como: "Coitado, morreu de tristeza". É uma memória que sempre me acompanhou, não sei o porquê. Eu tinha dez anos, nem sei se já entendia o que era um poeta. Mas o fato dele morrer alguns dias depois da filha, com minha mãe dizendo que ele morrera de tristeza, aquilo ficou na minha cabeça. A situação acabou aparecendo num poema do meu primeiro livro mais tarde.

O primeiro livro de poesia que eu comprei, juntando dinheiro, foi o Eu do Augusto dos Anjos. Lembro de mais tarde ter comprado o Farewell (1996) do Drummond quando saiu, e os volumes com os heterônimos do Pessoa. Comecei a escrever sob o impacto destas descobertas, ainda adolescente, e escrevia pequenos contos também.

AC: Viendo tus poemas nuevos, tengo la sensación de que hay en ellos una mayor narratividad, o una narratividad menos fragmentada que en los libros anteriores. Aún cuando los textos siguen estando permeados por ese espíritu babélico, esa posibilidad de que diversas lenguas, citas y registros puedan irrumpir en ellos, tengo la sensación de que hay una ordenación del caos, desde lo íntimo hacia lo universal, que aparece atravesada por la ironía y la auto-ironía. Te parece que hay algo de cierto en esto?


RD: É sempre tão difícil falar sobre o próprio trabalho sem cair em certas armadilhas, pecados que já cometi demais, mas vamos tentar: houve sim uma mudança, especialmente para quem lê os poemas do meu último livro publicado, Sons: Arranjo: Garganta, e os poemas mais recentes que venho publicando no meu blogue. Correndo o risco de ser auto-explicativo (ou algo pior), eu tentaria falar sobre a mudança da seguinte maneira: especialmente nos poemas do último livro, eu estava muito obcecado com a tentativa de seguir o que eu chamo às vezes de "poética das implicações". Eu não queria que os poemas dissessem algo, meu interesse estava justamente em dar um curto-circuito neste dizer, criando textos que tivessem significado a partir das implicações da maneira como foram compostos. Eu cheguei a trabalhar com tautologias, um fenômeno da linguagem que me fascina, o que para muitos deve parecer uma loucura. Houve quem mencionasse como era impossível citar versos do livro, pois sozinhos eles realmente não faziam o menor sentido. Eu queria mesmo isso, que apenas o conjunto dos versos justapostos funcionasse. Eu acho também que nos meus dois últimos livros, que formam uma especie de álbum duplo pois foram escritos de forma paralela ainda que publicados com 2 anos de intervalo, meu impulso crítico misturava-se completamente à poesia. Talvez por isso eles pareçam frios a algumas pessoas. Às vezes eu acho que, ao passar a escrever crítica propriamente dita na Modo de Usar & Co., eu tenha talvez me libertado da sensação de necessidade de fazer isso nos poemas.

Nos poemas mais recentes, que estou reunindo para o meu próximo livro, minhas vontades mudaram. Eu venho pensando muito em um paradigma ensinado por Pound, quando ele sugere como parâmetro:

"...nada – nada que você não possa, em alguma circunstância, sob a tensão de alguma emoção, realmente dizer."

O que me levou a uma poesia, como você disse, com maior narratividade, talvez, ou menos fragmentada. Mas para dizer de forma bem clara e íntima, eu tenho me perguntado muito: por que eu comecei a escrever poesia? Não foi porque eu li poemas que me emocionaram? Eu acho que apenas voltei a estes poetas. Eu não quero mais correr o risco de escrever poesia apenas para poetas. Eu não quero viver no mito da poesia "inútil". Eu tenho pensado nas funções milenares que os poetas sempre tiveram em suas comunidades. Eu queria muito poder exercê-las, sem qualquer concessão ou facilitação. Pound também falou sobre o bom poema, aquele que entusiasma o especialista e emociona o leitor comum. Hoje em dia, isso me parece um desafio magnífico e eu acredito firmemente que a poesia só poderá voltar a ter seu papel central na cultura se aceitarmos este desafio.


AC: Pero esa definición no dejaría de lado a muchos poetas que te gustan, que leés, traducís, divulgás? Quiero decir, no sería quizás oportuno analizar que es el "lector común"? Un lector de poesía, me parece, ya no es alguien muy "común" -al menos en términos estadísticos. No pensás que otro camino podría ser trazado también desde la educación, formando a las personas en la idea de que la poesía es una actividad más, una manifestación cultural igual a otras que sí son incluidas en la educación, como la música o el dibujo -desarrollando una percepción poética en las personas desde la infancia? Y, finalmente, esa identificación de la poesía con aquello que puede ser dicho, de algún modo, no haría que la poesía se alineara con los "discursos de las certezas", perdiendo buena parte de su capacidad de cuestionar nuestra percepción del lenguaje y de lo real?


RD: Talvez minha última resposta tenha dado a sensação de uma oposição, como se uma coisa excluísse a outra. Vou tentar elaborar um pouco melhor. De qualquer forma, isso é realmente uma perpepção muito pessoal, a partir do meu próprio trabalho. Sabe, eu penso sempre nos trovadores medievais como parâmetro. Havia entre eles, como se sabe, o trobar leu, o trobar ric e o trobar clus. Este equilíbrio, a coexistência entre estas práticas e parâmetros trazia saúde à tradição. Talvez o problema esteja na busca de uma definição unitária para a poesia, algo que sempre existiu no pensamento estético, mas alcançou uma certa obsessão a partir dos românticos. Os modernistas também tinham esta ambição de encontrar uma teoria ou parâmetro que unificasse toda e qualquer experiência poética. Isso teve consequências negativas, eu creio. Gosto muito, por exemplo, da discussão do crítico italiano Alfonso Berardinelli sobre o trabalho de Hugo Friedrich e a tentativa de estabelecer um parâmetro único de compreensão para a poesia moderna, que acabou por excluir tantos poetas que hoje são muito mais lidos que alguns dos chamados Altos Modernistas. Eu acredito que há uma certa tendência hoje em dia a valorizar apenas a poesia da tradição do trobar clus. Uma época em que todos queiram ser poetas do trobar clus não pode encontrar um público amplo. É claro que havia poetas que se especializavam em um ou outro, e isso ainda é completamente legítimo. Mas havia a variedade de práticas para as distintas funções e possibilidades da poesia. Há obviamente um problema de educação, como você expôs em sua pergunta, mas eu falo aqui mais sobre o que nós poetas podemos fazer. Há sempre que se ter em mente a que público se está dirigindo. Não adianta impor os sonetos religiosos de Gregório de Matos a adolescentes, quando seria muito mais eficaz apresentá-los à poesia satírica do mesmo autor. Trata-se de um exemplo de problema no ensino de poesia nas escolas. Não se trata de facilitar as coisas. Não estou pregando qualquer forma de concessão ou populismo. Eu acredito que hoje, diante da situação em que estamos, não adianta depender demais do que o Governo e seus Ministérios de Cultura e Educação estão fazendo se nós produzirmos tão-somente poesia que consegue interessar apenas a outros poetas e acadêmicos. Você tem razão: não existe um "leitor comum", mas durante todas as eras os poetas cumpriram diversas funções que foram sendo relegadas a outros artistas. Quando eu falo sobre o "dizer", trata-se da negação de que a poesia se resuma exclusivamente à função poética, o que permite que nós por vezes nos percamos demais em joguinhos sígnicos (e não com pouca frequência cínicos). Eu acredito que a função poética não oblitera a função referencial da linguagem ou qualquer outra das funções. A linguagem poética chama a atenção para sua própria estrutura como linguagem, mas nos grandes poetas isso não impede que seus textos ao mesmo tempo cumpram várias outras funções, como emocionar ou educar. Eu não entendo porque isso parece ter se tornado pecado para poetas. Eu entendo o perigo que você menciona, o dos "discursos das certezas", mas o poema que consegue ao mesmo tempo dizer e fazer não precisa se incluir em qualquer discurso das certezas, não precisa ser panfleto. Parece-me muito mais arrogante (e por vezes podendo beirar o charlatanismo) o clichê da poesia que quer dizer o "indizível", por exemplo. Neste aspecto talvez meu problema seja ter lido Wittgenstein demais, eu não consigo deixar de cheirar certo charlatanismo nesta ambição do "indizível", nem consigo crer que isso se enquadre de verdade a poetas que são tão frequentemente sequestrados e abusados para este discurso, seja Mallarmé ou Celan. Veja bem, eu mesmo tenho textos em que nego completamente a noção da poesia que "diz" qualquer coisa, especialmente no meu último livro, em que muitos textos frustram a vontade do leitor de criar o que se poderia chamar de "texto-fantasma", uma paráfrase do poema, que seria seu "significado" imanente ou transcendente. Agora, eu não posso esperar que todos se interessem por esta função analítica do poeta sobre a linguagem. Acabam sendo realmente poemas para especialistas talvez, ou para pessoas interessadas em linguística e história da literatura. E quanto aos leitores que, de forma completamente legítima, vão buscar na poesia consolo por um pé-na-bunda, pelo fim de um relacionamento, pela própria mortalidade e a dos que amam, os que querem simplesmente embebedar-se com palavras, emocionar-se? Se os poetas escritores não cumprem esta função milenar da poesia, os leitores vão buscar isso na poesia cantada, no cinema, em qualquer outra arte. O discurso da inutilidade da poesia é muito complicado, e tem trazido problemas apenas, em minha opinião. Quando eu falo sobre est-É-tica, não estou tentando estabelecer uma moral poética, mas trata-se apenas da crença na historicidade da poesia, de que o poeta pertence a seu tempo, cumpre uma função na sua cultura, na sua comunidade. Meu último livro se chama Sons: Arranjo: Garganta pelo meu interesse em forma, função e contexto. Eu queria apenas ser capaz de cumprir o maior número possível de funções que me foram legadas e herdei dos meus antepassados poetas. Sem uma definição unitária que dê conta de toda e qualquer manifestação poética. Aceitar os limites do dizível parece-me longe de qualquer discurso de certezas. Não sei se me fiz claro ou se compliquei ainda mais a questão.

.
.
.

domingo, 10 de julho de 2011

Christian Marclay: para quem se interessa pelo trabalho sonoro, de colagem e de apropriação




Christian Marclay nasceu na Califórnia. É um compositor e artista visual trabalhando com as conexões entre barulho, som e música, usando também vídeo e apropriando-se de cenas do cinema. Foi pioneiro no uso de turntables como instrumentos.


Christian Marclay

.
.
.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Na companhia de Woody Allen




Nas últimas semanas, eu devo ter visto e revisto uma grande parte da filmografia de Woody Allen, com especial predileção pelos filmes feitos entre o fim dos 70 e dos 80. Sempre curti, mas no momento está sendo uma diversão muito proveitosa. Revi os favoritos, como Annie Hall (1977), Manhattan (1979), o bergmaniano Interiors (1978), do qual sempre gostei, seu mais trágico; Hannah and her sisters (1986), maravilhoso; os menores, talvez, mas ainda assim fascinantes, como Another Woman (1988), com a incrível Gena Rowlands, ou September (1987). Mas ainda não havia visto este Stardust Memories (1980), com uma Charlotte Rampling muito jovem, Allen num momento Otto e Mezzo, realmente muito bom. Deixo aqui o vídeo compartilhado no Youtube, onde está dividido em sete partes, mas é possível vê-lo na íntegra. Vale muito.





.
.
.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uma canção dos irmãos lindíssimos Angus & Julia Stone

Angus & Julia Stone


Um amigo que conheci recentemente me deu de presente uma compilação de canções, com vários artistas que eu não conhecia. Gosto muito de presentes assim, sem mencionar que é uma maneira muito legal de conhecer um pouco mais alguém novo em nossa vida. Uma das canções chama-se "Heart Full of Wine", da dupla de irmãos australianos Angus & Julia Stone. Muito bonita a canção, sem mencionar o fato de que os dois músicos são verdadeiras visões de beleza física. Quis compartilhar.



"Heart Full of Wine", do EP de mesmo nome, lançado em 2007.

.
.
.

domingo, 3 de julho de 2011

Algumas cicatrizes, a ascese violenta e "A Mula de Deus", de Hilda Hilst

"34 com cicatrizes", de José Leonilson (1957 - 1993)


Na última postagem, citei Hilda Hilst com os versos: "Essa sou eu / Poeta e mula", de um dos poemas mais febris da década de 90, texto que foi publicado pela primeira vez no final de seu romance Estar Tendo. Ter Sido (1997). Eu havia acabado de chegar a São Paulo, tinha 19 anos. Deparei-me com uma resenha sobre o romance, na qual o jornalista reproduzia os versos: "Palha / Trapos / Uma só vez o musgo das fontes / O indizível casqueando o nada // Essa sou eu. // Poeta e mula". Em meio àquela cabralice exagerada, pedregulhosa e ressecuda da poesia da década de 90, eu, que estava já começando a sofrer de anemia emocional por conta de tanto antilirismo, me sobressaltei muito e pensei: "Evoé, um oásis!" Nos próximos dois anos, li tudo o que a mulher escreveu e passei a seguir seus passos, dizendo: com Murilo Mendes e Hilda Hilst, mestres, até o fim da carreira dos meus dias como poeta. Ô mestre de Juiz de Fora, ô mestra de Jaú! Comecei a passar os livros dela para meus amigos, criamos um pequeno culto em torno da mulher. Nós queríamos um matriarcado, Clarice Lispector de um lado, Hilda Hilst do outro. Um dia decidimos que iríamos a Campinas, encontrar a Casa do Sol e conhecê-la. Creio que já contei esta história aqui, mas se você está nesta página é porque você é meu amigo, mesmo que desconhecido, e como meu amigo você deve saber que eu sou meio compulsivo, obsessivo e repetitivo (perdoe). Protelamos por várias semanas. Quando estávamos preparados para a viagem, vem a notícia pela imprensa: Hilda Hilst morta, a 4 de fevereiro de 2004. Naquela tarde, desci a Avenida Brigadeiro Luís Antônio (em São Paulo) a pé, a caminho do Parque do Ibirapuera. Na cabeça, ia compondo o seguinte poema, que mais tarde se tornaria a primeira das "Seis canções óbvias", publicadas no meu livro de estreia, Carta aos anfíbios (2005):


das Seis canções óbvias

1.

Sair da cama, disse,
.....foi simplesmente
.....uma idéia incrível
.....e deliberada
De invernos frutíferos
.....construíram-se
.....muitos infernos na
.....primavera
A cama é um inferno pessoal
.....e intransferível
E a pele vestida à noite
.....desprega-se para acompanhar
.....outra calçada pela manhã
A transferência de corpo pratico-a
.....com diligência
É tudo tão simples, dizem
Hilda Hilst havia medo da morte
.....e morreu
.....assim como o MASP
.....é ao mesmo tempo
.....museu e mirante
Ergue-se o deliberado sobre
.....simples patas


(Carta aos anfíbios, Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2005)


Houve duas mortes de poetas brasileiros que me deixaram realmente de luto: a de Orides Fontela, em 1998, e a de Hilda Hilst, em 2004. Muitas outras me entristeceram muitíssimo, como a de João Cabral, a de Wally Salomão, a de Haroldo de Campos. Mas as mortes de Orides Fontela e Hilda Hilst foram como perdas pessoais, difíceis de explicar, pois eu jamais as conheci, infelizmente.

Deixo vocês abaixo com o poema completo de Hilda Hilst, "Mula de Deus". Desconheço poesia desta natureza mística na poesia principal brasileira, em geral dominada pelos machos agnósticos. Tal misticismo carnoso. É como a cena final da porca em A Obscena Senhora D (1982). Economia de meios será melhor como ato de ascese? Há o momento para o seco e para a pedra, e também o momento para o úmido, para o que incha? Tal força, que é ao mesmo tempo anti-inflamatória e inflamatória, eu creio encontrar em Clarice Lispector e Hilda Hilst, em Lúcio Cardoso e Arthur Bispo do Rosário. Em Murilo Mendes e Jorge de Lima. Na ascese violenta de José Leonilson, como no trabalho que usei para ilustrar esta postagem. A violência da ascese, da secura verdadeira, aquela que João Cabral de Melo Neto deu a conhecer em "Uma Faca Só Lâmina" (1955) e eu por vezes tenho a impressão que poucos seguiram, talvez por preferirem ver a secura como técnica para um estilo, quando ela era tão, tão est-É-tica (perdoe, mais uma vez, minhas obsessões). A ascese de uma pobreza, como a que Carlos Drummond de Andrade nomeava "Nudez". Mesmo os machos agnósticos sabiam que o melhor é "na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita." Orides Fontela a escrever:


...........A um passo
...........do pássaro
...........res
...........piro



Acabei de postar este texto com uma ilustração de José Leonilson e então percebo como é apropriado: "34 com cicatrizes". Amanhã completo 34 anos. Hoje é meu último dia na idade da crucificação. E este blogue só existe, às vezes eu penso, porque eu vivo, usando as palavras de Hilda Hilst, na busca de "ornejos de outras mulas (para) se juntarem aos meus." E então, quem sabe, "Escoiceando os ares, espumando de gozo / Assustando mercado e mercadores", cada um de nós possa dizer: "Alegrou-se de mim o coração".



Mula de Deus
Hilda Hilst

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula

(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura
).



(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)


.
.
.

Arquivo do blog