segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

"Fios", de William Zeytounlian

I.

Haverá realmente
tempo perdido?
Não o dizemos somente
por tempo passado?

Se o que se investe
entrementes
não passasse de gasto,
como haveria
sempre o risco
em retomar sempre
esse rastro?


II.

Haverá realmente
Tempo passado?
Não o dizemos somente
Por tempo perdido?

Se o rastro que falo
Está sempre às voltas,
O único risco
É ser intraduzido –
Às voltas sempre
De um ser-se tão vago.


III.

Parcas de si:

Entre os dedos
Da mão
O fio do
Vivido -

Barcas ao léu:

Mas se ata
Ao tronco
O fio do
Passado.


William Zeytounlian (São Paulo, 1988).

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Feliz aniversário, idolatrado Markus!



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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Minha caneta para "Charlie Hebdo"

© Jean Jullien


Nem gritos de ordem, nem
Ocidente versus Oriente.
Não cantarei a Marseillaise.
Sei não se isso, em risco.
O que comove são penas,
hoje canetas, em riste.
Mas guardando silêncio,
silêncio de palavra escrita.
Non, je ne suis pas Charlie.
Acordei, hoje. Bebi, comi.
O coração ainda bombeia
o sangue, que me irriga
enquanto o deles os salpica.
Kaváfis disse: Alexandria?
Saúda-a em plena perda.
Mas cada vez mais difícil
saber o que possuímos.
Europeu, eu? Ou patriota?
Fodam-se idiotez, Pegida.
Como escreveu Al-Ma'arri,
sempre algum novíssimo
conto de fadas no púlpito.
República? Meus amigos.
Se em perigo a Ucrânia,
sempre penso em Andriy.
Com as notícias em Paris,
"estará bem meu Antoine?"
Para mim, é Murad o Islã,
ele, que tem cinco filhos
na Turquia, por eles vende
seus quebabes na esquina.
Eu digo: "Salam, Murad."
"Wa alaykumu s-salam,"
ele diz, "Papa Francisco."
São estes os contatos,
os primeiros em risco.

--- Ricardo Domeneck, 8 de janeiro de 2015.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uyatã & A Ira de Rá



Uyatã & A Ira de Rá é um coletivo de Feira de Santana, Bahia. 
Um dos membros é o poeta contemporâneo Ederval Fernandes.




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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Johannes CS Frank

Com Odile Kennel, Dominik Ziller e Johannes CS Frank na Feira do Livro de Frankfurt, em 2013

Começo o ano mostrando a vocês este vídeo que descobri hoje, com a leitura de Johannes CS Frank para seu poema "The Café", em Berlim. O sr. Frank é um dos poetas de minha geração que mais respeito. É também, como alguns sabem, meu editor na Alemanha. Um prazer e uma sorte é o que é, poder ser editado por um poeta que se respeita. Ele é também um de meus melhores amigos. Faço aqui esta declaração de amor.


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Guilherme Gontijo Flores

Guilherme Gontijo Flores (n. 1984)


Com 30 anos completados este ano, o brasiliense Guilherme Gontijo Flores já pode, em minha humílima opinião, ser contado entre os mais importantes intelectuais de sua geração. Estreou no ano passado com o volume brasa enganosa, livro que foi saudado em várias resenhas (a mais recente no Diário da Manhã, 27.12.2014, outra, mais antiga, na Gazeta do Povo, 14.07.2013) e concorreu a alguns prêmios. Mas, se celebro sua existência aqui, deve-se ainda ao fato de Gontijo Flores ser hoje um dos melhores tradutores do país, tendo-nos dado a tradução completa das Elegias de Sexto Propércio, além da premiada tradução da Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, traduções para Horácio, e outros, incluídos na vindoura antologia Poesia Homoerótica Latina, a sair pela excelente editora Autêntica em 2015. Além disso tudo, ele é coeditor da revista  escamandro, uma das melhores a surgir no país nos últimos anos, e na qual também publica traduções esparsas de poetas clássicos e modernos.

Seu primeiro livro é realmente uma bela estreia, mas os poemas que vem escrevendo desde então tomam minha atenção com muito mais força. Seu segundo livro será uma contribuição ainda melhor, estou certo disso. E é desses poemas mais recentes que tomo dois de meus favoritos, publicados pela primeira vez na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., com a qual o brasiliense já colaborou algumas vezes.

Dessarte segue minha série Poesia Nata nos 80.




DOIS POEMAS RECENTES DE GUILHERME GONTIJO FLORES (Brasília, 1984)


A vida & as opiniões do barnabé guilherme gontijo flores servidor do estado 

1.

    Não fui criado para o filho certo
nem para o único
& mesmo assim em algo o sou
ainda que isso nada diga
de mim de outro estulto qualquer
eu não me congratulo
pois cada meu fracasso
não fora antes planejado
porém não disse nada inusitado
& em cada passo armado
o risco de cair
se deu como a delícia
por  descumprir a sina ignorada
    O tédio não foi bom
nem mau nem meu nem médio
& confesso que nunca
pensei pular do prédio
para espetáculo da turba
que ajuntada na pressa
logo estaria estupefatamente
desinteressada
    Eu pensei no passado
aquela velha igreja por exemplo
eu muito mais me a adentro
do que alguma vez
pisei no seu mistério
& cada templo em que passei
mais parecia a casa
envelhecida dentro de um museu
como aquela matriushka que nunca tive
porque estava em outra parte
falseando outra história
    Eu não sorvi do sangue das vitórias
eu nem mesmo as contei
em nada fui desapontado
& creio não desapontei
na tarefa tão árdua de um abraço
eu recuava ao tempo da família
dos quadros apagados
dos nomes sem memória
& de um brasão talvez
perdido nas gavetas inventadas
de algum antepassado
que hoje sumiu sem deixar traço
& sem abrir no espaço
uma ferida falsa
à qual eu me apegasse
toda história é cansaço


2.  Quanto à canção de amor

A tua ausência me dói
seria mais uma frase
de merda para qualquer
parte do poema qualquer
que nem penso em escrever
& ainda assim eu escrevo
aqui agora & inútil
justificá-la por frase
feita com sinceridade
do meu estoque mental
falacioso e mais fácil
do que a dor sim verdadeira
de pensar não te pensar
por saber que a tua ausência
todos bem sabem sequer
existe logo não me
nada & por isso eu prefiro
tua lembrança me dói
tanto que canto pra ver
se soa menos banal
cantar um outro estribilho
tua presença me dói
tanto quando entra pelos
sete buracos da minha
cabeça igualzinha a este
sabonete que hoje entrou
por apenas um buraco
tão ínfimo da cabeça
(no desatento do banho)
do meu pau & assim presente
quanto inútil é que se fez
dentro de mim como eu mesmo
que só resta rejeitá-lo
& falsamente voltar
a mijá-lo talvez por
gozar talvez dessa dor
que por sair é que dói
nesta cena tão dolor
osamente repetida

3.  Finale glorioso

Só falamos ou quase
de mim você ficou
na sombra como os pais
da égua inominada
do clint eastwood naquele
banguebangue que você
gostava & agora já não lembra
qual era o nome mesmo?
então façamos só você & eu
mais um experimento
para encerrar o expediente
seria assim apenas
pro teu contentamento
de leitor pró-ativo
com nome jubiloso
algo como poética
do reconforto sim?
pois pegue um bom copo portátil
(de alumínio cria um
melhor efeito ao texto)
retire a tampa & monte
até ficar perfeito
encha o seu copo até a boca
& meta a boca nele
tome uns 2 ou 3 goles
daquela mesma água
(pouco importa o sabor
eu prefiro pensar
que seja água da talha)
já chegamos ao ponto
desfaça o copo de uma vez
e veja como a água que
se espalha no carpete
(imagine um carpete)
seja agora a melhor
metáfora da tua vida
você sorriu? você
voltou a pensar se
cortaria os teus pulsos?
você não acha mesmo que a sua
vida não serve de metáfora?

§

cansós

1

não pense que agrada tanto
nunca sucumbi a um servo

nunca lancei
abraços nessa cruz
coisa de matronas
que beijam
marcas de chicotes

eu
    mesmo sendo criada
só cavalgo cavaleiros

2

 no peito tímido
        meu mugido de cervo
enlouquecido em extravios
minha descara
& a donzelice (dentr’
outras cousas)
mui bem perdida
nas ondas do mar de vigo

– a mais feliz vaga do mar de vigo –
& eu bem queria, mãe
que ao me levar
você me jogasse
     nesse mar cruel
& inchado
das ondas purpúreas


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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Reuben da Cunha Rocha

Reuben da Cunha Rocha, ou cavaloDADA, ou o xamazenexu da poesia nata nos 80

Primeiro ouvi falar do senhor Cunha da Rocha por Fabiano Calixto, que recomendava publicarmos poemas do maranhense na Modo de Usar & Co. impressa. Eu poderia usar o atalho agora e dizer apenas: "O resto é História", pois desde então o xamazenexu (não procure no dicionário, pus as palavras na valise agora) da poesia nata nos 80 se tornou um dos maiores colaboradores da revista, com inúmeros artigos sobre poetas brasileiros, como Celso Borges (São Luís do Maranhão, 1959) e Cátia de França (João Pessoa, 1947), e traduções de estrangeiros como Allen Ginsberg (1926-1997), e.e. cummings (1893-1962) e Linton Kwesi Johnson (n. 1952).

No terceiro número impresso da revista, publicamos seu ensaio "Poesia inútil, poesia irrelevante?", fundamental para quem pensa hoje a poesia contemporânea e já disponível na franquia eletrônica. Vários poemas seus podem ser lidos por lá, assim como os artigos e traduções. Publico aqui, nesta série dedicada à poesia-nata-nos-80, dois poemas recentes do xamazenexu da década.


DOIS POEMAS RECENTES DE REUBEN DA CUNHA ROCHA (São Luís do Maranhão, 1984)


Reuben da Cunha Rocha / cavaloDADA : "Apokalypse Nau" (2014)

§


LOGO ACIMA DO SILÊNCIO DO ÍNDIO Q SE SUICIDA
o enforcado sonha em disparada desta atmosfera pesada p/ outros mistérios + esferas
logo acima
dos abacates suspensos podres 1tupi akira
vara a febre do mosquito galopa aflito p/1lugar longínquo + escapa
às tentativas de assassinato
vista multidimensional do universo
amplo ataque do enxame sobre o exército

dura a pedra dura a pétala dura o bicho cada qual cada vez cada séc.
é o arroto do raio o trovão na imaginação do cego
depósitos de mão
de obra pobre
p/ as impraticáveis
monoculturas currais + covas
chamadas de reservas
o país q em favor do capital opera criminosamente a transferência brutal de indígenas terras
a homens rudes c/ rostos ocultos sem qqr relação c/ elas
gira o sumo no seio da panela morde a língua entre toras de palmito nasce o fogo q nasce do atrito enqto aspiram os seus cachimbos magníficos nova forma de banzo embalada pela nau do desdém LIMITE DE EMBARQ: 1100

papo rente nas vielas tortuosas nas cabeças nas rasantes calçadas talagadas entraves + tragadas ferve o sumo nas veias transtornadas

sem convívio
sobrevoa o continente o vestígio
d1 animal q achava q era gente espíritos nativos represados fantasmas samurais entre os guarani-kaiowás a curva ascendente dos casos de suicídio
tendência > 20x + 
q entre os cidadãos brasileiros doutras classes sociais

ouve o rio
q ñ tem direção + q ñ anda a esmo
1000caminhos
entre a carne + o esqueleto corre o sangue avoado círculo ambíguo pragmático crespo lácteo mel ígneo magnético moro no olho q espelha 1velho espírito íntimo casa rua raiz campo fértil
microrganismo incisivo ligado respirando fundo + pelo mundo respirado 1calângo jubiloso + lânguido ágil réptil respirando fundo + indo à toda pela deslizante dentição da roda fétida
24h x 7
a mente vegetal prepara lenta a réplica
lépido radiante assalto à serra elétrica
p/ além do esgotamento q provém da ganância
suavidade p/ extirpar o veneno da vingança
nas entocas nas ferrugens do progresso
vai prudente
+ ñ se esquece
q a experiência é o +astuto mestre
+ a trilha longa em q caminha a luz dos corpos celestes
+ q só vamos saber o q é suficiente qdo soubermos o q é + q suficiente
na curva da cobra nos cornos do touro no couro
do tigre na pata
do elefante
percepções sutis na sombra de 1sutil caminhante
q desapareceu pq era agricultor + 1guardinha o confiscou = 1vil transeunte
relato q ele ouviu d1 pescador
da planta q depois do sol se pôr o ajudava a ver o mar brilhante
a vaga vaza + vai entre a enchente + a vazante

verdades estão além das certezas violência se vence c/ delicadeza equilibrismo dos pés em convictos barbantes grosseiros o sol calmo centro dentro vagueia atenção plena + inteira na linha descontínua d1 flecha fina q dissipa a espessa púrpura neblina + se dissemina c/ o coração à frente do caminho 1vivente insiste se afina no instante + amanhece
sem pino sem trava
sem tolice





segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Texto em que o poeta apresenta o relatório sobre os efeitos resultantes da ação da gravidade sobre os porcos



Há poucos dias, eu  elogiava o trabalho poético de PJ Harvey, ao ler a notícia de que ela pretende lançar uma coletânea de poemas em 2015, intitulada The Hollow of the Hand (que título!), em parceria com o cineasta e fotógrafo Seamus Murphy, criador dos filmes para seu álbum Let England Shake (2011). Repito aqui o que disse nas redes sociais: já tenho muito respeito por Polly Jean, poeta. Várias de suas letras funcionam muito bem na página, e aprendi algumas coisas com ela. Quem se interessa pela tradição oral e o trobar medieval não se espanta. Sempre apreciei nela o que chamo de tristeza raivosa, algo que busco em alguns poemas. Não choramingar, mas só deixar cair a lágrima se os dentes estiverem trancados uns nos outros. Uma coisa que me parece clara em certas canções suas é a lição de que minimalismo e concisão não precisam significar esterilidade emocional. Sente-se isso também em Lorine Niedecker ou Robert Creeley, por exemplo.

No artigo, ela diz ter muito interesse pela imagem, o que fica claro ao percebermos a força fanopaica de canções como "Is this desire?" e "Rub till it bleeds". Polly Jean foi importante para mim em dois momentos específicos. Lançou o álbum Stories from the City, Stories from the Sea (2000), com canções que me ajudaram muito em 2001. E, em 2011, o pior ano da minha vida, o ano em que escrevi Cigarros na cama, ouvi muito seu White chalk (2007). White chalk é um grande álbum, com canções que são realmente primores, como "The devil" e especialmente "Dear darkness". A força destas canções, para mim, beira o místico, como em certos poemas de Hilda Hilst, como "A Mula de Deus".

Lembrei-me deste poema escrito naquela época, em que faço duas referências veladas a PJ. Acho que depois do textinho acima ficará fácil identificar quais.

Texto em que o poeta apresenta o relatório sobre os efeitos resultantes da ação da gravidade sobre os porcos

Como vazio, vácuo, a sobra
seja raivosa

feito aquele que só caminha
por desertos

em secura de gelo, giz branco,
onde a ânsia

contenta-se no pus, a vingança
em separar

ao ar livre, pele ferida de pele
intacta,

apouca-se ou serve-nos morna,
cansa-se

de assoprar mil queimaduras
em graus,

cardápios da tal revanchíssima,
a arte

da farpa não é maestria difícil,
Master,

inicio sempre com os grunhidos
de ameaça

e depois me posiciono a lamber
as suturas,

THE END de joelhos, sussurros
aos favores.

Dona Escuridão, vem cobrir-nos
feito edredão, 

esquadrinha, compasso e bússola,
o caminho

da maturidade, sim? Sim, retirar
das pedras

a lição e a lesão? Hein, Master?
A Educação

pela Perda, não? Cervical, rastejo
e decúbito

me abordas com quatro ferros
nas mãos?

Fiz meu dever de casa, oh Master
de plástico,

contei com os dedos nos cálculos
e nos rins,

ofertei decréscimo à tua contagem
repressiva

e subtraí em deflação dos males
o menor,

menos valem os pássaros voando
que este

que defeca em minha mão, Master,
vim, vi,

me rendi, cresci ereto, sem bacamarte
ou funda,

sem o bom gosto de tuas artilharias,
todo alvo

hei-de demonstrar meus bons modos
ao kamikaze

e o mais que me resta, hospitalidade
na oferta,

Master, da outra, minha melhor face.

§

Ricardo Domeneck, in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)


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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Dois poemas recentes de Luísa Nóbrega


Luísa Nóbrega, “ventríloquo ou talvez tudo já tenha sido dito” - 2012, 
ação em que passou 21 dias em silêncio, se comunicando apenas por faixas pré gravadas em um gravador digital


Descobri o trabalho de Luísa Nóbrega (São Paulo, 1984), graças a Érica Zíngano, que preparou para a Modo de Usar & Co. uma postagem sobre a poeta paulista, com o artigo "Mercúrio em Conjunção com o Ascendente", publicado em agosto deste ano. Foi uma descoberta para mim, que não conhecia seu trabalho em performance ou textual. Gosto muito de ambos. Temos alguns pontos de contato, a obsessão pelo corpo, a recusa a escapar dele, pela consciência da impossibilidade.

"gorge", de Luísa Nóbrega



Compartilho com vocês. Poesia nata nos 80.


DOIS POEMAS RECENTES DE LUÍSA NÓBREGA (São Paulo, 1984)

meu salto engancha
em escadas rolantes
derrapa, enfático
sobre pisos úmidos

quase sempre
 mantenho o equilíbrio
- o difícil é que eu queria tentar
algo de vidro


chaleira, leiteira
tem que poder ir no fogo
tenho respostas-reflexo
de modo que não chega
a haver tombo


não rolei da escada
graças à risonha destreza
dos meus dedos mindinhos


faz a conta:
o que de mim se conserva?

.

para não ter um filho esmagado
Inga, da Bielorússia
ergueu um carro vermelho
de uma tonelada.

estourou as fibras musculares.
será que o vidro é impossível?

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meu caso é menos dramático
não há garotos soterrados
a resgatar

.

vez ou outra arremesso a testa
contra um muro de tijolos

(será que é muito complicado
caminhar para trás?)

§

tive a prova definitiva da existência de deus


marcas de sisal nos antebraços que não esticam nunca.

qualquer outro teria passado indiferente:
eu paro, por falta do que fazer.

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o cotovelo dele não vira ao contrário, como o meu.
parece um monstro sem cabeça, mas é só um sujeito
algo franzino
com o pescoço apoiado no espaldar de madeira.

tem resignação de uma cabeça aplainada
que espera a guilhotina.

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dois nós firmes nas extremidades da corda esticada
perturbada de quando em quando
por pequenos, nítidos socos.

tudo é mórbido. essa é minha última grade ou portão.

.

os pés dianteiros são morcegos que esvoaçam.
esticam e encolhem num movimento irregular/ atordoado
como se alguém sacudisse escandalosamente
um livro de salmos.

ah, esses mamíferos cegos de radar infalível –
sua precisão é insuportável.

.

agacho atrás de uma moita para não fazer xixi nas calças.
enquanto minhas coxas se molham
cantarolo uma ode

- qualquer coisa que esgarce a oposição entre
carne mortificada x
espírito eterno e sublime.


não dá muito certo, mas sinto uma espécie de alívio.
anacrônico, não faz mal.

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não espero salvação. a gente não se livra de um susto assim tão fácil.

.

por falta de milagres, faz tempo que eu não durmo –
quisera ter a convicção grosseira dos santos.

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mas entenda:
é imprescindível que haja uma grade ou portão fechado.
duas colunas. um gancho.
qualquer coisa capaz de suportar dignamente
esses nós paralelos intermináveis.

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de olhos fechados
o grunhido cheio de muco de um
penitente


nenhum céu adiante
nem mesmo inventado

.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Efígie medieval de Leonor, fotografia moderna de Simone




Efígie medieval de Leonor, fotografia moderna de Simone



"Força é mudares de vida."
Rainer Maria Rilke, "Torso arcaico de Apolo", tradução de Manuel Bandeira



Não, Rilke, não. Não é um torso de macho decapitado com suposta luz interior que exige de mim que mude minha vida. Não.

Antes a efígie de Leonor da Aquitânia, a grande; da Dinastia dos Ramnulfides; neta de Guilherme IX da Aquitânia, o Trovador; a mulher culta que acabou casada com trogloditas-reis; sob a patronagem da qual cantaram Wace, Benoît de Sainte-Maure; que foi amada por Bernart de Ventadorn; a que recebia os maiores artistas do seu tempo em sua corte, em Poitiers, corte que, lenda ou não, passou à história como a do amor cortês; rainha consorte da França, rainha da Inglaterra, Duquesa da Aquitânia e da Gasconha, Condessa de Poitiers; a que esteve presente na Segunda Cruzada e demonstrou maior habilidade militar que seu primeiro marido, Luis VII, de quem ela disse "Pode ser rei, mas parece um monge"; a que fazia o que queria, fosse ter um caso com o tio ou anular seu casamento para casar-se com o primo distante, 9 anos mais moço; aquela que depois liderou rebeliões com seus filhos contra o mesmo, seu segundo marido, Henrique II; a que foi banida e presa, por este, por 16 anos no Castelo de Sarum; a mãe de reis e rainhas, entre eles Ricardo Coração de Leão; rainha-leoa que teve sua efígie esculpida não com espada ou cetro nas mãos, mas um livro.

Antes a foto de Simone Weil, a responsável, os olhos fechados detrás dos óculos; a que escreveu o panfleto "Allons-nous vers la révolution prolétarienne?" e foi chamada de herética pelos patriarcas da Igreja Marxista Ortodoxa; a que se dividia entre a enxaqueca e o êxtase, entre a vindima e a ascese; a que lecionou filosofia apenas para meninas; a que lutou na Guerra Civil na Espanha mesmo sem saber manejar arma, pois sentia que era sua responsabilidade; aquela que teve um epifania na Basilica di Santa Maria degli Angeli e completou sua revelação na leitura de um poema, "Love III", de George Herbert; que foi a Londres e atazanou De Gaulle até que este a engajou na Resistência Francesa; não sem antes, trabalhando num vinhedo, encher cadernos de meditações que formariam um livro chamado "A Gravidade e a Graça", que eu leio sentindo-me desnudo, como se ela delicadamente arrancasse-me a máscara; aquela que disse que "A atenção é a mais rara e pura forma da generosidade"; a que se recusou a comer, com um pé já na cova, pois se os judeus morriam a milhares de quilômetros aos milhares, ela não podia comer; e que então morreu de maneira cátara aos 34, sozinha, olhando uma árvore pela janela.

E assim passo os dias, entre o desejo de empanturrar-me em êxtase na corte de Leonor da Aquitânia, e jejuar em ascese num convento com Simone Weil, contraditório, entre enxaquecas e epifanias.

São estas que, ao olhar-me ao espelho, perguntam: E você, faz o que da vida?


§

Berlim, 10 de dezembro de 2014.

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