sábado, 6 de setembro de 2014
"Segundo São Lucas", poeminha escrito em Salvador
Segundo São Lucas
Meus planos eram só
lavar os pés
na Baía de Todos-os-Santos
após tê-los enfiado na jaca
à noite de Santo Antônio anterior,
solteiro que nem milagreiro
ajuda. A caminho da compra
de um Lucky Strike,
tu passaste dentro de tua sunga
laranja. Pensei em Frank O´Hara,
"how terrible orange is, and life"
mas o sol incidia na tua fruta,
e laranja e vida
se me assemelharam
coisas gloriosas.
Que lucky
strike, isso.
Te vi descer à areia
e lançar-te às águas
e nada amuado
me pus à murada
para melhor contemplar
tua antítese de Botticelli.
Do nariz às panturrilhas,
passei mal na crista-ilíaca.
Barroco é isso, meus filhos.
Ê, perfeito até nos calcanhares.
Se tivesses guerreado na Ilíada,
terias sobrevivido a Aquiles
e então velejado com Ulisses,
deixando boquiabertas,
pasmas de mudez as sereias.
Santa Maria e São Diogo
dos Fortes, valei-me.
Emergindo gigante
feito Itaparica, vi a tatuagem
na tua região
ântero-lateral, oh! grande dorsal,
"Lucas & ______",
mas não pude ler o segundo.
Provável, uma tua concubina.
Mas se certo julgo pela forma
obsessiva
com que ajeitavas a sunga,
alisavas o tanque de quem-dera
minhas roupas sujas
e apalpavas a própria bunda,
numa demonstração pública
de amor-próprio merecidíssimo,
começaste com teu nome.
Eu também estava todo
entimesmado. Por tanto,
ah! Lucas, qual a cartilha
que rezas? Diz-me
o abecedário
do teu Evangelho.
§
Salvador, 6 de setembro de 2014.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Ouçam "Muddy Waters", dos meus queridos Markus Nikolaus & Louis McGuire (o duo berlinense Us)
Markus Nikolaus & Louis McGuire
Markus Nikolaus e Louis McGuire são dois dos meus mais queridos e próximos amigos nestes dois últimos anos de Berlimbo. Já falei muito sobre Markus aqui, e preparei uma postagem também sobre o trabalho sonoro de Louis na Modo de Usar & Co..
No melhor espírito berlinense, onde ser amigo significa colaborar e criar juntos, Markus e Louis vêm compondo juntos há algum tempo, e, assinando agora como o duo Us – lançam seu primeiro single, intitulado Muddy Waters, pelo selo dirigido por Julien Bracht em Frankfurt, Trust. Julien foi ainda responsável pelos dois remixes.
Ouçam meus dois queridos, Markus idolatrado salve salve e o ruivo zen Louis, com suas águas cristalinamente lamacentas.
O nome do duo vem do fato de já colaborarem com Maayan Nidam no trio The Waves & Us. Como Maayan se apresenta sozinha como The Waves, os dois decidiram que juntos seriam o Us. Muito carinho para todos os envolvidos.
Ouçam meus dois queridos, Markus idolatrado salve salve e o ruivo zen Louis, com suas águas cristalinamente lamacentas.
O nome do duo vem do fato de já colaborarem com Maayan Nidam no trio The Waves & Us. Como Maayan se apresenta sozinha como The Waves, os dois decidiram que juntos seriam o Us. Muito carinho para todos os envolvidos.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Ler é uma duração tamanha
Muita coisa incomoda na carne que começa a afrouxar-se aqui e ali, no cabelo que vai se embranquecendo. Mas há uma coisa que deviam ter-me dito sobre a idade: que eu leria, um dia, pela primeira vez, aquilo que já havia lido centenas de vezes antes. Deveria dizer: ler "como se" pela primeira vez, mas isso não faz jus à coisexperiência. E aquilo que parecia até mesmo ter perdido o lustro por ter-se tentado acender tantas vezes, e críamos ter entendido, e o tínhamos, mas não compreendido, de repente se ilumina imenso. Ler é uma duração tamanha. Quantos dias dura ler "Tudo no mundo começou com um sim"? Quantos dias dura ler "É cuidar que se ganha em se perder"? E jamais esquecer: é bom, não quer o mal. "Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."
Berlim, 25 de agosto (mês de desgosto) de 2014.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Poetry: USA - Frank O'Hara (1966)
USA: POETRY, FRANK O'HARA (1966) 16mm, 15 minutes, dir. Richard O. Moore (courtesy Thirteen/WNET New York, Richard O. Moore and the Estate of Frank O'Hara).
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quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Poema recente de William Zeytounlian
passado
o que
assoviar
quando se
esquece
a última
das
canções?
a aposta
absurda
foi
precisássemos
mais delas
nesse
ínterim,
pensar
sobre
os rumos
da poesia
enquanto
há
sem-teto
expatriados
ruínas
famintos
e
nosso passado
e
seus mortos
e
nós, envergonhados de nossa responsabilidade sobre ele
e
nós, envergonhados por não assumirmos nossa responsabilidade sobre
ele
e
nós, envergonhados de nossa vergonha,
incapazes
de sentir a vergonha,
incapazes
de vergonha
incapazes
de qualquer capacidade
incapazes
até de incapacidade
e
envergonhados por isso,
enquanto
se projeta o passado como uma sombra sob nossos pés
enquanto
ele se estende interminável até perder-se de vista
olhamos
para o passado como para uma sombra
mas
nos enganamos
ele
é uma sombra,
mas
olhamos para ele como para um deserto
e
ele é, de fato, um deserto
era,
é,
e
no fundo inimaginável deste deserto a perder de vista
se
aproxima a ideia de um inimigo
um
inimigo a encarar
inimigo
afrontável
um
inimigo que é maior que qualquer inimigo, pois é gigantescamente
ideia
uma
ideia amiga sobre a qual nos enganamos
ideia
amiga que tomamos por inimiga pois nos afronta
e
nos envergonha
essa
ideia:
nossa
amiga
enquanto
procuramos
dinheiro
e
trabalhamos
por
comida.
São Paulo, 1988.
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terça-feira, 12 de agosto de 2014
Burocracia no céu ou senso de humor no inferno?
Domeneck & Nikolaus - "Heaven Burocracy" (2014)
maybe heaven burocracy
or sense of humor in hell
that I was meant for you
but you for someone else
maybe the postman mixed
or confused our addresses
in the end we got drafted
to these opposite trenches
maybe this entire time
you were a double agent
or your loyalty wavered
left me on the loser side
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quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Elogio do pai
Este
não será ainda o texto que eu hei-de dedicar ao senhor, João
Domeneck. Eu ainda estranho a morte do senhor, a morte do senhor é
uma notícia sem corpo, uma mensagem sem voz, aqui deste lado do
Charco que eles chamam de Atlântico. Mas é a notícia que faz da
nossa ausência mútua algo mais escuro. Quantos caracteres, quantos
signos foram necessários para anunciar a morte do senhor? Tão
poucos. Mas quantos dariam conta da enormidade dessa novidade
absurda? Ao mensageiro que lhe trouxe a notícia da morte de Saul,
Davi caiu-se por sobre ele com a espada. Mas a mensageira era minha
irmã, João Domeneck, aquela que o senhor criou como se fosse sua. E
o era menos, por não ter saído das suas coxas?
Duas
décadas depois de ter deixado a casa do senhor e da mãe, é como se
cada dia devesse ter sido um preparo para estes, imediatamente
posteriores à morte do senhor, mas nunca são. Que frase louca me
veio à cabeça agora, João Domeneck, “a morte nunca é sã.” O
senhor riria? Meus irmãos têm todos feito suas homenagens,
expressado o descorçoo da perda, e sinto essa voz acusatória,
dirigindo-se não a mim, mas ao senhor, “E o teu filho metido a
escritor, João Domeneck, não vai dizer nada, não vai abrir aquela
bocarra cheia de opiniões?” Me deixem quieto no meu canto, sobre a
morte do senhor eu não tenho opinião, só susto. É, este não será
ainda o texto que eu hei-de dedicar ao senhor, João Domeneck. Este é
apenas o primeiro registro do susto.
Eu
me lembro da morte da mãe do senhor, aquela italianona ruiva do
Molise, aquela avó de coração de romã, numa véspera de véspera
de Natal, e a sua viagem à sua
cidade natal,
ao velho cemitério de Taiaçú, no interior do interior de São
Paulo, para buscar os ossos do pai do senhor, que também se chamava
João Domeneck, não, não se chamava João Domeneck, é hora de
corrigir os erros de imigração, da nossa imigração, o pai do
senhor, João Domeneck, chamava-se Joan Domènech, eu sei. Ou, como o
senhor sempre se lembrava, o Jão Catalão, como era chamado pelos
brasileiros, o povo da terra que escolheu, os sitiantes vizinhos,
antes de morrer, quando o senhor tinha apenas 12 anos e teve então
que cuidar de mãe e irmão menor. Naquele natal, após enterrar sua
mãe italiana e colocar sobre o caixão dela os ossos do seu pai
catalão, o almoço foi uma coisa silenciosa, pesada e chuvosa, e eu
me lembro de ficar observando-o ali, cabeça da mesa, calado,
inescrutável como sempre fora, me perguntando: “O que está
passando pela cabeça desse homem, meu Deus?” Hoje, todo lido e
viajado, moleque metido a besta – como o senhor diria, eu poderia
vir com citações sublimes, dizer que por sua cabeça passava uma
lamentação identificável por qualquer homem e mulher e cabra
carcomidos pelo sal do Mediterrâneo, mas o que sabia eu naquele
tempo? E o que sei eu hoje?
Será
que o senhor algum dia leu um dos meus poemas? Não sei, João
Domeneck, e peço já perdão por não ser Drummond algum, é pouco
provável que eu um dia possa dedicar ao senhor e à sua mesa, que o
senhor sempre manteve cheia, abastada, com fartura de tudo (ainda que
não faltassem as admoestações a que não acabássemos com o
iogurte em um só dia, e que não se come só mistura), algum poema
como “A Mesa.” Com a filiação agora pela metade, resta essa
senhora cansada, trabalhadora,
com os cabelos que já nem mais perde tempo em tingir, e essa minha
vontade de poder fazer como Drummond, apenas “pedir à mãe que
cosa, / mais do que nossa camisa, / nossa alma frouxa, rasgada.”
Não
era sempre fácil, pai, e note que só agora, neste parágrafo,
dirijo-me ao senhor assim, João Domeneck. Como se aprende a ser o
filho obediente e honrar pai e mãe quando se discorda de tanta coisa
no campo político, religioso, e nessa mistura louca dos dois em
nossa República? Como se aprende a ser o filho que nem sequer pior
que a encomenda saiu, mas cresceu com aquela sensação de ter sido
entregue com defeito de fábrica? E nós nunca tivemos essa conversa,
João Domeneck, nunca falamos abertamente disso,
pai. Não pude jamais contar ao senhor quem eu realmente era, a quem
amava, e quando as dores dos pés na bunda vieram, nunca chorei no
seu ombro. Havia um acordo tácito, um pacto de silêncio, mas
nutrido por aquela certeza, agora eu sei, agora, neste susto grande,
de que o amor fala muito alto, o amor tem garganta de ouro
(piscadela, aqui, a meus irmãos, que entenderão a citação), o
amor cala bispos e senadores, cala tudo o que não vem da terra, e o
que vem da terra é uma compreensão total entre tudo o que ama,
sofre e morre, mas sobretudo morre,
como diria aquele outro católico, Miguel de Unamuno, que o senhor
teria certamente aprovado, da mesma forma como se pôs sorridente
quando me flagrou lendo Santo Agostinho e suas Confissões.
Mas não disse nada.
Não,
aquela conversa não houve, e sabemos que a História tem uma
preferência obsessiva por tudo o que houve, e o que não houve é
relegado aos casos de memória curta das famílias. E isso nos serve
bem, pois éramos e somos gente pequena. E a gente pequena é aquela
dos segredos inconfessáveis, que vão sendo comunicados num estranho
tipo de morse, como um agitar de bandeiras ao alto e abaixo entre
dois barcos de papel numa poça d'água, evitando a língua, da mesma
forma como não se põe colher de boca no doce, para não azedar o
pudim. Lição que aprendi com o senhor, que no entanto até do leite
que coalhava sabia aproveitar para a fartura da mesa.
Não,
este não foi, é ou será ainda o texto que eu hei-de dedicar ao
senhor, João Domeneck. Mas tendo-o chamado de “elogio” no
título, cabe-me agora dizer ao senhor que busquei, sim, um elogio
nestes últimos dias, não o do gênero literário, mas como
compreendemos a palavra no interior, e posso dizer a todos, ao
aproximar-me do final deste texto, isto: que foi com o senhor e a
mãe, quando eu ainda era muito criança, que aprendi o que
significava a palavra “cafuné.” E não creio que se possa fazer
maior elogio a um pai e mãe.
Quanta
gente morreu este ano, das causas que têm sido as causas pelos
séculos dos séculos, velhice, doença e guerra, pai, muita guerra.
Não faz uma semana que descrevi este 2014 como um “ano de perdas
irreparáveis”
ao falar da morte de outro artista que respeitava, porque têm
morrido muitos, pai, da profissão desse filho – metido a besta –
do senhor. Só não esperava que o ano me faria pagar tão caro pelo
uso daquele adjetivo.
R.I.P.
João Domeneck Filho (1932 – 2014).
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sexta-feira, 1 de agosto de 2014
A Tradição do Landay: poesia feminina afegã
A escritora Eliza Griswold e o fotógrafo Seamus Murphy viajaram ao Afeganistão em busca da tradição do landay, uma forma poética milenar da língua pachto (também conhecida simplesmente como afegão ou afegane), composta tradicionalmente por mulheres. Os landays são dísticos de lírica amorosa, mas também satíricos, que têm sido uma das formas de resistência das mulheres afegãs há séculos. Cada verso tem tradicionalmente 11 sílabas. Uma tentativa de tradução, a partir das versões para o inglês no filme acima:
A tradição tem sido perseguida no Afeganistão. Por ser tradicionalmente ligada à lírica amorosa, os fanáticos religiosos proíbem que mulheres componham seus landays, por acreditarem que eles denotam uma vida licenciosa. Mas a tradição sobrevive. A próxima vez que algum demente falar sobre a "crise e inutilidade da poesia", faça um favor ao demente: envie a ele ou ela este vídeo.
Você é como a América, meu querido.
Ainda que sua a culpa, é meu o castigo.
§
No pomar, eu quero beijar você. Mas, sem barulho!
Os outros pensarão que há bodes presos no arbusto.
§
Poderia provar até a morte, se provasse a tua língua
Enquanto o via tomar sorvete, ambos crianças ainda.
A tradição tem sido perseguida no Afeganistão. Por ser tradicionalmente ligada à lírica amorosa, os fanáticos religiosos proíbem que mulheres componham seus landays, por acreditarem que eles denotam uma vida licenciosa. Mas a tradição sobrevive. A próxima vez que algum demente falar sobre a "crise e inutilidade da poesia", faça um favor ao demente: envie a ele ou ela este vídeo.
Foto de Seamus Murphy, do livro
I am the beggar of the world: Landays from Contemporary Afghanistan.
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quinta-feira, 31 de julho de 2014
"Assombração Urbana" : documentário sobre Roberto Piva (1937 - 2010)
Assombração Urbana, documentário sobre Roberto Piva (1937 - 2010),
dirigido por Valesca Canabarro Dios.
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segunda-feira, 21 de julho de 2014
Novíssima peça sonora: "Animal sentinels" (2014) - Domeneck & Nikolaus
Markus veio aqui pra casa e passamos a tarde de sexta-feira trabalhando nessa peça. Louis apareceu com cervejas e preparou umas batidas adicionais.
Domeneck & Nikolaus - "Animal sentinels" 2014).
Text by Ricardo Domeneck. Music by Markus Nikolaus. Additional beats by Louis McGuire.
Animal sentinels
We will send the canaries in first.
The canaries will guide us in the dark.
Send in the canaries
There shall be time to evacuate Hoboken
There shall be time to shield Alphabet City
There shall be time to alert the population of New Orleans
We will send the canaries in first
The canaries will lead the way in the cold
Send in the canaries
There shall be time to evacuate Camden
There shall be time to shield Amsterdam
There shall be time to alert the population of New Delhi
We will send the canaries in first.
The canaries will show us the dangers ahead.
Send in the canaries
There shall be time to evacuate Copacabana
There shall be time to shield Tokyo
There shall be time to alert the population of New Providence
But the canaries have been so quiet
The canaries havent moved
For a long time
If there are any canaries left
Send in the canaries
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