Nos últimos meses, alguns amigos entregaram-se com paixão à militância política por seus candidatos à presidência, tanto à direita como à esquerda, ainda que tenha se tornado difícil, hoje em dia, aplicar esta velha dualidade como distinção absoluta. Se levarmos em conta as críticas que compareceram na campanha, em que acusações de "fascismo", "autoritarismo" ou "antidemocrático" eram aplicados de cada lado do debate, pareceria difícil. As alianças políticas estabelecidas por cada partido para garantir sua vitória e possível maioria no Congresso Nacional tornariam ainda mais impossível esta velha distinção. Mas sejamos práticos: ignorando, por ora, acusações de possíveis veleidades antidemocráticas de cada lado, o fato concreto de que o PT defende uma participação muito mais clara e massiva do Estado nas relações sócioeconômicas que influem no bem-estar da população, quando comparado ao
laisser-faire massivo do PSDB, já nos serviria para distinguir de que lado balançavam os pezinhos dos candidatos sobre esta cerca, na qual pareciam em muitos momentos estarem de mãos dadas.
Nas conversas, discussões e tentativas de debate que tive com estes vários amigos, em geral particulares, às vezes públicas, fui percebendo como era praticamente impossível manter aquele desejo sincero, de todos, de um debate verdadeiro e amplo, simplesmente porque a militância exige, em tantos momentos de uma campanha difícil como esta, aquela defesa quase cega, a aceitação em bloco, impedindo que as limitações óbvias de cada partido pudessem ser discutidas de forma aberta, clara. Cada um dirá também que as estratégias assumidas pelo adversário impediram este debate adulto e sério. Não sei. Saio desta experiência com a impressão de que debate político não existe em tempo de eleição, quando tanto parece estar em jogo, e está, prestes a perder-se ou confirmar-se.
Além disso, o discurso apocalíptico de cada lado pareceu-me muito mais intenso nesta eleição. A tática populista do "messianismo político" parece ter cedido à estratégia da invectiva escatológica, ou (permitam-me o neologismo) de um "apocalipsismo político". O eco de "calipso" no neologismo traz à mente o caráter de religião de espetáculo presenciado nas últimas semanas. Não pareciam contar tanto as qualidades de cada candidato quanto afirmar o desastre político que a vitória do adversário significaria. E não duvido que cada um acreditava realmente neste apocalipse anunciado. Para os interesses políticos e principalmente econômicos dos eleitores de Serra (apenas a curto ou médio prazo, se tivessem visão política verdadeira), a vitória de Dilma Rousseff significa verdadeiramente uma catástrofe, como a vitória de Serra teria significado uma catástrofe para os interesses políticos dos adversários. Neste duelo para decidir quem tinha o maior Apocalipse, tomar uma decisão lúcida parecia realmente difícil, em especial em meio à histeria das últimas semanas, e da interferência canhestra de questões religiosas em um debate político. O episódio em que Joseph Ratzinger, o líder de um estado teocrático, tentou influir nas eleições de um estado democrático e oficialmente laico fica em nossa História como um momento de desrespeito a mais da Igreja Católica em solo brasileiro. Não estou diminuindo a importância da discussão da legalidade do aborto, mas buscar fazer com que isto defina a eleição do presidente da República, quando tantos fatores estavam em jogo, pareceu-me em alguns casos beirar o grotesco.
No entanto, se os discursos apocalípticos pareciam exagerados, tampouco cria eu ser prudente ignorá-los. E foi levando-os em conta, contabilizando estas possíveis catástrofes, que tomei minha decisão pessoal de qual candidato preferia ver na presidência da República, mesmo que tenha também tomado a decisão clara de não militar por tal candidato. Explicarei o porquê adiante. Para o revelar aqui, recorreria a uma paráfrase daquele capítulo de negativas do romance genial de Machado de Assis: pois, contabilizando os débitos da possível catástrofe política anunciada e alegada a cada lado da disputa presidencial, e o crédito das possibilidades de transformação social necessária no Brasil que cada um representava, ao chegar à tabela e resultado da conta
encontrei Dilma Rousseff com um pequeno saldo. E é por isso que me alegrei, sem qualquer entusiasmo ingênuo, com sua vitória neste domingo. Tentarei elaborar um pouco sobre isso. O uso que vários amigos queridos meus fizeram da acusação de "fascista" e "antidemocrático", tanto para Lula ou Dilma, assim como para Serra, parecem-me exageradas, mesmo que o PT esteja realmente muitíssimo confortável no poder, e Serra me pareça um protótipo mal-acabado de brutamontes truculento e autoritário. A isso, restaria dizer: mostre-me o partido que algum dia deixou o poder de bom grado. O PSDB criou a emenda da reeleição para manter Fernando Henrique Cardoso no poder, emenda vilipendiada por Lula e pelo PT, aqueles que, na sua boa hora, a souberam usar. De qualquer forma, a disputa presidencial ocorreu em terreno democrático, e o discurso de bicho-papão hoje em dia não ajuda, nem convence. De qualquer forma, por mais temerário que seja afirmá-lo aqui, confesso que, ao levar sim a sério as possibilidades de catástrofe antidemocrática de cada candidato, pareceu-me mais importante manter a continuidade dos programas sociais que (alega-se e torço para que seja verdade) tiraram 30 milhões de brasileiros da pobreza extrema. Se foram criados no governo de FHC, parece claro que passaram a funcionar no de Lula. Para mim, isto foi o que mais pesou na balança de minha decisão pessoal. Que estes brasileiros tenham votado para defender seus interesses econômicos (mesmo que estes interesses econômicos envolvam uma bolsa do governo de míseras dezenas de reais) parece-me totalmente legítimo, ainda que figuras como Olavo de Carvalho e Ferreira Gullar (ou nanicos intelectuais como Reinaldo Azevedo), em meio a certa histeria religiosa e ideológica, tentassem fazer disso algo a se lamentar. Ora, a classe média e alta vêm agindo politicamente de acordo com seus interesses econômicos há séculos. E insisto dizer tudo isso sem a menor simpatia especial pelo PT.
Deixei o Brasil há cerca de uma década. Vivi entre a Alemanha e o Brasil nos anos 2000 a 2002, quando me mudei de forma definitiva para Berlim, voltando ao Brasil apenas para visitar meus pais ou resolver questões burocráticas. Em 2002, uma de minhas últimas ações como residente da República Federativa do Brasil foi votar em Luís Inácio Lula da Silva em sua primeira vitória eleitoral à presidência, e sair às ruas para comemorar. Lembro-me ainda de estar com amigos na Avenida Paulista, com aquele cheiro de mudança no ar. Estava entusiasmado. Oito anos depois, vivendo em Berlim, lendo homens e mulheres favoritos como Ludwig Wittgenstein e Hannah Arendt, confesso não encontrar em mim sequer sombra daquele
brand tipicamente latino-americano de messianismo. O que resta é um desejo difuso de parúsia que se faz herança da minha educação religiosa como criança, pela qual sou tão grato, e pela leitura de outros seres prediletos e mestres eleitos, como Walter Benjamin. Contemplo hoje homens como Lula, FHC e Serra, ou mulheres como Dilma Rousseff e Marina Silva, com uma desconfiança e suspeita que são o que de melhor aprendi e herdei dos poetas anarquistas que me formaram, como os dadaístas germânicos.
Restaria, por fim, falar sobre aquela
imposição est-É-tica de
não militar. Como disse, muitos amigos meus militaram de forma ativa por um ou por outro candidato nesta eleição. Também testemunhei a maneira como muitos poetas
tomaram partido, não posição, e defenderam claramente um ou outro candidato, mesmo entre aqueles que são tão
adamant sobre a separação entre estética e ética.
A alguns isso parecerá uma contradição, vindo de alguém que insiste (
ad nauseam, dirão alguns) na conjunção de ética e estética, fazendo meu joguinho gráfico constante na palavra est-É-tica, mas só me manifestei publicamente com amigos, em debates virtuais, quando parecia haver um abuso da linguagem no que se debatia na imprensa brasileira, distorcendo-a, como na maneira que o PT vinha usando o substantivo "mudança", ou na estratégia absurda do PSDB, de ferir a natureza laica do nosso Estado ao usar como usou suas alianças políticas com a Igreja Católica. Era este o limite
imposto por minha crença inabalável na conjunção entre ética e estética. Ora, alguém poderá peguntar, por que "imposto"? Essa discussão toca no dilema que senti nestes últimos meses e ao qual já me referi aqui.
O que, eu passei a me perguntar, permitia a tantos poetas brasileiros, poetas que insistem na separação entre poesia e política, poetas que insistem na separação entre ética e estética, poetas que abraçam conceitos questionáveis como trans-historicidade e "poema pós-utópico", poetas que se assanham, atiçam e atacam a qualquer tentativa de leitura contextual de sua poesia, poetas que são inimigos da crítica sociológica, poetas que afirmam que a única obrigação do poeta é escrever poemas bons e bonitos, sem qualquer ligação obrigatória com seu tempo, o que, eu me perguntei, permitia a estes poetas tomarem partido tão claro, defenderem Dilma Rousseff ou José Serra com tanta paixão em seus
blogs, em seus perfis no Facebook, no Orkut, etc, etc, etc. Não há contradição nisso, eu creio: pois é justamente sua crença na separação completa entre ética e estética que lhes permitiu esta imisção nos jogos de poder. Porque eles acreditam na separação, digamos, entre sua pessoa física e sua pessoa poética. Assim, eu imagino, eles criticariam poetas que escrevem para defender partidos, como um Maiakóvski ou Brecht o fizeram em vários momentos, mas talvez por misturarem sua poesia e sua política, não necessariamente por assumirem posições num possível governo, mesmo que seja a posição de defendê-lo textualmente.
Não estou de maneira alguma criticando os poetas que defenderam Dilma Rousseff ou José Serra abertamente apenas por fazê-lo. Há muitos amigos meus, extremamente próximos, que o fizeram. O que me chamou a atenção é quantos deles discordam, às vezes com veemência, de minha tentativa de conjugar poetica e formalmente a discussão ético-estética. Pois alguns destes amigos (e os que estão longe de serem amigos) sempre defendem com paixão o que chamaria de absenteísmo público do poeta nestes últimos 25 anos, como uma defesa da suposta
independência política do poeta, sua
neutralidade. É aí que me pergunto se não haveria certa contradição. Ao mesmo tempo, algumas pessoas me escreveram perguntando por que um poeta como eu, tão insistente na discussão das implicações políticas do trabalho formal e crítico, mantinha-me assiduamente fora da militância pelo PT ou pelo PSDB em meio à
shit storm que foi esta eleição, como se houvesse aí uma contradição de minha parte. Pois reafirmo que foi minha crença na est-É-tica que me impôs a não-militância. No ensaio que estou escrevendo e que gostaria de haver terminado antes das eleições, trato das alianças sociopolíticas dos poetas, sua relação com o mecenato, seja privado ou governamental, e como estas alianças sociopolíticas podem influir em suas escolhas formais. Assim como as transformações formais da poesia dos últimos séculos estão ligadas às transformações do papel do poeta em sua comunidade, deflagradas por tantos cataclismos políticos, como a Revolução Francesa e a Revolução Russa, para mencionarmos dois de ligação clara com algumas transformações poéticas que se seguiram, dois momentos em que os poetas foram OBRIGADOS a mudarem suas alianças sociopolíticas, entre as classes ou grupos que estavam ou pareciam estar no poder. Nada
glamouroso para os que ainda parecem ver o poeta como um ser entre o santo e o mítico, nas palavras daquele grão-desmistificador das nossas imposturas, João Cabral de Melo Neto. É por isso que não militei nem pretendo militar por qualquer candidato ou governo, por essa crença na conjunção entre ética e estética, pois me parece mais importante, politicamente, manter uma verdadeira independência para criticar e denunciar as "imposturas de linguagem" ocorridas nos últimos meses. Isso é, eu admito e entendo quem assim o veja, realmente complicado, questionável e segue sendo um dilema pessoal meu, algo que me incita à meditação nestes dias e que compartilho aqui com vocês. Eu acredito hoje que o poeta deveria ser oposição sempre, não importando quem está no Governo, e trata-se aqui de um parâmetro pessoal para mim mesmo, sem querer impor essa visão a outros poetas.
Há muitas outras coisas que gostaria de discutir, como a tentativa de interferência perpetrada por Joseph Ratzinger no debate político de um estado laico e democrático, ou sobre o fato de termos uma mulher como futura presidente, mas deixo isso tudo para outro momento. Devemos nos alegrar, porém, pelo fato de que as estratégias políticas questionáveis das últimas semanas não se fizeram valer.
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