Conheci Heinz Peter em 2004, no lendário clube Black Girls Coalition, que infelizmente já não mais existe, ficando apenas na memória de uma Berlim caótica, criativa e livre no período pós-Muro imediato, que aos poucos vai também deixando de existir para se transformar cada vez mais na capital da Alemanha. Somos hoje muito amigos e discutimos muito sobre o nosso trabalho, confio demais em sua sabedoria. Já colaboramos de várias maneiras, mas as mais notáveis foram seu pequeno livro Corps (2009), publicado na França como separata da revista Double, para o qual escrevi um dos meus poemas favoritos, em inglês e português, o texto "Corpo". Discuti esse trabalho e o texto em um artigo do ano passado.
Nossa mais recente colaboração ::::: um díptico fotográfico seu que retrata o túmulo do cineasta Friedrich Wilhelm Murnau (1888 - 1931), com poema meu em inglês ::::::: será publicada no mês que vem pelo projeto eletrônico This Long Century.
Informações práticas: Heinz Peter Knes nasceu em 1969, em Gemünden am Main, sul da Alemanha. Após uma passagem por Colônia, o fotógrafo vive desde o início da década em Berlim, de onde já fotografou para revistas como Purple, Butt, i-D, Nylon, 032c, Dutch, Doingbird, e Camera Austria, entre outras. Heinz Peter já me retratou em vários momentos, e uma foto minha acaba aparecendo em sua mais recente publicação: a edição limitada de 1000 exemplares de um cartaz gigante :::: (140 x 200cm) :::: com sua série "Die Schwulennummer", algo como "O Número Viado". Aqui, na ironia típica de Heinz Peter, "número" é usado tanto no sentido matemático, também de "edição", e sub-repticiamente como em "cada uma das partes executadas (de dança, música, etc.) de um espetáculo de variedades", algo circense, aludindo a certa teatralidade que ele critica na cena homossexual. Em sua página pessoal, há um diálogo entre mim e Heinz Peter sobre a noção de gênero, identidade, queerness, e outros gudes, mas apenas em alemão. A série tem 32 fotos.
(Heinz Peter Knes, "Die Schwulennummer")
Apresentei já há dois anos alguns trabalhos de Heinz Peter Knes na Hilda Magazine.
Abaixo, detalhe da apresentação do cartaz no lançamento que organizei para meu querido Heinz Peter Knes em nosso evento semanal às quartas-feiras. Já tenho o meu exemplar, que também guardei com as outras originais assinadas deste que é meu grande amigo e um dos melhores fotógrafos alemães em atividade.
Conheci Brett em 2006, em Londres, quando visitei a cidade pela primeira vez, a convite do artista/curador mexicano Pablo León de la Barra, para apresentar-me como DJ no lançamento de sua revista Pablo Internacional Magazine. Foi nessa ocasião e a convite de Pablo que preparei a publicação de uma plaquete dos meus poemas em inglês, chamada When they spoke I / confused cortex / for context (2006), que lançamos junto com a revista dele em uma mini-edição numerada e assinada. A plaquete trazia já o texto das "Six songs of causality", e outros poemas que decidi não publicar no meu último livro a sair no Brasil, Sons: Arranjo: Garganta (SP: Cosac Naify, 2009). Já havia trocado mensagens com Brett e acabei hospedado na casa dele. Outros detalhes ficam para a biografia não-autorizada, dele ou minha (linha escrita com sorriso maroto nos lábios).
O que importa aqui é esta história: Brett Lloyd é um fotógrafo britânico, nascido em 1984 no norte da Inglaterra. Ser um nortista, naquele país, traz suas desvantagens, e sempre que converso com Brett a respeito me vem à mente a canção de Morrissey em que este canta: "We hate it when our friends become successful / And if they are Northern that makes it even worse", mas Brett é uma das carreiras mais ágeis da fotografia de moda europeia nesta década e eu estou muito feliz por isso. Na verdade, eu diria que a mais meteórica, e digo sem arrogância que previ tudo isso e o disse a ele assim que ele começou a me mostrar suas primeiras fotos. Passando a fotografar de forma assídua e ambiciosa apenas em 2007, e divulgando suas fotos primeiramente na internet, hoje, apenas três anos depois, Brett fotografa editoriais para revistas como Dazed and Confused, Vogue Hommes Japan, Candy, V Magazine, AnOtherMan, British GQ Style, e já colaborou com nomes incontornáveis do jornalismo de moda europeu, como Kim Jones, Nichola Formichetti, Alister Mackie, Shun Watanabe, Jonathan Saunders, entre outros. Antes disso tudo, eu já havia confiado em seu talento e publicado sua série "Peter Panning" com exclusividade na Hilda Magazine.
Há um mês, Brett lançou em Londres seu primeiro livro, uma coleção de 15 cartazes com fotos de moços que ele conheceu e fotografou em duas viagens mochiladas pela Europa. Um deles é meu amigo Jonas Lieder; outro, o (hoje requisitadíssimo) modelo alemão Jakob Wiechmann, foi fotografado na minha cama e na minha cozinha; o também alemão Tim Neugebauer já discotecou em minha festa às quartas-feiras. O livro traz ainda textos de Dean Mayo Davies e projeto gráfico de Edward Quarmby. Trata-se de uma edição limitada de 500 exemplares. Eu já tenho o meu, com sua dedicatória fofa, que vem unir-se a algumas fotografias originais assinadas por Brett, que guardo com cuidado na minha minúscula coleção de arte doada pelos amigos.
Self-published by emerging British photographer Brett Lloyd, "The Quieter Poster Boys" is a collection of 15 flat posters designed to go on bedroom walls. These are documents of the boys Lloyd met while couch-surfing across Europe in the summer of 2009, depicted as angelic youth emblematic of their generation. Most often shot in color topless in their apartment bedrooms or on couches. Complete with pamphlet containing an introductory text and anecdotes of the trip, the collection is sealed in plastic with a simple card stiffener. Lloyd is just 25 but after moving from Hull in Yorkshire to London only a year ago is fast becoming a significant voice in British fashion photography.
published by the artist 500 numbered copies 15 loose leafed posters 18.5 x 13.25 inches
Na postagem anterior, com poemas para O Moço, dediquei a ele em seu aniversário uma de minhas canções favoritas, chamada "It´s a wonderful life", do álbum de mesmo nome da banda americana Sparklehorse, liderada pelo poeta cantor Mark Linkous, que se suicidou este ano, em março. Uma grande perda, que dá à canção uma carga emocional ainda mais forte quando acompanhamos sua voz delicadíssima, com aquele texto tão bonito e conciso. Certamente tem a ver com o fato de ser poeta, mas a maioria de minhas canções favoritas apresenta sempre textos que poderiam se sustentar sozinhos, mas que obviamente se tornam poesia na voz do poeta cantor. Poesia mesmo, em sua conjunção entre texto, voz, música, performance. Calma: não vou voltar à minha ladainha sobre as diferenças entre poesia e literatura. Quero apenas lembrar mais uma vez que minha reivindicação de que a literatura é um dos ramos da poesia (não o contrário) não é mero capricho ou debate sobre a primazia do ovo ou da galinha. Para alguns, isso talvez seja como o famoso dizer daquele biscoito que não sabemos se "vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais". Talvez. Insisto nisso porque acredito que essas perspectivas trazem consequências muito distintas para a nossa crítica e também para a nossa poesia. É completamente legítimo estudar a poesia apenas em sua manifestação literária, como fazemos até mesmo com aqueles poetas que não pensavam em sua poesia apenas em termos literários, como Arnaut Daniel, Bertran de Born e todos os outros trovadores provençais. Mas a hierarquia que hoje seguimos me parece pouquíssimo saudável. De qualquer forma, vamos à canção, que vale mais.
Como já mostrei a canção, com aquele vídeo que me corta o coração, começo agora pelo seu texto, que me parece tão tão tão bonito:
It´s a wonderful life Mark Linkous, com a banda Sparklehorse
I am the only one Can ride that horse Th'yonder
I´m full of bees Who died at sea
It's a wonderful life
I wore A rooster's blood When it flew like doves
I'm a bog Of poisoned frogs
It's a wonderful life
I'm the dog that ate Your birthday cake
It's a wonderful life
Não é qualquer um que atinge tamanha intensidade com tão pouco. É poesia lírica no sentido mais completo do termo, indo de sua definição técnica, digamos, de poesia musicada, até outras mais recentes entre os românticos. A preponderância da assonância na vogal O, unida à voz delicadíssima de Linkous, dá à canção, seu texto e música, uma espécie de abertura diáfana e etérea, de quem parece querer evaporar na presença do ser amado, muito delicada, até mesmo com certa exasperação, aquela de quem está se entregando. O jogo entre consoantes fricativas e oclusivas cria um jogo interessante entre a voz e a expiração do poeta em performance, criando uma atmosfera de certo cansaço e ao mesmo tempo alívio, como o que eu ousaria chamar de uma resignação feliz. O amor talvez deva sempre pronunciar-se por modos de articulação obstruinte?
Os dísticos são particularmente bonitos: como resistir a um poeta que se define como "a bog / of poisoned frogs", ou "the dog that ate / your birthday cake"? Sem mencionar a metáfora algo aterrorizante e forte de "I am full of bees / Who died at sea".
Momento de ouvir novamente a canção, desta vez com outro vídeo:
(It´s a wonderful life", de Mark Linkous. Vídeo de Guy Maddin.)
Fiz um pequeno exercício de tradução, tentando reconstruir o texto, salvando ao menos suas rimas, mesmo que não tenha conseguido manter todos os jogos sonoros. É uma tradução completamente livre, tenham paciência comigo. Vamos chamar de paráfrase. É, talvez seja um bom título até: "Paráfrase para uma vida maravilhosa segundo Mark Linkous". Mudei também certa diagramação e métrica, e dísticos foram quebrados, formando tercetos e quartetos arrebentados, capengas como qualquer apaixonado.
Paráfrase para uma vida maravilhosa segundo Mark Linkous Ricardo Domeneck
Eu sou o único domado Para montar este cavalo Do outro lado
Estou cheio de abelhas Mortas sobre as telhas
Que maravilha De vida
A minha indumentária É o sangue de galinhas Quando voam como águias
Eu sou um charco De sapos Envenenados
Que maravilha De vida
Sou o cachorro Que devoraria O teu bolo De aniversário
Que maravilha De vida
Infelizmente, não tenho a elegância lacônica de Mark Linkous. Várias letras do americano demonstram seu conhecimento poético. Trata-se ainda de um homem respeitadíssimo, que colaborou com criaturas como Tom Waits, David Lynch e Daniel Johnston, para citar três heróis meus. Trabalhou também com o Radiohead, com o poeta cantor Vic Chesnutt (que também se mataria, em 2009) e com P.J. Harvey. Com sua banda Sparklehorse, lançou discos com os títulos tão bonitos de Vivadixiesubmarinetransmissionplot (1995), Good Morning Spider (1998), It's a Wonderful Life (2001), e Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain (2006).
O último projeto de Mark Linkous, antes do seu tristíssimo suicídio em março deste ano (há algo em pessoas que decidem se matar na rua, em público, que realmente me atinge em cheio e me assombra) foi uma colaboração com o produtor musical Danger Mouse e o diretor David Lynch, além de outros dez vocalistas, para criar o álbum projetual Dark Night of the Soul (2009), creio que uma referência clara ao poema místico de San Juan de la Cruz (1542 – 1591), o essencial "Noche oscura del alma".
O projeto foi conduzido por Linkous, Lynch e Burton, mas com a colaboração, em cada faixa, de seus cantores: James Mercer (The Shins), Wayne Coyne (The Flaming Lips), Gruff Rhys (Super Furry Animals), Jason Lytle (Grandaddy), Julian Casablancas (The Strokes), Frank Black (Pixies), Iggy Pop, Nina Persson (The Cardigans), Suzanne Vega, Vic Chesnutt e Scott Spillane (Neutral Milk Hotel). O álbum trazia um livro com 100 páginas da fotografia de David Lynch, em uma edição limitada, de 5000 exemplares.
Mostro aqui uma das canções do álbum, justamente aquela que se chama "Dark night of the soul", com ninguém menos que David Lynch nos vocais.
(David Lynch, na canção "Dark night of the soul", do álbum de mesmo nome que ele produziu com Mark Linkous e Brian Burton a.k.a. Danger Mouse, para o qual publicou ainda um livro com 100 páginas de fotografia.)
Hoje é aniversário d´O Moço. Ele completa hoje seus 26 anos de existência desarmada sobre a terra, três dos quais (ou exatos 1143 generosos dias) ele vem decidindo continuamente compartilhar comigo, eu, felizardíssimo após três décadas de espera e catástrofes, en l'an de mon trentiesme aage descobri aquele que aceitaria encolherar-se em concha comigo todas as noites, tornando meu aquecimento a carvão em plenos invernos belimbosos coisa supérflua. Hoje é aniversário d´O Moço. No ano passado, quando ele completou um quarto de século, escrevi para ele o poema "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos", que reproduzirei mais uma vez ao fim desta postagem. Antes, posto aqui, logo abaixo, um poemícula que escrevi hoje, pensando n`O Moço, assim como a tradução do mais simples e popular poema de amor na Lírica Amorosa Alemã do pós-guerra, poema chamado "Was es ist", do austríaco Erich Fried, terminando com a música "It´s a wonderful life", do finado poeta-cantor americano Mark Linkous (1962 - 2010), uma das canções mais lindas da década, deste líder da banda Sparklehorse e trovador suicida neste ano de tantas mortes, canção no entanto linda e que dedico hoje ao Moço, com um vídeo de cortar o coração, feito por um estranho (com quem adoraria tomar um café) que usou imagens de três dos meus filmes favoritos, e enfim encerrando esta celebração-postagem com outros poemas escritos para O Moço, neste 17 de outubro, aniversário dele e Dia Internacional da Felicidade de Ricardo Domeneck.
O que o poeta deseja ao namorado no dia de seu aniversário
Quisera eu que você fosse grande e gordo como uma baleia, ou melhor, um cachalote (o que evitaria que eu tivesse que abster-me dos seus dentes), cujo coração é do tamanho de um Fusca, assim quem sabe eu arriscasse viagens, não com você ou a seu lado, o que faz sempre com que a visão de sua crista ilíaca e nuca desvie, redirija ou distraia a atenção que eu deveria dedicar à arquitetura e à paisagem, mas pudesse, como um Jonas felizardo e voluntarioso, viajar em você, alojado, confortável em seu miocárdio, massageado pelo inflar metódico dos seus pulmões, entrincheirado (feito um presidiário que imaginasse o exterior como estado de calamidade e sítio) entre as grades simétricas de sua caixa torácica, e desta forma inaugurasse nossa colaboração, simbiose compulsante e vitalícia, nunca mais comensal de farelos e migalhas de machos-alfa ou godfathers, e doravante não mais sofresse a dependência dos movimentos voluntários alheios para exercitar no amante meus cinco sentidos, ou acabar, como sempre dantes, forçado, com minha própria mão febril sobre minha própria testa, a constatar e provar a mim mesmo a minha febre, pois relegaria a você, moço, a regulação e constância da nossa temperatura, mesmo que hoje me contente, corregente e duplo, com esta pressão arterial e taquicardia de beija-flor, cuitelo, com meus cerca de 1,260 batimentos cardíacos por minuto quando sobrevoo seu rosto, como se este fosse a cara amarelada de uma angiosperma polpuda e melosa, pois eu também, moço, tal qual esta espécie de pássaros rapidíssimos e glutões, estou sempre a meras horas de distância da amorosa inanição.
Ricardo Domeneck. Berlim, 17 de outubro de 2010.
§
Canção de Mark Linkous (1962 - 2010) e de sua banda Sparklehorse, que eu hoje dedico ao Moço como se a houvesse escrito, em que a letra a certa altura diz "I am the dog that ate / your birthday cake", canção com um vídeo feito por um estranho, usuário chamado no Youtube de "balladof", com cenas de três de meus filmes favoritos, Grey Gardens (Albert & David Maysles, 1975), Badlands (Terrence Malick, 1973) e Who's Afraid Of Virginia Wolf (Mike Nichols,1966):
"It´s a wonderful life", da banda Sparklehorse, canção do poeta-cantor Mark Linkous (1962 - 2010)
Tradução para o mais simples e popular poema de amor da língua alemã no pós-guerra, "Was es ist", de Erich Fried, tomando minhas usuais liberdades tradutórias para fazer com que o poema funcione em português brasileiro e sirva para alguma coisa além de encher revistas de literatice:
O que é
É louco
diz a razão
É o que é
diz o amor
É desastroso
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desesperado
diz a inteligência
É o que é
diz o amor
É ridículo
diz o orgulho
É inconsequente
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Was es ist
Erich Fried
Es ist Unsinn sagt die Vernunft Es ist was es ist sagt die Liebe
Es ist Unglück sagt die Berechnung Es ist nichts als Schmerz sagt die Angst Es ist aussichtslos sagt die Einsicht Es ist was es ist sagt die Liebe
Es ist lächerlich sagt der Stolz Es ist leichtsinnig sagt die Vorsicht Es ist unmöglich sagt die Erfahrung Es ist was es ist sagt die Liebe
§
Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos
.........................a Jannis Birsner
Houve guerras mais duradouras que você. Parabenizo-o pelo sucesso hoje de sobreviver a expectativa de vida de uma girafa ou morcego, vaca velha ou jiboia-constritora, coruja. Penguins, ao redor do mundo, e porcos, com você concebidos, morrem. Saturno, desde que se fechou seu óvulo, não circundou o Sol uma vez única. Stalker que me guia pelas mil veredas à Zona, engatinha ainda outro inverno, escondo minha cara no seu peito glabro. Fosse possível, assinaria um contrato com Lem ou com os irmãos Strugatsky, roteiristas de nossos dias, noites futuras; por trilha sonora, Diamanda Galás muge e bale, crocita e ronrona, forniquemos. Celebro a mente sob os seus cabelos, ereto, anexado ao seu corpo, o pênis. Algures, um porco, seu contemporâneo, chega ao cimo de seu existir rotundo, pergunto, exausto em suor, se amantes, de cílios afinal unidos, contam ovelhas antes do sono, eufóricas e prenhas.
Ricardo Domeneck. Modo de Usar & Co., número 2, 2009.
§
Texto em que o poeta sente-se impelido a dizer a Jannis Birsner em Zurique o que Frank O´Hara quis dizer a Vincent Warren em Nova Iorque
.............. "which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it" ........................................................... Frank O´Hara, Having a coke with you
Caminhar com você por Zurique num domingo de chuva e com fome é tão melhor que um dia qualquer de sol algures, com outros ou hipernutrido, talvez porque você pareça insistir neste aspecto empírico de quem está a aquecer o planeta, derretendo inconsequente todas as calotas polares como se fosse o pulôver de mil avós ou apenas porventura o plural do substantivo “sol”,
talvez ainda porque ali andemos até ao acaso dar de cara e ancas com a estátua de Marino Marini mencionada no poema de O´Hara, ou, esquecendo por completo DADA por estar mais atento à sua bunda, surpreender-me como se fora 1916 ao adentrar a Spiegelgasse e passar todo casual e causal pelo prédio que abrigou o Cabaret Voltaire, o que então visitamos espantadíssimos para descobri-lo mera loja de souvenirs, e nem o “Karawane” de Hugo Ball ou a caravana de axilas dos turistas ao redor
me distraem do seu nariz e nuca, pois é tão Júpiter você, moço, enquanto eu mero me regalo e contento em órbita irregular como uma sua lua, Temisto ou certa Carpo, e visito seu rosto com o zelo e o temor de carteiros obrigados a seguirem suas rondas de entrega das cartas mesmo após uma noite de bombardeios para talvez encontrarem não endereços, mas escombros,
e eu penso tudo isso mas nada digo pois você detesta declarações públicas, destarte escrevo este texto na língua de que nem sílaba você domina, esta língua que é meu sistema de signos e também com o que o lambo, língua em que “vontade” é-me ao mesmo tempo aquilo que impera e aquilo que implora.
(Poema iniciado na cabeça em Zurique,
terminado no papel em Berlim, agosto de 2010)
De Bruxelas eu esperava tudo, talvez a reprise do que ali já vivera, uma noite ao lado de Jey Crisfar, chuva e cansaço, conversas com taxistas e árabes, mas não este acordeonista loiro de 20 anos diante da Catedral, sim, a de Bruxelas, acordeonista loiro e imberbe, alto e imundo, a quem doei 2 euros num excitativo segundo de tacto entre sua mão e meus dedos fechados abrindo-se em bojo sobre sua palma, após fazer com a visão o rodízio contemplativo e luxurioso, alternando o foco dos olhos entre a catedral imberbe e loira e o acordeonista alto e imundo, a quem ensaiei, por 20 minutos que mais pareceram seus 20 anos, perguntar seu nome, quiçá filmá-lo com a câmera que deixara no Berlimbo, ou imaginá-lo fotografado em série por Adelaide Ivánova, Heinz Peter Knes ou qualquer fotógrafo íntimo que me cedesse os direitos autorais desta imagem loira, imunda, para que eu de alguma forma possuísse este acordeonista imberbe e alto em seus 20 anos, a quem então batizo em minhas glândulas e passarei a chamar de Loïc ou quem sabe Guillaume pelo resto dos meus dias após falhar em criar os colhões de pedir seu nome, e é assim, sr. Loïc ou Guillaume aos 20 anos imundo e acordeonista, que a você eu dedico diante da alta e imberbe Catedral de Bruxelas, estes 2 euros e uma ereção.
Fui ontem ao cinema com minha querida Odile Kennel, para a pré-estreia do filme Das Schreiben und das Schweigen (A escrita e o silêncio), de Carmen Tartarotti, feito ao longo de dois anos de entrevistas e filmagens com a poeta austríaca Friederike Mayröcker, nascida em Viena em 1924. Mayröcker é frequentemente descrita como a Grande Dama da Poesia Germânica Contemporânea, e é um dos meus poetas favoritos ainda vivos neste espaço linguístico.
O filme é bastante delicado ao adentrar a casa e a intimidade da poeta octogenária, e trata-a com grande respeito, sem tentar exotizá-la ou exagerar as idiossincrasias que ela inegavelmente tem. Vivendo em um velho apartamento vienense, reclamando do exagero de sol em Viena (!!!), é engraçado observar o caos de papéis por todos os lados.
Trailer (bastante minimalista) do filme Das Schreiben und das Schweigen, sobre Friederike Mayröcker.
O filme é também muito terno ao tratar de sua relação com o poeta Ernst Jandl (1925 - 2000), seu finado marido. Jandl e Mayröcker formaram um dos mais famosos casais de poetas dos países germânicos, mas sem as tragédias, por exemplo, de um casal como Ted Hughes e Sylvia Plath. Na verdade, Ernst Jandl e Friederike Mayröcker foram abençoados com aquele mistério cósmico do amor correspondido, e foram poetas que viveram felizes, mesmo que não para sempre, já que Jandl infelizmente faleceu já há uma década. O único sofrimento que ela descreve no filme foi o do ostracismo que eles sofreram como poetas no início de suas carreiras. Isso, no entanto, é realmente passado. Os dois são hoje nomes importantíssimos e reconhecidos. Ainda que Friederike Mayröcker ainda seja considerada por muitos uma poeta hermética e difícil, Ernst Jandl tornou-se, ao lado de Erich Fried, um dos poetas mais populares da língua, especialmente por sua pesquisa no campo da poesia sonora.
Vídeo em que Ernst Jandl vocaliza seu famoso poema sonoro "schtzngrmm".
Abaixo, deixo vocês com a postagem sobre Friederike Mayröcker que preparei para a Modo de Usar & Co.. É hora do Brasil também descobrir esta Grande Dama da Poesia Contemporânea, germânica e mundial.
Friederike Mayröcker nasceu em Viena, Áustria em 1924. Seus primeiros textos publicados surgiram na revista Plan, a partir de 1946. Manteve um diálogo com os poetas do Grupo de Viena mas não se filiou ao grupo. Conhece em 1954 o poeta Ernst Jandl, com quem viveria até a morte deste no ano 2000. Seu trabalho afasta-se muitas vezes da sintaxe normativa. Alguns de seus livros de poemas mais importantes são Tod durch Musen (1966) e Winterglück (1985). Está entre os poetas vivos mais respeitados da língua, e recebeu o prestigioso prêmio Georg Büchner em 1991. A editora Suhrkamp publicou seus Poemas Reunidos (Gesammelte Gedichte) em 2004. Friederike Mayröcker vive em Viena.
Às vezes por quaisquer movimentos acidentais roça minha mão sua mão o dorso de sua mão ou meu corpo enfiado em roupas encosta-se quase sem saber um piscar-de-olhos em seu corpo de roupa estes minúsculos movimentos quase vegetais seu olhar de ângulos e suas pupilas de propósito vagam no vazio sua pergunta logo de início interrompida aonde você viaja no verão o que você está lendo atravessam-me o peito em cheio e através da garganta como uma doce faca e eu resseco por completo como um poço num verão escaldante
Manchmal bei irgendwelchen zufälligen bewegungen streift meine Hand deine Hand deinen Handrücken oder mein Körper der in Kleidern steckt lehnt fast ohne es zu wissen einen Augenblick gegen deinen Körper in Kleidern diese kleinsten beinahe pflanzlichen Bewegungen dein abgewinkelter Blick und dein Auge absichtlich ins Leere wandernd deine im Ansatz noch unterbrochene Frage wohin fährst du im Sommer was liest du gerade gehen mir mitten durchs Herz und durch die Kehle hindurch wie ein süszes Messer und ich trockne aus wie ein Brunnen in einem heiszen Sommer
§§§
a uma papoula em meio à urbe
de meus crânios brota a pirotecnia das lágrimas, o lilás enferruja-se, o ligustro sopra, a camuflagem do verão sugere temporais - coroa-de-espinhos fecunda o campo, os estorninhos caem, mosquitos zunem em meio às sarças, a florada murcha duma nuvem coroada de cerejas esverdilhas - incluindo heráldicas águias-bicéfalas em relevo - retratos em cerâmica rubra - esfarela-se o muro do cemitério apoiado apenas na sempre-viva hera - ao vento vertical quilhágil páira meu peito falconiforme a pupilar presas
an eine Mohnblume mitten in der Stadt
aus meinen Köpfen sprieszt das Feuerwerk der Tränen, der Flieder rostet, der Liguster weht, die Camouflage des Sommers läszt Gewitter ahnen - Wolfsmilch besamt die Flur, die Stare fallen, Mücken flirren im Dorngebüsch, das abgewelkte Blühen einer Wolke von erbsengrüner Kirschenfrucht gekrönt - samt aufgeprägten kaiserlichen Doppeladlern - Portraits auf roten Ziegeln - bröckelt die Friedhofsmauer ab gestützt nur noch von immergrünen Efeuranken - im Aufwind flügelschlagend steht raubvögelgleich mein Herz nach Beute äugend
§§§
Preferível viajar no pensamento, Hokusai às costas, ou sob a lâmpada, caminhar ao pé do Fuji e lançar o olhar sobre o pico nevado, as sete-léguas molhadas, geladas, a gola enrugada. Como, eu pergunto, exploração duma distância com os próprios pés, como, eu pergunto, experiência duma distância com os próprios olhos. Como conciliar sede da distância com sedentariedade. Como, pés e olhos, tristeza e vontade.
Lieber in Gedanken reisen, Hokusai auf dem Rücken, oder unter der Lampe, laufen zu Füszen des Fuji und blicken hinauf zu verschneiter Spitze, die Schnürstiefel feucht und kalt, die Halskrause welk. Wie, frage ich, Erkundungen einer Ferne mit den eigenen Füszen, wie, frage ich, Erfahrungen einer Ferne mit den eigenen Augen. Wie Sehnsucht nach Ferne mit Seszhaftigkeit vereinen. Wie, Fusz und Auge, Träne und Lust. §§§
Lobo / como um lobo / ele diz
lobo como um lobo você ficou cara e focinho de lobo pen- sativo e inclinada a cabeça, cabeça da matilha, a imagem gerou sua metamorfose em lobo também dissolvido, não tanto loba, lobo! também irmão irmão qual lobo, lebréu, sentado com a cabeça inclinada sobre o peito, um lobo não sei pareado com corpulência felpuda-pensativa (longânima?) cabeça: peso peludo suspenso, lupina- mente você olha você senta-se um tanto corcunda lupina a nitidez!, e impiedoso a tremer ossos enlutado de sulcos, isto fez de mim também todo extinto,
Wolf / wie ein Wolf / sagt er Wolf wie ein Wolf du siehst darauf aus wie ein Wolf nach- denklich mit gesenktem Kopf, Kopf- tier, das Bild hat dich in einen Wolf verwandelt auch aufgelöst, nicht so sehr Wölfin, Wolf! auch Bruder Bruder Wolfs- hund, mit dem Kopf auf die Brust gesenkt sitzend, ein Wolf ich weisz nicht gepaart mit struppig-nachdenklicher Korpulenz (nachsichtig?) Kopf : behaartes Gewicht nach unten, wolfs- mäszig du siehst du sitzt ein wenig zusammengesunken wölfisch die Schärfe!, und gnadenlos knochenschüttelnd von Gullies umflort, das hat mich auch ganz verstorben,
Poemas de Friederike Mayröcker, traduções de Ricardo Domeneck.
A convidada especial desta quarta-feira na SHADE inc, para aquilo que chamamos de midnight session (que é a parte mais Cabaret Voltaire do nosso evento, evento que logo descamba para uma festa bêbada), é a performer/cantora islandesa Berglind Ágústsdóttir.
("husid a antmannstignum", da islandesa Berglind Ágústsdóttir)
Tenho mantido contacto à distância com ela há alguns meses, e há tempos queríamos fazer algo juntos. Ela já colaborou com bons amigos meus na Islândia, o duo Hellvar (a cantora Heida Eiríksdóttir e o músico Elvar Saevarsson), que já musicou e vocalizou um texto meu.
(Berglind Ágústsdóttir em colaboração com o duo Hellvar, ao vivo em Berlim)
Bom, vou fazer o quê? Eu tenho uma queda por islandeses...
Completando a noite, DJ sets do italiano Massimiliano Pagliara, do canadense Dickey Doo e dos meninos berlinenses do A-Team (Jacob Bauernfeind e Carl Luis Lange).
Estive na semana passada em Liège (parece que em português a cidade se chama Lieja), na Bélgica, entre os dias 7 e 9 de outubro, participando da XXVI Biennale Internationale de Poèsie, sediada pela Université de Liège, na região conhecida como Valônia. Foi um daqueles convites que me surpreendem de quando em quando, especialmente vindo de um evento tão oficial. De qualquer forma, o adjetivo "internacional" mereceria uma qualificação: tratava-se de um encontro, digamos, internacionalmente francófono. Havia poetas de várias partes do mundo, mas pelo que notei, com a exceção de uma inglesa, uma japonesa e um iraquiano, em sua maioria eram poetas que escreviam em francês, vindo da França, Bélgica, Haiti, Argélia, Marrocos, ou mesmo de países como o Líbano e a Romênia. Senti-me um tanto isolado com meu português/inglês/alemão. Além disso, a idade média dos poetas convidados parecia beirar os... 60 anos, com as exceções da franco-romena Linda Maria Baros, nascida em 1981 (às vezes eu me pergunto qual a porcentagem de romenos que realmente escrevem em romeno); meu querido Antoine Wauters, poeta belga que pude conhecer pessoalmente após uma longa correspondência, também nascido em 1981; e Samira Negrouche, poeta franco-argelina nascida em 1980 e que eu já havia conhecido no Festival de Medana, na Eslovênia, em 2008. Foi, de qualquer forma, uma experiência muito legal. Confesso não ser um visitante tão assíduo da poesia em língua francesa, não da maneira como habito as poesias em língua portuguesa, inglesa e alemã, e foi também interessante conviver com alguns poetas mais velhos, pertencendo a tradições por vezes distantes. Havia certamente uma porcentagem de "poetas institucionais", aqueles velhos acadêmicos que vivem de academia em academia, mas havia também vários poetas muito interessantes, que foi um prazer descobrir.
O grão-senhor do evento parecia ser o libanês Salah Stétié. Nascido em Beirute em 1929, durante o mandato francês do país, ele é, segundo minha querida Samira Negrouche, um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos. Stétié escreve, porém, em francês, não em árabe, como foi também o caso, por exemplo, do grande poeta argelino Mohammed Dib (1920–2003). Foi interessante observar a reverência com que ele foi tratado durante o evento. Um cavalheiro, pude conversar um pouco com ele (fomos apresentados por Samira), e dividir uma mesa de debates na sexta-feira pela manhã.
Apresentando minha intervenção ao debate "O poeta é/e sua língua", com Salah Stétié à mesa, ao fundo da foto.
Reproduzo abaixo um pequeno poema lírico do libanês:
Les Conversants Salah Stétié
Nous avons donc parlé sous la tonnelle De la diversité concertante des anges Des fourmis affairées dans le jardin Où l’eau brillait parmi ses catégories Jusqu’au lointain des cruches
La poésie dormait dans ses racines d’arbre Depuis l’antiquité comme une jeune fille Agrippée au désastre de la parole Pour ce naufrage où la terre est consolatrice
La terre était l’enfant de nos viscères Où déjà des fleurs de formaient préparant Notre silence vide le plus intime Sous le ciel dur invisiblement défait Par la mêlée des grues et des nuages
Outros dois encontros que renderam conversas muito enriquecedoras, e que me deixaram feliz:
§ - com o poeta iraquiano Salah Niazi (n. 1935), o tradutor para o árabe de trabalhos como Macbeth e Hamlet, além do Ulysses (1922), de James Joyce, num volume publicado em Damasco, na Síria, há dois anos. Conversamos longamente sobre traduzir Joyce para o árabe, sobre democracia no Iraque, sobre poesia brasileira.
§ - e com o "trovère valão", como ele foi apresentado pelo diretor do festival: o poeta belga Julos Beaucarne (n. 1936). Um de seus assuntos mais queridos parece ser seu amor pela língua valona, ou o valão.
Após a conversa e debate de que participei, uma senhora veio conversar comigo, dizendo que era teatróloga, que havia gostado de minhas intervenções, e que algumas das coisas que eu disse, ilustradas por meu jogo de palavras com o vocábulo francês langue e o vocábulo inglês lung, a tinham feito pensar em Valère Novarina (n. 1947), o que tomei como grande elogio. A quem interessar, reproduzo abaixo minha consideração inicial no debate:
The poet is/and his language Ricardo Domeneck
What most calls my attention in the proposed title of this roundtable is not so much its nouns, the poet or the language, but that possessive pronoun linking them, its concepts of possession and belonging.
The idea of possessing a language tantalized the Brazilian intellectuals and writers since our first Romantic poets in the XIX century, and creating a Brazilian poetic language was one of the most obsessive objectives of the Brazilian modernists in the 1920s. Linguistic nationalism among Romantic or Modernist poets is of course not a Brazilian privilege or disease, depending on the perspective. North American poets like Walt Whitman and William Carlos Williams were also greatly preoccupied with the creation of an American prosody for their poetic language. Other pairs in the Romantic & Modernist movements could be found in other countries, Pushkin and some of the Russian futurists, or among German poets of the Sturm und Drang and Expressionism. The Portuguese modernist poet Fernando Pessoa once wrote that the Portuguese language was his nation. I find it compelling that he did not write that “the poetic language” was his nation, but chose to inhabit a collective language, one officially spoken throughout his country. The idea of a national language doesn´t interest me, but the implications of his statement, which could also then be read as a refusal to make a clear difference between the poet´s language and that of his readers.
I would like to address these two possible readings of our title today, “the poet is / and his language”:
§ - the idea of a national language to which a poet would belong;
§- and a poetic language, inherently different from the common language, a language that the poet alone would therefore possess.
Rosmarie Waldrop, a poet who emigrated from Germany to the United States when she was 20 years old, and started writing in American English in the 1970s, once stated that she spoke both German and English with a “foreigner´s accent”, and that this fact liberated her from the illusion of ever being a “master of one language”. As a Brazilian poet living in Germany, writing in the language of my mother, which we could call Brazilian Portuguese, but also writing in what I call “the language of the Empire”, American English, this statement has always touched me in its frankness and humility, the desire not to “master a language”, not to possess, but maybe simply to belong to it. Later, reading Wittgenstein, who would become central in my language thinking, I was thrilled to discover his notion of “language games”, with the possible implications of no separation or essential difference between the language of the poem and the language I am using right now to exchange thoughts with you. What we would have is then the different games and uses for this organism or system of tools that we call "language". The verb “to use” is very important to this notion. In Brazil, I edit a magazine with three other poets, Angélica Freitas, Fabiano Calixto and Marília Garcia, a magazine we call Modo de Usar & Co., something like “How To Use & Co.”, trying to investigate the poetic language through the idea of textuality, a text conscious of its artifices, thinking of the poet´s language as a site of intervention, the place where public and private meet, where he or she tries to achieve an ethical relationship between the individual and the collective, between own and other. The poetic language as a bridge between dualities and extremes, remembering how often these dualities have caused wars and massacres, especially when it deals with ideas and (mainly) ideals of national/local and alien/foreign. In this realm, the only thing the poet possesses is not a langue or language, but his lungs, inhaling and exhaling air for the production of concrete sounds (and its signs and letters) with the mission of uniting, not dividing. The language uses / with her poets.
Em 2008, quando a língua portuguesa foi o foco do Festival de Poesia de Berlim, com poetas do Brasil, Portugal e países lusófonos da África, alguns de nós fomos convidados a gravar poemas para o portal Lyrikline, que se dedica a registrar leituras de poemas nas próprias vozes de seus autores, armazenando ainda traduções para os textos em várias línguas. Pediram que selecionássemos poemas que tinham pelo menos tradução para o alemão, por isso concentrei-me em poemas do livro Carta aos anfíbios (2005) e do livro a cadela sem Logos (2007), mas incluí alguns inéditos que tinham sido traduzidos especialmente para o festival. Entre eles, havia dois poemas que naquela época eram importantes para mim, pois eu sentia neles uma espécie de momento de transição no meu trabalho. As obsessões estavam todas ali, mas surgindo de outra forma. Um deles alguns de vocês talvez conheçam, chama-se "Mula", foi publicado no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., e já foi também lindamente musicado/vocalizado pelo duo Tetine:
"Mula" (2007) Texto de Ricardo Domeneck. Voz e composição do Tetine. Vídeo de Eugen Braeunig.
O outro poema chama-se "Texto em que o poeta medita sobre a fuga inexequível da História como turista em Budapeste, Hungria", e é quase exagerado na forma como tentei concentrar nele toda a minha obsessão com a historicidade poética. Iniciei-o mesmo em Budapeste, quando lá estive em 2007, apresentando-me como DJ. Fiquei alguns dias na cidade, lendo seus poetas (como Miklos Radnóti), perambulando, escrevendo. Tem muitas das características dos poemas do livro Sons: Arranjo: Garganta (2009), a composição e encadeamento altamente paratáticos, o sequestro de elementos da tal de Cultura, seja pop ou não, mas da mesma maneira que um poeta romântico do século XIX teria usado a tal de Natureza. Não é apenas um poema sobre a historicidade poética. É um poema à historicidade poética, ante a historicidade, até a historicidade, após a historicidade, com a historicidade, mesmo contra a historicidade, mas também da historicidade, desde a historicidade, na historicidade, entre a historicidade poética e algo outro, para a historicidade, perante a historicidade, pela historicidade, sob a historicidade, sobre a historicidade, atrás/de trás/por trás da historicidade poética. Só uma preposição fica de fora: sem. É tudo que depende da historicidade (saravá Walter Benjamin!), mas nunca sem ela. Não é composto por metáforas... é composto por figuras, na minha leitura pessoal do conceito da teologia cristã. Como já tentei elaborar em vários artigos e aqui o repito: conceito de figura, em minha pesquisa por uma poesia que se faz consciente de sua historicidade, FIGURA, não metáfora, talvez funcionando como metonímia, sinédoque talvez?, FIGURA, em que um acontecimento histórico liga-se a outro acontecimento histórico, prefigurando-o, dois fatos distintos e temporalmente segregados prevendo um último acontecimento que revelaria seus significados. Dito tudo isso, abaixo você tem meu poema irritante para os que já estavam irritados; porque talvez não entendam ou reconheçam minhas figuras; talvez porque acham que estou apenas name dropping para ser pop. Sei que é irritante para qualquer leitor ter que ficar googlando nomes ou fatos para "entender" algo. Compreendo, aceito. Evito quanto posso. Mas não há certas coisas que a poesia nos ajuda a descobrir? Nos ajuda a passar a saber? Este poema, por exemplo, utiliza uma figura bastante específica ao final: a da morte do poeta húngaro Miklos Radnóti. Utiliza vários elementos biográficos e poéticos, por exemplo com o fim (a morte) de Radnóti, que foi fuzilado por nazistas em 1944, mais tarde reconhecido, ao ser exumado, por encontrarem no bolso de sua camisa seus últimos poemas, ligando-o figurativamente ao fim do poema "A step away from them", de Frank O´Hara; conectando, em arco histórico, Joaquim de Sousândrade e Federico García Lorca como poetas nova-iorquinos; não são metáforas, são figuras. Ao mesmo tempo, questiono nossa composição narrativa para a História, ao unir o Twin Peaks (1990), de David Lynch, ao imperador Xerxes I da Pérsia, Heródoto e as graphic novels. O poema talvez seja difícil, chato, peço perdão por isso, mas não peço desculpas. Beijo em vossas almas por vossa paciência com minhas ladainhas. Eis o poema:
Texto em que o poeta medita sobre a fuga inexequível da História como turista em Budapeste, Hungria
Oblivion não me assusta, Claudette Colbert. Evito praticar o nado-sincronizado no formol das evidências fotográficas de moi-même & myself. Se possuísse na geografia residência fixa em Twin Peaks, sei que talvez os tupiniquins elegessem os tons e timbres de minha sinfonia de ossículos para martelo, bigorna e estribo: echolalaica do silenciável se a alfândega rege as adegas da anomalia. Meus autobiógrafos impossibilitados de narrar meu martírio em Montmartre, como não houve sobreviventes com meu nome em Guernica ou Treblinka. Em meio à hipoteca dos meus despejos não invoco Hiroshima mon glamour. Escuta aqui, Titanic: tão Aristóteles quanto Heródoto ou aritmético o erótico, todo mundo sabe que o manual de dança conspira pelo decreto dos pés como obsoletos. Não venha mimetizar-me o miasma. Qualquer Xerxes a chicotear o mar sabe que o olvido de Myrna Loy não é o ouvido de Mina Loy e Góngora não serve gôndolas a canais de televisão, jornais vespertinos em dia crônico do hodierno se é hipótese a manhã. Tal qual este planeta que aceita satélites ou ser terceiro em relação a um sol localizável mesmo em seu espiralar de eixo, que não pausa a cada 0:00 ou advoga o stand by do meu sono. Buda não é Manhattan, feito aquele Guesa em vertigem no Stock Market ou Lorca histérico no Harlem. Narrar o passado é tal ginástica odisséica, & ! que ginga, que físico deste acrobata do empírico. Eu aceito, sim, da totalidade o resquício, poderia escrever sobre Nova Iorque, Manaus ou Poughkeepsie mas nunca o pús nos pés lá, isto aqui é Budapeste, não as Ilhas Mauritius. Hoje, ou em 1956, jamais corresponder-se-ia como os Poems by Pierre Reverdy no bolso de O´Hara, então aceito a ladainha da lingueta sem chave à resistência da História e a cartografia inelegível, o mundo. Sim, Budapest não é New York & meu miocárdio está no bolso: pocket book de Miklos Radnóti.
Convites e cartazes mensais de nosso evento às quartas-feiras, SHADE inc, iniciado em abril de 2010, para substituir a antiga Berlin Hilton. O conceito para os cartazes e convites segue a apropriação, reencenação e paródia de imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo. Concebidos e produzidos pelo coletivo SHADE (em ordem alfabética: Daniel Reuter, Niklas Goldbach, Oliver A. Krüger, Ricardo Domeneck e Viktor Neumann), e então fotografados em geral por N. Goldbach ou D. Reuter, com a exceção da foto de outubro, feita por André Simonow a partir de nosso conceito. Não escapará, mesmo aos olhos menos sagazes, certa política queer à maneira como algumas das fotos foram reencenadas e parodiadas. Mas elas não têm discursos prontos esgueirando-se por trás delas... são, no fim, um sorriso cúmplice com algumas pessoas, as que têm senso de humor.
Clique nas imagens para aumentá-las.
Outubro de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por André Simonow.
Para quem não reconhece a foto, veja a original, sobre a performance-protesto conhecida como "Bed-In", de Lennon e Ono, aqui. Na foto: Lukas Juretko e Akim.
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Setembro de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.
Para quem não reconhece a foto, veja a original, autorretrato de Herbert Bayer quando ainda estudante da Bauhaus em 1932, aqui. Na foto: Jannis Birsner.
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Agosto de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Daniel Reuter.
Para quem não reconhece a foto, veja a original de Francesco Scavullo, retratando o ícone warholiano Joe Dallesandro, aqui. Na foto: André Scheffler a.k.a. Andre Lange.
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Julho de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Daniel Reuter.
Para quem não reconhece a foto, veja a original de Alfred Eisenstaedt aqui. Na foto: Niklas Goldbach e Viktor Neumann.
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Junho de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.
Para quem não reconhece a foto, veja a original de Diane Arbus aqui. Na foto: Ricardo Domeneck.
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Maio de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.
Para quem não reconhece a foto, veja a original de Man Ray aqui. Na foto: Lorcan Leather-barrow.
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Abril de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.
Para quem não reconhece a foto, veja a original, imagem famosa da vitória americana em Iwo Jima feita por Joe Rosenthal, aqui. Na foto: Philipp Sapp, Ricardo Domeneck, Viktor Neumann e Oliver A. Krüger.