sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Texto em que o poeta surpreende-se com a morte de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque da qual não discerne a fronteira entre parte e todo



Texto em que o poeta surpreende-se com a morte
de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque
da qual não discerne a fronteira entre parte e todo



Maria Schneider,
deve ser dura
a morte
em meio a ciclones
na Austrália, revoluções
na Tunísia e no Egito,
assassinatos políticos
na América,
fraudes e bancarrotas,
quando tudo
o que de si ofertou-se
décadas atrás ao mundo
limita-se a uma graça,
sim, mesmo que rara,
de fazer do errado o certo.
Mas, ao final das contas,
quando foi que o mundo
fez um minuto de silêncio
para que alguém contasse
seus saldos e débitos?
Brás Cubas emitiu seu extrato
post-mortem.
Maria Schneider, temo
que seus bicos e beiços
talvez horripilassem,
se estivesse vivo,
o velho Stanislavski.
O que dizer de sua juba
estropiada em caracóis,
menos digna da Vogue
que de uma Górgona?
Em Paris, só as gárgulas
lembram-se da sua cara
e imagino que o Google
acabe inundado
hoje
por buscas
tais como “Who the fuck was
Maria Schneider?
”,
enquanto velhotes e rapazes
chegam a páginas
onde seus mamilos
ainda estão firmes
nos seus peitos
e logo abaixo
seu coração acelerado.
O seu cu de manteiga,
esta noite, será objeto
da fantasia de novos
machos-alfa,
enquanto sua morte,
ao mesmo tempo,
precipita no Ocidente
um maremoto de crises
de meia-idade
nos gigolôs trotskistas
da tal geração de 68.
E eu, Maria Schneider,
alimento uma tristeza
bem autofocada,
como se eu fosse,
repentino, a polaróide
dum oboé
ou filme disponível
apenas em vídeo
cassete, qualquer coisa
obsoletíssima,
ficção científica
que não previu
futuro nem horóscopo,
não pariu
novo contexto
ou soteriologia.
Eu me quedo
aqui, à procura
de uma rima
ou um ícone
que isomorfise
o tempus fugit
e a tal fama de 15
minutos, que diga:
“Porra, Maria
Schneider, nem o Fuji
é eterno, nem Hokusai,
César ou Virgílio.”
O que dizer de Warhol
e, agora, de seus caracóis
que pareciam ter dezenove
anos para sempre?
Nada, no fundo,
importa muito,
Maria Schneider.
Em duzentos anos,
quando o acúmulo
de notas-de-rodapé
para esse meu texto
exceder o número
de caracteres
do próprio
para que possa
ser compreendido,
eu também serei
punhado e opróbrio
de pó e ossos
como você.
Perdoe-me
este egoísmo
típico
dos homens
insistindo
em lembrar-se
da própria mortalidade
perante a morte alheia.
Mas digo com um carinho
que talvez seja mera
autoesperança
pelo próprio destino
que a quem ama
aquela graça
de errar no certo,
acertar no errado,
você, Maria Schneider,
será por mais décadas
o chinchafóis de Hollywood,
quiçá rainha duma Bizâncio
nossa, de plástico,
mas onde caracóis
estabeleçam os parâmetros
para o liso.
Com sorte,
2012,
com seu apocalipse
prometido,
fará dos cetáceos
os próximos
leitores de Shakespeare
pois nós, Silvas e Smiths,
Domenecks e Schneiders,
seremos tão-só História
em quebra-cabeças
para os futuros visitantes
alienígenas deste planeta.


Ricardo Domeneck. Berlim, 3 e 4 de fevereiro de 2011.


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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

1. Artigo de Érico Nogueira na Terra Magazine sobre meu trabalho | 2. Max Hattler na Hilda Magazine | 3. A morte de Maria Schneider

1. Artigo de Érico Nogueira na Terra Magazine sobre meu trabalho.


O poeta paulista Érico Nogueira, autor de O Livro de Scardanelli (2008) e Dois (2010), iniciou hoje uma série de "Perfis" de poetas contemporâneos em sua coluna de poesia na revista do provedor Terra, dirigida por Bob Fernandes. Trata-se de um artigo generoso, e deixo com os leitores a conclusão se ele está ou não certo sobre as asserções que ali faz. De qualquer forma, não posto o link para o artigo aqui apenas porque ele inicia a série com a minha poesia, mas porque me parece também muito interessante que um poeta como ele, versado nos clássicos e que, até há pouco, usava o espaço da coluna para discutir autores como Horácio e Leopardi, volte-se agora também para a poesia contemporânea. É muito bom para o debate, para as trocas, para os diálogos. No ano passado ele escreveu sobre alguns poetas em seu blogue e imagino que ele retornará aos nomes que já discutiu, mas espero também que ele nos surpreenda com novos nomes.

No artigo, Érico reproduz meu poema "Enfim aurora-me na cachola", uma de minhas odes mezzo pornográficas, mas também minha grande pledge of allegiance à poética de Caio Valério Catulo, um dos quatro pilares clássicos para o meu pensamento crítico e poético. Os outros três são os gregos Safo de Lesbos e Calímaco de Cirene, e o latino Marco Valério Marcial, poetas que figuram lá no topo do meu paideuma pessoal.


Perfis: Ricardo Domeneck, por Érico Nogueira


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2. Max Hattler na Hilda Magazine.


Já mencionei o trabalho do artista visual Max Hattler aqui. Esta semana, alguns de seus vídeos estão no topo da página principal da Hilda Magazine. Aos que não o conhecem, recomendo muito o trabalho deste alemão radicado em Londres, que consegue conjugar o abstrato e o figurativo em animações de alta carga política.


Max Hattler na Hilda Magazine

§

3. A morte de Maria Schneider


A atriz francesa Maria Schneider morreu hoje em Paris. Como homenagem à moça de cara redonda e juba encaracolada, fui à locadora do bairro e aluguei dois de meus filmes prediletos protagonizados por ela: Last Tango in Paris (Bernardo Bertolucci, 1972) e The Passenger (Michelangelo Antonioni, 1975) --- (Nota mental: escrever algum dia um artigo sobre o monólogo da personagem de Marlon Brando no quarto em que jazia sua mulher morta - aquela cena é simplesmente magistral, assim como sobre a famosa cena da manteiga e suas blasfêmias contra a família católica).

O Último Tango em Paris é, em minha opinão, a melhor coisa que Bernardo Bertolucci fez em sua vida. O filme não envelheceu e continua potentíssimo quase 40 anos depois. Bertolucci tem, obviamente, outros filmes bons e competentes. Mas é difícil imaginar que se trata do mesmo diretor que fez The Dreamers (2003), que para mim vale mais ou apenas pela beleza verazmente onírica dos três atores principais, Michael Pitt, Louis Garrel e Eva Green. Enfim, não estamos falando de Bertolucci, mas daquela que emprestou sua beleza enlouquecida para Bertolucci no gigantesco e maravilhoso Último Tango em Paris e a Antonioni no também excelente The Passenger. Descanse em paz, moça.



Trailer para Last Tango In Paris (1972)


Trailer para The Passenger (1975)


Só uma pergunta me ocorreu: quantos homens heterossexuais adentraram ou tiveram uma recaída em sua crise de meia-idade hoje, no exato segundo em que ouviram sobre a morte de Maria Schneider.

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Apropriação e paródia: cartaz de FEVEREIRO para a SHADE inc, a partir de um original de Annie Leibovitz, mais as atrações principais do mês

Convite e cartaz de fevereiro 2011 para nosso evento às quartas-feiras, SHADE inc, iniciado em abril de 2010, para substituir a antiga Berlin Hilton. Como já escrevi aqui, o conceito para os cartazes e convites segue a apropriação, reencenação ou paródia de imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo. Concebidos e produzidos pelo coletivo SHADE (em ordem alfabética: Daniel Reuter, Niklas Goldbach, Oliver A. Krüger, Ricardo Domeneck e Viktor Neumann), e então fotografados em geral por N. Goldbach ou D. Reuter. Esta fotografia, reencenando, apropriando-se e parodiando a conhecida foto comercial de Annie Leibovitz, foi feita por Niklas Goldbach.

Clique na imagem para aumentá-la.




Fevereiro de 2011. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado e produzido por Niklas Goldbach.



Para quem não reconhece a foto, veja a original, um retrato de Mark Wahlberg, então ainda chamado de Marky Mark, feito por Annie Leibovitz para a campanha publicitária da Calvin Klein, aqui. Na foto: o ator alemão Daniel Zillmann.

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Nos divertimos muito concebendo e produzindo o flyer deste mês. A foto original talvez seja uma das fotos mais icônicas da publicidade nos anos 90. Marky Mark se tornaria ainda de forma surpreendente o ator Mark Wahlberg.


O programa de fevereiro de 2011 para a SHADE inc inclui:

§ - DJ set com Jeremy Shaw, o artista visual e sonoro por trás do codinome Circlesquare:



"Fight sounds pt 1", do músico eletrônico canadense Circlesquare. DJ set na "SHADE inc" no dia 16 de fevereiro de 2011.


§ - DJ set com Joyce Muniz, vocalista e DJ brasileira com residência em Viena.


Joyce Muniz - "Party over here, Party over there" (Exploited Records). DJ set na "SHADE inc" no dia 9 de fevereiro de 2011.


§ - DJ set com Uli Buder, mais conhecido como Akia.


Uli Buder, mais conhecido como Akia, apresentando-se ao vivo em Berlim. DJ set na "SHADE inc" no dia 23 de fevereiro de 2011.


§ - DJ set com Florian Pühs, produtor, vocalista e letrista alemão.

LEVEL020 by florianpuehs
"Level 20" - Florian Pühs. DJ set na "SHADE inc" no dia 23 de fevereiro de 2011.


§ - DJ set com Marlon Beatt, jovem DJ alemão, apresentando-se com o projeto Three Hours of Love (Los Angeles / Berlin).

"Detroit Beatdown" by Marlon Beatt by Marlon Beatt
"Detroit Breakdown", mix de Marlon Beatt. DJ set na "SHADE inc" no dia 2 de fevereiro de 2011, HOJE.


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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Feliz aniversário, senhor Ōe", ou "O Dia em que Ele Próprio Enxugará dos meus Olhos Toda Lágrima", ou ainda "Dos textos que dão febre".

O prosador japonês Kenzaburō Ōe completa hoje 76 anos. A notícia, que li casualmente, iniciou em mim uma cadeia de recordações e pensamentos sobre os textos que amo.

Quando Kenzaburō Ōe ganhou o Prêmio Nobel em 1994, eu estava morando nos Estados Unidos, terminando o colegial como estudante de intercâmbio na cidade de Shreveport, em Louisiana. Tive a sorte de ser matriculado por minha família anfitriã na melhor escola da cidade, o que não deixou de ser muito difícil no começo, pois as aulas eram realmente muito puxadas para quem não dominava a língua, e, saindo de casa e do país pela primeira vez com 16 anos, passava ainda por um tremendo choque cultural.

O nome da escola era Caddo Parish Magnet High School, e tinha uma programação especial baseada na educação artística e literária. Para dar um exemplo, que está ligado a esta postagem sobre Kenzaburō Ōe, eu tinha uma aula que se chamava simplesmente Novels. Sim, "Romances". Nesta aula, que era diária e de 55 minutos, tudo o que fazíamos era ler, discutir, destrinçar e analisar um único romance por mês: seu texto, seu autor, sua recepção crítica. A lista de romances mensais, enquanto estive ali, foi de Fiodor Dostoiévski (Crime e Castigo, 1866) a Henry David Thoreau (Walden; or, Life in the Woods, 1854), de Primo Levi (If Not Now, When?, 1982) a Henry Miller (Sexus, 1949), entre vários outros. Creio que estes quatro exemplos dão uma ideia de como a escola era progressista. A professora chamava-se Ms. Pam Peak, e pelo que vi no site da escola, dá as aulas de English, Creative Writing e Novels ainda hoje por lá.

Todo ano em outubro, quando era anunciado o Nobel, a classe então lia um trabalho do autor, fosse ele prosador, dramaturgo ou poeta. Assim, numa manhã em outubro de 1994, a senhora Peak chegou à sala de aula e escreveu na lousa:

Kenzaburō Ōe
Teach Us to Outgrow Our Madness

O original havia sido publicado no Japão em 1969 e a primeira tradução americana em 1977. A edição que usamos, cuja capa reproduzo ao lado, reunia quatro novelas de Ōe.

Teach Us to Outgrow Our Madness é um dos trabalhos que trazem certos elementos autobiográficos de Ōe, no qual a personagem principal lida com os fantasmas de sua decisão de interromper a gravidez da mulher quando descobrem que o bebê tinha a Síndrome de Down, e sua relação quase obsessiva com o filho quando este nasce. Há uma passagem na novela envolvendo um urso polar que é memorável.

O texto me impressionou tanto que decidi ler as outras três novelas incluídas no volume. Comecei por Aghwee The Sky Monster, de 1964, que à época me pareceu um dos textos mais aterrorizantes que lera nos meus 16 anos de vida. A novela conta a história de um homem que é contratado para fazer companhia à personagem que durante toda a novela é chamado apenas por sua inicial, D., um compositor de 28 anos que enlouquecera após causar a morte de seu filho recém-nascido e deficiente. D passa a ser visitado pelo fantasma do bebê, que ele chama de Aghwee por ser a única palavra que o bebê falara antes de morrer. O livro é assustador.

Depois li Prize Stock, um trabalho mais realista, que conta a história de um piloto negro norte-americano que acaba capturado e mantido preso em uma vila japonesa, por pessoas que jamais tiveram contacto com estrangeiros. Segundo o autor, é também um trabalho baseado em acontecimentos de sua infância.

Mas foi a novela que abre o volume e que deixei por último, a mais longa, estonteante e lindamente intitulada The Day He Himself Shall Wipe My Tears Away (1972), que me causou a febre, o aguar na linha do diafragma, a natação dos pulmões.

The Day He Himself Shall Wipe My Tears Away é uma das coisas mais inesquecíveis que li, e a segunda vez na minha vida de leitor, até aquele momento, em que experimentara A FEBRE. Espero que algumas pessoas lendo isso entendam o que quero dizer, sem que eu tenha que explicar muito. A febre. Aquela febre que certos textos dão, e que apenas textos muito específicos conseguem causar. Àquela altura, com 16 anos, minhas leituras ainda consistiam em grande parte de ficção científica e histórias de terror. A única vez que me lembrava de ter experimentado aquela sensação ao ler algo fora com Clarice Lispector, com o conto "O ovo e a galinha". Em poesia, até então apenas com alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes.

Não estou tentando estabelecer uma comparação entre Lispector e Ōe, dizer que são da mesma linhagem ou algo assim. Não sei o que os une. Sei apenas que há certos escritores que me dão esta febre, que vai além da mera "apreciação estética" ao nos depararmos com a grande técnica narrativa de um bom escritor. Há certos autores que fazem com que nossas cordas vocais vibrem mesmo enquanto os lemos em silêncio, como se numa frequência inaudível para os ouvidos humanos.

Você conhece a expressão "ficar aguado"? No interior de São Paulo, usa-se a expressão para aquela sensação infantil que temos quando ainda estamos aprendendo a lidar com o NÃO. Imagine uma criança a ouvir pela primeira vez o NÃO. Começando a descobrir que o mundo não é exatamente um fornecedor inesgotável de sonhos realizáveis.

"Não! Você não pode possuir esta coisa ou ser vivo do qual sua vida parece depender completamente neste exato instante dos seus 5 anos de vida sobre a Terra."

Eu me lembro ainda da primeira vez em que me foi dado, por adultos, o nome para aquela coisa horrível que estava sentindo no peito. Eu posso quase me ver encostado no portão da casa de minha avó, ouvindo-a dizer ao meu pai: "O menino ficou aguado"... sei que soa como ilusão da memória, mas às vezes eu acho que a primeira manifestação poética de que me lembro foi ali, aos 5 ou 6 anos, quando eu me maravilhei com aquela palavra, que parecia denominar tão bem aquela sensação horrível de frustração, decepção no peito, eu quase pareço me lembrar de pensar comigo mesmo: "Então é isso, eu fiquei aguado!, é isso o nome desta sensação horrível!". E fiquei muito tempo pensando no porquê do uso de um derivado de "água" para a sensação, mas, ao mesmo tempo, sabia que era perfeito. Era como estar chorando por dentro dos pulmões.

E é essa a sensação que me retorna ao ler certos escritores. Esta febre, misturada a este aguamento. Mas agora ela é subitamente um prazer! Como aquela alegria difícil de que fala Clarice Lispector em A Paixão Segundo GH? Talvez haja apenas muito masoquismo no tal prazer do texto. E vicia. Porque agora não tenho escolha, passo a vida buscando os escritores que me possam dar este prazer específico, este aguamento. Esta febre. Mas quanto mais passa o tempo mais difícil fica deslumbrar-se. São poucos os que dão a febre imensa... senti-a em "O ovo e a galinha", de Clarice Lispector, assim como, mais tarde, em várias passagens deslumbrantes de A Maçã no Escuro (1951); eu a senti neste The Day He Himself Shall Wipe My Tears Away comentado aqui, de Kenzaburō Ōe; naquelas páginas finais de Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, ou na passagem assustadora em que Riobaldo deixa o bando e embrenha-se no ermo, à procura do diabo; em quase todas as páginas de Qadós (1973) e A Obscena Senhora D (1982), de Hilda Hilst, especialmente com aquela porca; passagens de Absalom, Absalom! (1943), do Faulkner; em Temor e Tremor (1843), do Kierkegaard; em Do Sentimento Trágico da Vida (1933), de Miguel de Unamuno; na passagem em que Aliocha lamenta-se durante os eventos perturbadores do velório de seu mestre no monastério, em Os Irmãos Karamazov (1880); em Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977), do Barthes; etc, etc, e outro raro e precioso etc.

Eu estou sempre em busca destes textos. Acho que é por isso que a onda brasileira seca, objetiva e econômica dos poetas cabralistas e dos prosadores fonsequistas sempre me frustrou tanto - ainda que os próprios Cabral e Fonseca sejam muitíssimo capazes de tais textos, basta pensarmos, por exemplo, em Uma Faca Só Lâmina (1955), de Cabral. Eu preciso da febre, do texto que parece aumentar a temperatura do meu corpo entre o diafragma e as amígdalas, que faz a boca ficar --- nem frouxa nem rígida (o Brasil ataca o frouxo porém celebra o rígido) --- mas tesa.

Falei aqui apenas sobre os textos em prosa que mais me marcaram, compartilhando com vocês. Adoraria saber quais textos dão febre aos amigos. Quem quiser deixar uma lista nos comentários, como sugestões a este viciado por textualismo febril, me deixaria feliz.

Quero escrever sobre uns poemas na próxima vez.

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domingo, 30 de janeiro de 2011

Das canções favoritas: "A quarter to three", da banda Sleater-Kinney

Esta foi a primeira canção que ouvi da banda de riot grrrls de (ora, de onde mais?) Olympia, no estado norte-americano de Washington, espécie de Meca do movimento. Mais tarde, as moças fixaram quartel-general em Portland, no Oregon. Não me lembro mais ao certo onde escutei esta "A quarter to three" pela primeira vez, talvez como vinheta em algum programa da MTV. Sei que, certamente em 2001, um dos meus melhores amigos em São Paulo, o jornalista Felipe Gutierrez, me emprestou o quarto álbum da banda, chamado The Hot Rock (1999), quando comentei com ele sobre esta canção que andava me obcecando. O álbum, que é ótimo, termina justamente com a canção "A quarter to three".

Por aquela época, já estava organizando com Gutierrez uma festa de indie rock todas as quartas-feiras, no clube Matrix (ainda existe?), na Rua Aspicuelta (Vila Madalena). A festa se chamava Gum! (o nome completo da festa era, em típica arrogância indie, "Spooning Good Singing Gum", como na canção dos Cocteau Twins). Lá na festa, ao discotecar, sempre incluía esta "A quarter to three", que ainda é uma das minhas all-time-favorites:

:


"A quarter to three", da banda Sleater-Kinney, no álbum The Hot Rock (1999).


Não sei ao certo quem escreve os textos na banda. Se tivesse que chutar, diria que é a vocalista Corin Tucker. Mas como Carrie Brownstein tem hoje uma carreira consolidada também como jornalista e escritora, é possível que fosse ela a letrista, ou que Tucker e Brownstein trabalhassem em conjunto. De qualquer maneira, o texto de "A quarter to three" é muito legal.

A quarter to three

It's 1 a.m.
You haven't called
It must be four
Wherever you are
And the photobooth strip
And the letter you wrote
They feel like nothing
I could hold

Nothing bad, nothing free
There's nothing left
For me to feel
It's like going to bed
At a quarter to three
Finally tired, finally empty

Should I be up
To play the game?
Back and forth
Get back at me
And my confidence fell
And I feel so mad
Tell me
Whose side are you on?

Nothing bad, nothing free
There's nothing left
For me to feel
It's like going to pieces
Could fix everything
At this point I'm really me



A banda tem um único vídeo oficial, para uma canção do mesmo álbum em que saiu "A quarter to three", dirigido por ninguém menos que Miranda July. O nome da canção é "Get up".


Vídeo para a canção "Get up" da banda Sleater-Kinney, dirigido por Miranda July.

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A insônia mais produtiva dos últimos três meses: poema novo, "Cartografia do cobertor em uma cama de casal", que me deixou exausto e agora durmo.




Cartografia do cobertor em uma cama de casal

O cobertor não
parecia distribuído
de forma justa
entre nossos dois corpos
em concha,
e protestei contra sua falta
de percepção para as simetrias
necessárias em uma relação,
quando ele, sorrindo, voltou
o rosto em rota de colisão
com o meu e asseverou
que tampouco os pulmões
têm o mesmo tamanho,
mas que o esquerdo
seria menor
para dar espaço ao coração,
que ele, antilírico,
chamou de miocárdio,
e esta resposta,
que ele só pôde
articular graças
à cooperação
de tantos órgãos e músculos,
incluindo os seus próprios
pulmões,
o direito e seu lhano
e magnânimo
parceiro à esquerda,
não causaram em mim qualquer
ostranenie por seu non sequitur
mas sim uma curtíssima
pausa
respiratória, como se eu tivesse,
agora, que pensar duas vezes
antes de encher estes dois balões
assimétricos
que doravante exigirão de mim todas
as minhas convicções
democráticas, demográficas,
e imediatamente virei meu rosto,
em minha tática
habitual de evitar que ele mantenha
sobre meu crânio um ângulo
de olhar prolongado demais, por medo
que ele finalmente perceba
como são assimétricos, não
meus pulmões, mas os dois
pedaços do meu próprio rosto
que eu nem sequer ouso
chamar de metades
em suas proporções frankenstoicas,
com estas cicatrizes
deixadas pela acnóstica
tempestade de hormônios
de minhas glândulas pubertárias
sem qualquer noção de sobriedade,
fazendo de minha cara uma Lua,
lado visível, lado escuro
e suas crateras, Mare
Tranquillitatis
aqui, Oceanus
Procellarum
logo
ao lado, estas minhas narinas
e suas veias de drenagem
para o aparelho lacrimal,
que mais assemelham-se
àquelas tais Torres
enganosamente propagandeadas
como gêmeas, e que, vejam só,
também ruíram,
do pó vindo e ao pó voltando,
tal qual este queixo e nariz
desconjuntado,
ligado aos pulmões siameses
que ele ora informa-me
não serem idênticos,
um dia também hão
de ruir e decompor-se,
deixando, como herança
para este legista
das minhas ingenuidades,
um esqueleto
também pouco simétrico
em seus côncavos e convexos,
mas que doam a ele esta noite
todos os prazeres de suas bifurcações,
nesta cama, sob este cobertor
repartido
como se fosse um país
extático, feudal e multiétnico.



Ricardo Domeneck, madrugada insone de 28 de janeiro de 2011, aniversário do nascimento e morte de Marcel Broodthaers.

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Brian Kenny na Hilda Magazine e outras recomendações aos amigos, de filmes, poetas e preocupações

Algumas sugestões e recomendações aos amigos e leitores deste espaço.

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Postamos alguns trabalhos recentes do jovem artista americano
BRIAN KENNY (n. 1982) na Hilda Magazine, de sua série "Targets". Brian Kenny pertence a uma geração de artistas que cresceu e educou-se num mundo no qual a internet era já uma realidade, o que me parece claramente perceptível em seu trabalho e metodologia. Um dos jovens ícones da cena gay subterrânea nova-iorquina (em tempos de redes sociais, portanto global) o trabalho dele gera reações de vários tipos. As mensagens de descontentes já chegaram às caixas postais de nossa microscópica redação, assim como disparou o número de visitantes. Em minha leitura, seu trabalho expõe certas relações de poder, conectando de forma erótica símbolos de militarismo e policiamento a uma espécie de iconografia pornográfica. Sua abordagem crítica é ambígua, o que talvez incomode algumas pessoas.




Brian Kenny


Brian Kenny nasceu em 1982, em uma base militar americana na Alemanha. Quando criança, viajou e mudou-se com o pai, militar de carreira, e sua família por muitas bases na Europa e Estados Unidos, vivendo dentro deste ambiente de controle e poder que ele passaria a rever em seu trabalho. Vive e colabora há anos com seu namorado, o fotógrafo e poeta dissidente russo Slava Mogutin (n. 1974), formando o duo SUPERM. Já expôs em Nova Iorque, Berlim, Moscou e Tóquio.


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Recomendo a leitura do ensaio "A revolução acabou. Começa a idade da revolta", do italiano Marco Belpoliti, traduzido por Eduardo Sterzi e publicado no número 43 da revista eletrônica Sopro, que se autodenomina
panfleto político-cultural, ligado ao espaço Cultura e Barbárie. O artigo é muito bom, levantou ótimas perguntas para minha cabeçoila. Em outros números da revista é possível ler textos de Giorgio Agamben, María Zambrano e Georges Didi-Huberman.






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Quem quer que tenha acompanhado este espaço por meros dias já deverá saber de minha preocupação obsessiva com a função histórica do poeta, a relação de seu trabalho com a linguagem e os acontecimentos que a rodeiam. Pois é... quando penso que estou me acalmando e poderei ser feliz escrevendo poemas de amor e dor-de-cotovelo pelo resto dos meus dias (ainda que os mais atentos já tenham percebido como mesmo estes estão eivados de minhas obsessões), algo acontece, não sei dizer o quê, mas é como se o Anjo de Benjamin e o de Rilke resolvessem fazer piquenique e discutir seu namoro no topo da minha cabeça.

De qualquer forma, há os motivos externos, como ter assistido ultimamente a certos filmes latino-americanos, ou o de Semion Aranovich sobre Anna Akhmátova; leituras recentes de livros de Hannah Arendt, Vassily Grossman e Alexander Soljenítsin; estar lendo o livro
Servarios (Buenos Aires: Zama, 2005), coletânea de poemas do argentino Julián Axat (n. 1976), presente por correio do poeta carioca Pádua Fernandes (n. 1976, autor de Os Cinco Lugares da Fúria), que, por sua vez, tem discutido largamente em seu blogue a relação do Brasil com sua História recente e os crimes da ditadura. Julián Axat tem um trabalho editorial maravilhoso de recuperação do trabalho de poetas assassinados pela ditadura argentina.

Será mesmo que o Brasil NUNCA punirá os crimes da sua ditadura militar, enquanto a Argentina, por exemplo, já pôs Videla na cadeia pelo resto de seus dias?

Recomendo aos leitores deste espaço que passem pelo Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, que mantém aberta esta discussão, no País que esquece tudo depois da ressaca do Carnaval.


§



O novo makar da cidade de Glasgow é a poeta Liz Lochhead (n. 1946). Makar, palavra que segue a mesma ideia de
fabbro, o que faz, é o poeta, o bardo, usado antigamente para referir-se a autores escoceses como William Dunbar (1460 – 1520) e Gavin Douglas (1474 – 1522). Em 2002, a cidade de Edimburgo instituiu novamente o posto de makar, seguida por Glasgow. O último makar da cidade foi Edwin Morgan (1920 - 2010), que tem tido certa recepção no Brasil. Talvez tal tradição pareça estranha a um brasileiro, e somos lembrados do poema de Carlos Drummond de Andrade em que ele satiriza as aspirações de poetas municipais. De qualquer forma, Liz Lochhead é uma poeta com uma veia satírica maravilhosa, e tem poemas realmente muito bons. Gosto muito do poema em que ela escreve:


& just when our maiden had got
good & used to her isolation,
stopped daily expecting to be rescued,
had come almost to love her tower,
along comes This Prince
with absolutely
all the wrong answers.


São versos do livro
True Confessions and New Clichés (1985), do qual vou tentar traduzir alguns poemas para a Modo de Usar & Co.



§



Com um dos melhores atores de sua geração, Ryan Gosling (além de incrivelmente bonito e charmoso), e uma atriz competentíssima e talentosa como Michelle Williams, o filme
Blue Valentine (2010) foi um dos retratos mais delicados e ao mesmo tempo secos que já vi sobre a dissolução de um relacionamento. Recomendo muito. Gosling está (mais uma vez) impecável e Williams não faz nada feio.




Por hoje é só, pessoal.

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Programa da TV espanhola com reportagem sobre o festival ReVox, com imagens de minha performance

Fui entrevistado por dois programas televisivos espanhóis na noite em que me apresentei em Barcelona, no Instituto Arts Santa Mònica, ao lado de Jelle Meander e Albert Balasch, no Festival ReVox. O programa cultural diário "Miradas 2" da TVE postou há pouco tempo em seu site o programa de 16 de dezembro de 2010, no qual há trechos de minha entrevista, minha performance, assim como trechos da entrevista com Eduard Escoffet, organizador do festival, e com o poeta belga Jelle Meander.



Programa Miradas 2, da TVE, que foi ao ar a 16 de dezembro de 2010. Trechos de entrevistas com Eduard Escoffet, Jelle Meander e comigo, assim como excertos da performance de Meander e da minha.



ReVox es un programa regular para la poesía sonora europea actual. Se celebra desde mayo de 2009 en Barcelona y quiere presentar las voces más destacadas, personales y renovadoras de la joven poesía sonora, es decir, las propuestas poéticas que investigan las posibilidades de los lenguajes más contemporáneos. A partir de 2010, se presenta en Barcelona y Madrid.

El nombre del ciclo proviene del magnetófono utilizado por los pioneros de la poesía sonora a partir de los años cincuenta y sesenta del pasado siglo para editar la voz y desarrollar las bases de la poesía sonora. Y es que esta actividad quiere ser un homenaje a estos poetas avanzados que han abierto nuevas vías para la poesía, pero por encima de todo un escaparate para la poesía de hoy, vinculada a los nuevos medios y los nuevos formatos de escritura, recitación y comunicación. La poesía ya ha demostrado que había mucho terreno fuera del libro; ahora se trata de reivindicar la cotidianeidad de las escrituras que traspasan los reducidos formatos de la imprenta y sus relaciones con las artes contemporáneas. Así pues, en este contexto, ReVox quiere hacer patente cómo la tecnología ayuda a recuperar los orígenes orales y expansivos de la poesía.

La primera edición tuvo lugar el 23 de mayo de 2009, en el marco del festival Barcelona Poesía y con gran éxito de público. Reunió a los poetas Anne-James Chaton (Francia), Jörg Piringer (Austria) y Peru Saizprez (Madrid), que presentaron tres propuestas muy distintas en torno a la experimentación sonora, la poesía digital y la performance poética respectivamente.

La segunda edición, el 3 de diciembre de 2009, reunió tres poetas con un trabajo poético muy conectado con el presente de las artes y la tecnología: el trabajo de cuerpo y voz de Aymeric Hainaux (Francia), los sámplers de Dirk Hülstrunk (Alemania) y los viajes transmentales de la palabra de Martín Bakero (Chile, residente en París).

la tercera y la cuarta edición de ReVox, que tendrán lugar en Arts Santa Mònica y La Fontana (Barcelona) el 14 y el 15 de diciembre y en el Museo Reina Sofía (Madrid) el 16 y 17 de diciembre, respectivamente. ReVox es un programa regular para la poesía sonora europea actual que desde 2009 presenta anualmente dos ediciones con los autores que están definiendo las nuevas formas de crear poesía y experimentar con el sonido. Es la primera vez que el ciclo se presenta también en Madrid.

Para Revox III y IV, seis destacados poetas jóvenes de diferentes ciudades europeas presentarán sus propuestas poéticas, cada una de las cuales contará con dos sesiones. La programación está formada por un bloque central, que será común en Barcelona y Madrid, y un poeta local en cada ciudad, además de la actuación en Madrid de un poeta que ya estuvo presente en Barcelona en 2009.

El poeta francés Anne-James Chaton presentará junto al músico electrónico alemán Alva Noto y el guitarrista de The Ex Andy Moor el proyecto Décade, una confluencia entre voz, electrónica y experimentación que se presenta por primera vez en España y que es la propuesta más destacada de estas dos sesiones de ReVox. También actuarán en Barcelona y Madrid el poeta y DJ brasileño afincado en Berlín Ricardo Domeneck, que mezcla vídeo y poesía, y el poeta y musicólogo belga Jelle Meander, que trabaja en las fronteras de la música y la poesía.

En cuanto a los autores locales, actuarán en Barcelona el poeta Albert Balasch acompañado del guitarrista Hans Laguna y en Madrid el poeta de origen peruano Peru Saizprez, que combina distintos elementos de la performance en sus recitales. Finalmente, Jörg Piringer, un referente internacional de la poesía digital que ya se presentó en ReVox I (Barcelona, mayo 2009), actuará asimismo en la primera sesión de Madrid.

Los poetas que presenta ReVox tienen en común que manipulan la voz, sea con sampleos, efectos o improvisación, y que realizan un trabajo poético que tiene que ser visto y escuchado en directo, que no cabe únicamente en un libro o un CD.

ReVox es el único ciclo dedicado a estas nuevas expresiones de la poesía y la oralidad en general. Como en los inicios de la poesía sonora pero con nuevas herramientas y más eficaces, se quiere ayudar a construir una red dinámica de poetas de alcance europeo y situar Barcelona y Madrid en esta ruta de intercambio poético internacional.




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domingo, 23 de janeiro de 2011

O impressionante filme de Semion Aranovich sobre a poeta russa Anna Akhmátova

Descobri e assisti ontem à noite ao (realmente excelente) filme The Anna Akhmátova File (1989), do diretor e documentarista soviético Semion Aranovich (1934 - 1995).

Recentemente disponibilizado de forma integral na Rede, The Anna Akhmatova File (1989) segue a vida, obra e conturbadíssimo contexto histórico da poeta russo-ucraniana, autora de Anno Domini MCMXXI e Réquiem. O filme traz fotos e raras cenas da própria poeta, de seu primeiro marido, o também poeta Nikolai Gumiliov (fuzilado em 1921 sob acusação de ser um contra-revolucionário), seus grandes amigos e poetas Alexander Blok (1880 - 1921) e Ossip Mandelshtam (1891 - 1938), discute sua relação e admiração por Boris Pasternak (1890 - 1960), Marina Tsvetáieva e Alexander Soljenítsin (1918 – 2008)), com leituras de seus poemas e diários, justapostos de forma perturbadora a cenas de discursos (e até mesmo descontração) de Joseph Stálin (1878 - 1953) e Nikita Khrushchev (1894 - 1971).

The Anna Akhmatova File foi primeiramente proibido. Com 65 minutos de duração, é competentíssimo ao usar apenas trechos de poemas e diários da Akhmátova, unidos a cenas marcantes da vida russa durante sua existência marcada por tragédias históricas, para criar um retrato tocante e perturbador sobre o destino dos escritores russos durante a Era Soviética.

The Anna Akhmatova File (1989), filme ::: completo ::: de Semion Aranovich (1934 - 1995).

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de Réquiem (1935 - 1940)

Era no tempo em que só um morto,
contente por estar em paz, sorria.
Como peso morto, Leninegrado
dependurava-se das enxovias.
E quando legiões de condenados
já marchavam loucos e aflitos
e as locomotivas já soltavam
os apitos do breve canto do adeus,
sobre nós gelavam estrelas de morte
e a Rússia inocente se contorcia
sob as cardas de ensanguentadas botas,
sob as rodas negras dos carros sombrios.


Anna Akhmátova,
tradução de Arlindo Correia

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Anna Akhmátova nasceu a 23 de junho de 1889 em Odessa, então ainda Império Russo, hoje Ucrânia. Com seu primeiro marido, o poeta Nikolai Gumiliov (1886 – 1921), Serguei Gorodetski (1884 – 1967) e ainda Ossip Mandelshtam (1891 - 1938), formou o grupo de vanguarda dos Acmeístas, ligado à tradição do simbolismo russo, em especial à obra de Alexander Blok (1880 - 1921), apenas cerca de uma década mais velho que eles. Anna Akhmátova estreou em livro com Vecher ("Noite"), em 1912, seguido de Chetki ("Rosário") em 1914. O início da Grande Guerra (1914 - 1918), da Revolução Russa (1917) e dos terríveis anos de Guerra Civil (1918 - 1922) põem fim à chamada Era de Prata da Poesia Russa. Alexander Blok adoece e, necessitando de tratamento fora do país, morre a 7 de agosto de 1921 à espera da permissão do governo para viajar, concedida 10 dias depois de sua morte; Nikolai Gumiliov é fuzilado poucos dias depois como contra-revolucionário; Akhmátova e Mandelshtam, considerados poetas "aristocráticos e incompreensíveis para as massas", têm cada vez mais dificuldade de publicar, até que Mandelshtam é preso e condenado a trabalhos forçados no Gulag (mesmo destino de Liev Gumiliov, filho de Akhmátova com o poeta Nikolai Gumiliov), acontecimentos que encontrariam seu memorial em livros de Akhmátova como Anno Domini MCMXXI (1921) e Réquiem, escrito entre 1935 e 1940.

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Semyon Aranovich nasceu a 23 de julho de 1934, em Derazhnya, na União Soviética. Dirigiu, além deste O Arquivo Anna Akhmátova (1989), outros documentários como Sonata para Viola de Dmitri Shostakovitch (1981) e O Guarda-Costas de Stálin (1990). O diretor morreu em 1995, na Ucrânia.

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Anna Akhmátova (1889 - 1966)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"Entre o fogo e a derme", um dos poemas publicados na página "Risco", do jornal carioca O GLOBO.



O poema abaixo, intitulado "Entre o fogo e a derme", foi um dos dois poemas inéditos meus publicados no fim-de-semana passado na página Risco do caderno Prosa & Verso, do jornal carioca O Globo. A página é editada por Carlito Azevedo desde abril de 2010, e já publicou poetas brasileiros contemporâneos como Lu Menezes, Juliana Krapp e Laura Liuzzi, assim como traduções para textos de poetas estrangeiros como os grandes Zbigniew Herbert (Polônia), Yehuda Amichai (Israel) e Saburô Kuroda (Japão).


Entre o fogo e a derme

Como quem sopra
a própria pele antes
para você queimar
melhor, mais
eficaz. Com você,
os pontos da sutura
são auxílio ao corte.
Deito e observo
o prazer com que
você me desinfecta
para proteger,
contra minha tez,
os seus insetos.
Eis-me aqui,
querido, todo pós-
utópico depois
que você confunde
pela centésima vez
sulco e charrua
durante o sexo
ou seu exagero
em buscar no dicionário
antes de me tocar
a etimologia de palavras
como amortecimento.
Quando você fala,
arreganho os ouvidos
e olvidos e Ovídios
e respondo
à attention span
de peixe dourado
que você me dedica
em nossa vida de aquário.
Sei que devo soar,
aos seus ouvidos,
como um conjunto
de erratas e spam.
Resigno-me
como inseto extinto
preso em sua resina.
Os amigos sugerem
que eu deixe o cronômetro
vir coser os lábios
da ferida, enquanto
você seleciona
em random mode
por trilha-sonora
o sonzim dos meus ossos
que engranzam
sob o seu corpo.
Silêncio não
é costureira,
nem na Espanha
onde talvez haja
alguma que atenda
por Martírio ou Remédios,
como numa peça qualquer
de Lorca ou outra louca.
Sinto-me como uma Orca
justiceira ou uma Scarlett O´Hara
sem Tara.
Resta-me a esperança
que arqueólogos futuros
me descubram, soterrado,
fossilizado, esquecido
sob as suas vírgulas.
Hei de voltar, como um vírus
trancafiado nas tumbas
de Tutancâmon ou outra múmia,
devastarei paisagens e populações
à procura dos seus pulmões.


Ricardo Domeneck. Publicado originalmente na página mensal de poesia contemporânea do caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, a 15 de janeiro de 2011.

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