segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Uma nova aparição na música e poesia cantada alemãs: HANS UNSTERN.

Há alguns meses um amigo me relatou sobre um concerto obscuro num clube ainda mais obscuro, uma apresentação que o havia deixado desconcertado. O rapaz sobre o palco, segundo ele, chamava-se Hans Unstern, aparentemente uma criatura do Berlimbo. O álbum de estreia saíra em abril, chamado Kratz Dich Raus (2010).




Hans Unstern - "Anglet", ao vivo



Comparações nem sempre ajudam e ainda irritam. Mas, ao escutar sua música, passam pela minha cabeça nomes da Neue Deutsche Welle dos 80, unidos a nomes da atual New Weird America; sua voz me faz pensar num Klaus Kinski tentando cantar Kurt Weill; fico, como aquele meu primeiro amigo a mencionar o sr. Hans Unstern, desconcertado.




Hans Unstern - "San Simon", ao vivo



Alguns estão falando sobre "o novo dândi alemão"; outros reclamam da voz e amam a música; outros ainda dizem psychedelic, man, right on!. É uma aparição meio bizarra no atual cenário alemão. Sim, as bandas da NDW são a influência principal das novas bandas. Mas não DESTE jeito. A guitarra esquisita é ótima, como em Micachu & The Shapes. Alguém poderia pensar em Devendra Banhart ou Joanna Newsom, mas há um elemento cabaretista em Hans Unstern que me parece germânico. Talvez uma contraparte alemã para a austríaca Anja Plaschg, também conhecida como Soap & Skin?




Hans Unstern - "Paris"


Eu digo apenas: finalmente um novo troubadour interessante por estas bandas!




Hans Unstern - "Ein Coversong"


.
.
.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Meu amigo Jorge Wakabara visita Berlim. Postagem com um conto, sua colagem "Monstro", e minhas respostas para seu famoso "Questionário Dourado"

Meu amigo Jorge Wakabara está em Berlim há uma semana, misturando meus mundos paulistano e berlinense, fazendo deles agora nosso mundo paulistano-berlinense em uma experiência comum. É sempre uma sensação de cócegas no contexto, criando canais entre mundos estanques, quando amigos próximos meus de São Paulo visitam-me em Berlim. O legal é que eles saem daqui entendendo por que eu escolhi viver nesta cidade.

Conheci Jorge em 1999, creio. Tínhamos um amigo em comum, Roberto Borges, que era como eu membro da Tribo de Teatro Tumutupugá, com a qual encenamos, naquele mesmo ano, a peça 1999, para a qual servi de dramaturgista. Não, não dramaturgo, mas dramaturgista, aquele que tomava as improvisações e os textos não-teatrais que todos traziam para os ensaios, e os limava, redigia, teatralizava. Com esse trabalho coletivo, entravam no texto da peça fragmentos de Charles Baudelaire, Gaston Bachelard, Hilda Hilst, Vladimir Maiakóvski, Robert Browning, José Saramago, e até meus, contrabandeados por mim no trabalho de costura dos fragmentos.

Jorge e eu nos tornamos muito amigos e tenho memórias ótimas de conversas por caminhadas, descendo ou subindo a pé a Rua dos Pinheiros, zanzando pela Vila Madalena, na nossa São Paulo do início do século. Com ele, tinha conversas literárias que eram completamente diferentes das que tinha com outros amigos escritores. Suas perspectivas nunca eram formalistas, eram sempre intuitivas, instintivas, vinham de um gut feeling. Sua escrita era despretensiosa, e isso era refreshing, sem empáfia. Suas leituras eram também alheias às modas do momento, mesmo a muitas das minhas obsessões; ele lia Márcia Denser, Caio Fernando Abreu e João Silvério Trevisan, por exemplo. Seus poetas eram Allen Ginsberg, Ana Cristina Cesar. Nós compartilhávamos o amor por Hilda Hilst e Clarice Lispector, mas era também bom ouvir sobre um mundo literário com referências diferentes das minhas. Eu não amava J.D. Salinger como ele, nem me entusiasmava com C.F. Abreu, mas era legal saber que havia muitos cânones pessoais, que cada altar recebia seu santo.

Hoje, Jorge Wakabara é jornalista e editor de moda, braço direito de Lilian Pacce. O mais importante: ainda é um dos meus amigos mais queridos.

Reproduzo nesta postagem 3 coisas ligadas a Jorge Wakabara:

§ - em primeiro lugar, seu conto "Cinco minutos na cama", que publiquei há anos em uma versão antiga da Hilda Magazine.

§ - em segundo, a série de colagens "Monstro", inédita, que deveria ter entrado numa revista que planejei mas jamais saiu do projeto.

§ - por fim, reproduzo aqui o que ele já publicou em seu blogue esta semana: minhas respostas para o seu divertidíssimo "Questionário Dourado", uma sátira com o Questionário Proust que ele tem feito com amigos há muito tempo.


:


CINCO MINUTOS NA CAMA
Jorge Wakabara

Quando você olhou o meu pé e começou a rir, eu nunca pensei ter tanta placa tectônica dentro do meu crânio, por debaixo desse meu couro cabeludo, e pelos poros dessa minha pele que se revelou quente e áspera: pura reação psicossomática. Você riu, Carlos, por causa de um dedo, o meu dedo que seria o médio, o do meio, que era nitidamente maior que o meu dedão. E você disse, Carlos, com um humor que não te é peculiar, que eu tinha quatro mãozinhas no lugar de duas mãos e dois pés. Eu era, de repente, uma anormalidade digna de um 'freak-show'. Então eu estava ali, nu, com tantas coisas a serem vistas, e você notou o pior dos meus defeitos físicos. Notou-o descompromissadamente. Como se o fato de teu namorado ter aquele dedo médio comprido fosse equivalente à morte de um cachorro, ou ao enterro de uma vizinha chata. Eu fiquei muito perturbado, talvez sem razão, porém terrivelmente perturbado. O meu cabelo, por exemplo, podia estar feio e eu o cortaria, ou o pintaria, ou até mesmo o rasparia, se fosse esse o caso. O dedo, Carlos, não se corta, não se arranca, e muito menos se morde, já que se tratava de um dedo do pé e não da mão e ficaria muito mais difícil para mim, que tinha pouco condicionamento físico e alongamento, alcançar o dedo médio do meu pé com os meus dentes. Mesmo que ele fosse tão anormalmente comprido. Eu te detestei por vívidos e intensos segundos, eu te desejei morto e enterrado, mas antes de tua morte, ah, Carlos, desejei ainda que você sofresse doenças horrorosas, que te fariam coçar e escamar inteiro; imaginei tua cabeça estourando e teus miolos gritando "chega" em uma freqüência tão alta que não seriam escutados pelo ouvido humano. Depois eu quis que você se sujeitasse e lambesse aquele meu dedo médio horroroso, e todas as veias saltadas do meu pé magro horroroso, e ainda a minha canela magra, peluda e horrorosa; eu te chamaria de porco, canalha, bruto, e sussurraria com autoridade: "lambe mesmo, Carlos", "mais aqui", "agora te esmago". No entanto, teu sorriso cínico se desmanchou pouco a pouco e você, Carlos, percebeu que talvez eu tivesse certos traumas com aquele dedo específico, e também percebeu que talvez eu não gostasse que falassem daquele meu defeito físico. Imaginou que certamente eu já havia sofrido com gozações de família, colegas e desconhecidos. Eu derreti embaixo dos lençóis, levando as minhas terceira e quarta mãozinhas para longe de teu senso crítico com um “ar de cotidiano”, como se essas coisas acontecessem todos os dias, como se o cachorro tivesse morrido durante o enterro de uma vizinha chata. Esbocei algumas frases que lembravam algo muitíssimo inteligente vindo de alguém bem resolvido, enquanto apalpava o feio, o bobo, o metido que cresceu mais do que devia, e o acariciava, sangue do meu sangue, pele da minha pele, pedaço de mim metade adorada de mim, ao mesmo tempo em que mentalizava: "Calma, dedo. Não foi nada dessa vez".

2004


§


Monstro
um texto-colagem de Jorge Wakabara (2006)

(clique nas imagens para aumentá-las)






§

Ricardo Domeneck responde em Berlim às perguntas douradas de Jorge Wakabara:


QUESTIONÁRIO DOURADO INTERNACIONAL
COM RICARDO DOMENECK

(publicado originalmente no blogue Caminho Dourado. Adicionei aqui algumas notas em vermelho sobre as respostas.)


1. Me conta uma coisa que você fazia há 5 anos e não faz mais.
Ir no Biu.

(restaurante de comida caseira na Rua Cardeal Arcoverde, ao qual eu ia muito com meus amigos paulistanos quando morava na cidade, no início da década.)

2. Me diz um filme que você gostaria de ter feito, e o porquê.
“A professora de piano”, pra poder convidar a Isabelle Huppert quando eu quisesse pra gente tomar champanhe e ver uns pornôs.





(este filme é uma das minhas obsessões, eu o vi 11 vezes no cinema, ele conjuga todas as minhas preocupações políticas, estéticas, metafísicas e um vasto etc.)


“Me dá essa taça logo, então”

3. Me diz uma coisa que você comprou e nunca usou. Por que você nunca usou?
Uma calça xadrez no Mercado Mundo Mix da qual eu me arrependi assim que pus os pés pra fora do galpão. Isso foi em 2001! Coloca que foi em 2001!

(ah! meus tempos de pseudo-clubber!)

4. Qual é a fase da sua vida que você quer lembrar pra sempre?
Quando eu morava no Sobrado, com um bando de gente inteligente mas proletariado, escrevendo meu 1º livro e mais facilmente deslumbrado com as coisas.

5. Qual é a palavra que você está usando muito agora?
“Banause” – que é uma expressão alemã pra cafona.

6. Me conta uma coisa muito exótica que você amava nos anos 90.
A tatuagem no braço esquerdo do Jon Bon Jovi – especialmente na perspectiva generosamente doada pelo vídeo “Keep the faith”.

(os anos 90 deram-nos uma adolescência meio insana, mas esta resposta vocês devem creditar mais à minha sexualidade adolescente desenfreada.)




Bon Jovi - Keep The Faith
Hochgeladen von umusic. - Musikvideos, Sänger Interviews, Konzerte und mehr.

7. Me fala o que te faz rir muito, e o porquê.
Qualquer tipo de humor autodepreciativo.

8. Que personagem de novela você gostaria de ser? Por quê?
Viúva Porcina, porque é o mais perto que o Brasil já chegou de Almodóvar.


9. Me diz um defeito seu e um defeito meu.

Meu: Quando dois amigos meus que me tinham como elo passam a ter um relacionamento independente de mim, a minha primeira reação incontrolável é a ofensa.

Seu: na 1ª semana de julho de 2001, eu costumava achar você um pouquinho judgemental (a Carrie já disse isso pra Miranda).

10. Qual é a música mais linda que você já ouviu?
Vou dizer a 1ª que me veio na cabeça, sem pensar muito. “Rising”, da Lhasa de Sela.



.
.
.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um videorretrato antigo só agora editado, de Christopher, com poema inédito


"Christopher" (2006), por Ricardo Domeneck. Christopher barbeando-se em sua casa, verão berlinense, 2006.



Gravei este vídeo na casa de Christopher, no verão de 2006. Já não estávamos juntos, e, na verdade, é possível até mesmo ouvir seu novo namorado lavando a louça na cozinha, enquanto gravávamos o vídeo. Sim, foi uma situação bizarra, difícil. Era como um ato de arquivar os danos, catalogando os ossos quebrados antes de engessá-los tortos, salvaging what was left of the shipwreck.

Eu o conheci no primeiro dia do ano de 2005. Ele me parecia o menino mais lindo que já havia visto. Aqueles olhos gigantes, aquela epiderme cobreada que o revestia uniforme, uniforme. Nosso relacionamento foi uma das experiências mais fortes e destrutivas por que já passei.

Todas as tentativas de um videorretrato enquanto estávamos juntos haviam falhado. Eu dizia que não conseguia filmar alguém por quem estava apaixonado. É apropriado que por fim tenha conseguido apenas este vídeo, este retrato de costas, enquanto você carpe o matagal do rosto e eu me faço voyeur do corpo com que já não podia compartilhar a temperatura.

Ele foi my own private Hurricane. Perdi banhas que não tinha, banquei a Margo Channing, almodovariquei, fiz-me híbrido, liztaylorca, escrevi todos os poemas cínicos sobre o amor desastroso, voaram copos. Ecumênico, ensandecia-me. Ele foi o Cabo das Tormentas. Apelidei-o de Okeechobee, o pior furacão antes do Katrina, Okeechobee soava para mim como Christopher.

:

Texto em que o poeta dirige-se a um ex
e relata a seus leitores sobre o furacão Okeechobee



O plantão do Jornal da Globo
anunciava a morte das mortes
da Rapunzel das importâncias
e o bípede predileto impunha
suas lesões como lições.
Seu bíceps era um fórceps
na manteiga das minhas guelras.
É como se seu tubo de eustáquio
se posicionasse, ainda por cima,
na expectativa de um Thank You
por sua devastação em meu clima,
e eu temia, ao leme, que o próprio
meio-dia fosse a praga que assola
ao meio-dia. Há outros perigos
para um barco ao mar,
mais terríveis que a tormenta
que prenuncia o naufrágio.
Talvez o vício
do farol, demasiada confiança
nos botes, nas bússolas.
De sua testa à sua glande
e desta às falanges,
aquele cobre solar e uniforme,
como os pelos em suas pernas
distribuíam-se
feito um milharal
querendo esconder o milho.
A proporção entre seu nariz
e outros membros do império
em seu mapa de côncavos
e convexos era minha última
porção de simetria, Bauhaus
do meu lumpesinato físico.
Quando nascerá o comunismo
do proletariado amoroso?,
era o que simulavam murmurar,
revolucionárias, minhas mucosas,
estas cavidades hipócritas
em seus mal-dissimulados
delírios napoleônicos.
Eu queria ser seu dono e seu dog,
parceiro majoritário
do monopólio
que ele presidia.
Um feudo de fluidos,
de corpos. Suas fotos
ainda me coçam.
Ele era um conjunto de carpos
e cilindros, e, se aos dezenove
fazia-me de vaso, aos vinte
e cinco era eu dejeto,
despejo.
Ele era uma alegria difícil,
um improviso de rês pública.
Queria tudo,
a mim inclusive,
mas sem contrato exclusivo.
Redigia todas as cláusulas,
eu as aceitava, do sim tácito
ao silêncio tático,
qualquer manobra
que mantivesse seu corpo
aberto ao meu tato.
Quem jamais viveu o momento
que faz de migalhas
um banquete
que atire o primeiro tomate.
Ele, em minha boca,
foi o nascer-do-sal.
Quem me dera o tivesse
discernido a tempo
como o analgésico exato
para as minhas ilusões
de pertencer a alguma espécie
em extinção,
quando hoje sei ser eu praga.
Contudo, não me arrependo
de permitir aos meus dedos
aquela orgia típica
de gafanhotos
nos campos férteis
dos seus cabelos,
e, mesmo daninho,
dedico a ele hoje
este honorário
por seus extermínios.


Ricardo Domeneck. Berlim, 2008/2010.

§

Christopher (centro), fotografado por Walter Pfeiffer (2007),
sessão para a qual servi de assistente



.
.
.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em meio à minha descoberta tardia e boquiaberta do cineasta Joseph Losey

Foi há alguns meses, em minha visita quase diária à locadora do bairro. Na verdade, eu estava passando por uma fase de admiração e obsessão por Dirk Bogarde (1921 - 1999), aquele ator-mestre da elegância. Deparei com a capa do filme The Servant (1963), com Bogarde e, como se não bastasse, roteiro de Harold Pinter. E foi por Bogarde e Pinter que aluguei o filme naquela noite, não me importando muito com o diretor, um certo Joseph Losey do qual nunca tinha ouvido falar.





Baseado em um romance de Robin Maugham, o roteiro é mesmo excepcional, assim como a atuação de Bogarde, sempre brilhante. Mas foi a direção do filme que mais me deixou espantado e admirado, e comecei a pesquisar mais sobre Losey.

O diretor nasceu no estado do Wisconsin, nos Estados Unidos, em 1909. Estudou na Alemanha com Bertolt Brecht (sua primeira relação frutífera com um dramaturgo), e quando este exilou-se nos Estados Unidos, passaram a colaborar. Codirigiram uma adaptação cinematográfica da peça Leben des Galilei (1937), que se tornaria o filme Galileo (1947), com Charles Laughton no papel principal após ter traduzido a peça com Brecht, e Losey ainda faria um curta-metragem baseado na vida de Galileu.

É na década de 50 que começam as agruras de Losey, e aquilo que eu creio explicar sua obscuridade, quando é obviamente um mestre absoluto do cinema: o diretor cai na fogueira anticomunista da chamada Era McCarthy. Impossibilitado de trabalhar em Hollywood, onde estava na infame entertainment industry blacklist, Losey emigra para o Reino Unido, onde passa a trabalhar com Harold Pinter e outros roteiristas, construindo uma obra que não recebe as loas e prêmios e homenagens que merece e deveria receber. Mesmo no Reino Unido, ele acabaria dirigindo muitas obras primas com pseudônimos.

Há pouco tempo, assisti ao excelente King and Country (1964), mais uma vez com o brilhante Dirk Bogarde, e com Tom Courtenay, outro ator britânico de quem gosto muitíssimo. O filme retrata o julgamento de um soldado acusado de deserção durante a Segunda Guerra Mundial.

Cartaz do filme King and Country (1964)


Outro excelente filme, com jogos de câmera impressionantes, é The Criminal (1960). Assista ao trailer no Youtube, não é permitido embutí-lo aqui.

Há pouquíssimos lançamentos aqui na Alemanha. Estou tentando encontrar outros. Quero muito ver seu remake para o filme de Fritz Lang, M. O de Lang é de 1931, o de Losey é de 51.




Ou sua Eva (1962), com Jeanne Moreau, Stanley Baker e Virna Lisi:





Joseph Losey. Mestre mesmo.

E foda-se McCarthy, aquele bufão.

.
.
.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Apropriação e paródia: cartaz de NOVEMBRO para a SHADE inc, a partir de um original de Larry Clark, com pequena conversa sobre a fotografia dos 70

Convite de novembro para os eventos semanais da nossa SHADE inc

Convite e cartaz de novembro para a SHADE inc, nosso evento semanal às quartas-feiras. Alguns não entenderam bem a ideia na última postagem que fiz a respeito, achando que estas paródias eram o projeto em si. O projeto é um evento, algo que ocorre todas as quartas-feiras, com DJs, e às vezes performances, concertos, instalações. Estes são os convites e cartazes, feitos pela apropriação, reencenação e paródia de imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo.

O cartaz deste mês foi concebido e produzido pelo coletivo SHADE (em ordem alfabética: Daniel Reuter, Niklas Goldbach, Oliver A. Krüger, Ricardo Domeneck e Viktor Neumann), e fotografado por Niklas Goldbach, a partir de uma foto original do norte-americano Larry Clark, nascido em Tulsa, Oklahoma em 1943. No Brasil, creio que o americano é mais conhecido como cineasta, especialmente por seu filme Kids (1995), que se tornou notório ao lidar com o problema da AIDS entre adolescentes, em um estilo documental que se tornaria comum na década seguinte, esta que agora se encerra.



No entanto, desde a década de 70, Larry Clark já documentava como fotógrafo a juventude abandonada pelo sonho americano. Em 1971, ele estreia com a publicação do livro Tulsa, fotografado entre amigos e conhecidos da sua cidade natal.


Larry Clark, fotografia do livro Tulsa (1971)


Com esta publicação, podemos unir Clark a outros fotógrafos da década de 70, que também encontrariam entre seus amigos nos subterrâneos das cidades uma vida marginal, escorrendo paralela à das revistas e colunas sociais. É o caso da também americana Nan Goldin (n. 1953), do japonês Nobuyoshi Araki (n. 1940), e do suíço Walter Pfeiffer (n. 1946).


É claro que eles não inventaram a fotografia sociodocumental entre os indivíduos excluídos do jogo político e social de suas comunidades, já que encontramos algo disso desde o alemão August Sander (1876 - 1964), passando pelas americanas Lisette Model (nascida na Áustria, 1901 – 1983) e Diane Arbus (1923 - 1971), mas até então o fotógrafo parecia manter-se fora do jogo; ele documentava, mas sem qualquer envolvimento emocional com seus retratados. A maneira como estes fotógrafos da década de 70 (Clark, Goldin, Araki, Pfeiffer, entre outros) pareciam estar envolvidos e pertencer aos retratados, assim como seu abandono de qualquer pudor ante o jogo sexualizado no qual a lente de suas câmeras faz-se mais uma camada da epiderme, seriam centrais para sua influência sobre fotógrafos do fim da década de 70 e através da década de 80, dos quais Robert Mapplethorpe (1946 – 1989) e Mark Morrisroe (1959 - 1989) poderiam ser discutidos como exemplares. É essa genealogia também que nos leva a compreender melhor o trabalho de fotógrafos dos últimos 20 anos, como Wolfgang Tillmans, Collier Schorr, e Heinz Peter Knes, ou, nos últimos poucos anos, Brett Lloyd e Adelaide Ivánova.

Algum dia quero escrever sobre essa relação de envolvimento emocional com os retratados, este pertencimento, para discutir na verdade o trabalho de um fotógrafo que seguiu uma linha que tanto tangencia como elide esta narrativa: o brasileiro Alair Gomes (1921 - 1992), com sua prática de fotógrafo-voyeur. A um operário visual como eu, fazendo meus pequeninos e desimportantes videorretratos de moços e moças aqui em Berlim, esta discussão interessa.

Abaixo, o original de Larry Clark do qual nos apropriamos, reencenamos e, de certa forma, parodiamos em gender guerrilla.


Larry Clark, do livro The Perfect Childhood (1993)

.
.
.

sábado, 6 de novembro de 2010

Poema inédito recente: "As canções como álibis para meus excessos"

As canções como álibis para meus excessos
Ricardo Domeneck

A culpa não
é minha, querido. O mau
exemplo foi de Maysa,
quase lançando-se, Brasília
azul e tudo, da Rio
-Niterói abaixo. Por isso,
esta minha falta
de pose,
esta minha recusa
a respeitar mãos
únicas, a gravidade.

Tenho meus álibis, moço.
Que esperava, se Ângela
Rô Rô
tampouco me ensinou
a aceitar o horror
do copo só, testa
contra o balcão, prática
da primeira pessoa
do singular.

Que você atire
a primeira
pedra, Dolores
Duran. Curta
é sempre a vida,
quando se habita
a letra
da fossa, ou se fala
com a língua no oco
a língua do sim.

Carpe diem,
diziam os árcades,
hoje nem reconhecíveis
por suas arcadas
dentárias.
Prefiro carpir ou cuspir
meus dentes
a deixar de chocá-los
com os seus.

Moço, quisera fôssemos
como dois corpos
de água,
a que basta
um toque
para que se tornem
o único e o mesmo.
Você gargalha
enquanto pesquiso
em sua glote
o dicionário
do riso
e eu aguardo sua voz
para guardá-la num cofre
forte como uma noz.


Berlim, agosto de 2010.

Dedicado obviamente a ele, O Moço.
(mas também à amiga Adelaide Ivánova,
que é, como eu, experta em excessos)

.
.
.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Das canções favoritas: "Jesus was a cross maker", de Judee Sill

Judee Sill foi uma poeta lírica, ou, como eu deveria dizer para ser melhor compreendido, uma songwriter, cantautora norte-americana, nascida em Oakland, Califórnia, em 1944. Em vida lançou apenas dois álbuns, seu album epônimo de estreia em 1971, e no ano seguinte Heart Food, antes de morrer em decorrência de uma overdose em 1979. Em 2005, foi lançado um álbum duplo com canções inéditas, chamado Dreams Come True. Judee Sill é um dos nomes injustamente pouco conhecidos do folk norte-americano.





"Jesus was a cross maker" mostra sua escrita sofisticada e mística, e é talvez sua canção mais conhecida, interpretada por outros luminares daquela década, como Mama Cass.

Jesus was a cross maker
Judee Sill

Sweet silver angels over the sea
Please come down flyin' low for me
One time I trusted a stranger
Cuz I heard his sweet song
And it was gently enticin' me
Tho there was somethin' wrong,
But when I turned he was gone.

Blindin' me, his song remains remindin' me,
He's a bandit and a heart breaker,
Oh, but Jesus was a cross maker.

Sweet silver angels over the sea
Please come down flyin' low for me

He wages war with the devil
A pistol by his side
And tho he chases him out windows
And won't give him a place to hide,
He keeps his door open wide

Fightin' him he lights a lamp invitin' him,
He's a bandit and a heart breaker,
Oh, but Jesus was a cross maker

Sweet silver angels over the sea
Please come down flyin' low for me

I heard the thunder come rumblin'
The light never looked so dim
I see the junction git nearer'
And danger is in the wind
And either road's lookin' grim

Hidin' me, I flee, desire dividin' me,
He's a bandit and a heart breaker.
Oh, but Jesus was a cross maker
Yes, Jesus was a cross maker




"Jesus was a cross maker", interpretada por Mama Cass (1972).


No vídeo abaixo, podemos ver/ouvir Judee Sill interpretando a canção "The Kiss" em Londres, em 1973.



Recentemente, a excelente banda norte-americana Fleet Foxes, de Seattle, e também às vezes agrupada, como Judee Sill, sob o divertido gênero do baroque pop, tem interpretado sua canção "Crayon Angels" em apresentações ao vivo.

Robin Pecknold, o poeta lírico/songwriter à frente da banda Fleet Foxes, interpretando a canção "Crayon Angels", de Judee Sill (1944 - 1979)

.
.
.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A artista finlandesa Elina Brotherus na Hilda Magazine

"O vestido de noiva de minha mãe, o terno de noivo de meu pai, o vestido de luto de minha mãe",
da série "Das Mädchen sprach von Liebe" (1997)




Elina Brotherus é uma fotógrafa e videoartista finlandesa, nascida em Helsinque em 1972. Já expôs em galerias e instituições como a Fondazione Studio Marangoni (Florença), Bloomberg SPACE (Londres), gb agency (Paris), Yapi Kredi Kazim Taskent Art Gallery (Istanbul), V.M. 21 Arte Contemporanea (Roma), The National Art Center (Tóquio), Biennale d'art contemporain (Lion), Musée des Beaux-arts (Caen), Galerie Wilma Tolksdorf (Berlim), e Temple Bar Gallery & Studios (Dublim), entre outras. Apresentamos a série "Das Mädchen sprach von Liebe" (A menina falou do amor), de 1997/98.


::::: ELINA BROTHERUS NA HILDA MAGAZINE ::::::


Hilda Magazine é editada por Oliver Roberts e por mim, aqui no Berlimbo.


Em tempo: quem chamou minha atenção para o trabalho de Brotherus foi a fotógrafa brasileira Adelaide Ivánova.
Aqui vai meu "obrigado, Ivi!"


.
.
.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"Reproduction", nova faixa e vídeo de Florian Pühs, ou Breve apresentação de um amigo, músico alemão, com notas sobre o punk no país

"Reproduction" (2010), faixa e vídeo do alemão Florian Pühs.


Conheci Florian Pühs em 2006, num clube subterrâneo do Berlimbo. Um amigo em comum estava discotecando, e eu fiquei imediatamente intrigado por aquele hipster de óculos. Eu, que sou ligeiramente obsessivo, até hoje tenho uma pequenina queda saudável por ele, e ele, por sua vez, tem uma grande queda pela namorada sueca dele, linda e inteligente (chamada Anna), tecladista da sua banda atual. Morando no mesmo bairro (o que em Berlim conta muito às vezes), ficamos muito amigos, gravei um retrato-em-vídeo dele, e acompanhei sua carreira musical na cidade. É que Florian chegou ao Berlimbo com um nome já feito na cena underground de punk core europeia, como vocalista e letrista da cultuada banda Surf Nazis Must Die. O nome da banda é um referência a um filme bizarro da década de 80. Quem escuta hoje suas produções de techno minimalista não deve acreditar que se trata do mesmo Florian Pühs que esgoelava canções de menos de 1 minuto típicas do punk, como esta "I am not anti-girls, girls are anti me":




"I am not anti-girls, girls are anti me", Surf Nazis Must Die, letra e voz de Florian Pühs.


Já escrevi sobre ele aqui, em um artigo chamado "Heine para punks", sobre sua canção "Neue Dresdener Schule", que usa versos de Heinrich Heine numa das minhas canções favoritas do punk dos últimos anos. Florian é hoje vocalista da banda Herpes, na linhagem do electropunk do Le Tigre, ou melhor talvez dizer na linha do synthpunk de uma banda sueca como The Hives. Os críticos os enquadram no que se convencionou chamar por aqui de movimento do Post-Punk Revival, pós-industrial, ou, numa clave bastante absurda em minha opinião, de neopóspunk. As raízes do movimento na Alemanha estão nas incríveis bandas do país nas décadas de 70/80, da chamada Neue Deutsche Welle (Nova Onda Alemã), como os grupos Palais Schaumburg, Einstürzende Neubauten, Grauzone, Hans-A-Plast, Deutsch-Amerikanische Freundschaft (também conhecida como DAF), Die Tödliche Doris, ou Malaria!.

A banda de Florian hoje, Herpes, é em minha opinião uma das melhores do movimento, ao lado de duas bandas contemporâneas da cidade de Colônia, chamadas MIT e Schwefelgelb. Desde 2007, quando a banda se formou, eles têm tocado no nosso evento uma vez por ano. Quanto eles tocam, nós chamamos a noite de Herpes Annual Celebration. Abaixo, vocês podem ver um vídeo do show deles no nosso clube em 2008:



Herpes ao vivo no nosso evento semanal em 2009.

Florian é um das minhas criaturas favoritas no mundo e um divertidíssimo poeta satírico em suas letras, que vão direto ao ponto. Posto abaixo duas canções dele com a banda, traduzindo a letra, poemas satíricos e canções punk. As duas são simples e diretas, como numa fatrasie medieval ou poema dadaísta. Em outras letras, seu sarcasmo com certos aspectos da vida berlinense aparece em textos mais sofisticados, que ainda quero traduzir para postar aqui. Por ora, vão os sopapos de "Du bist kein Mann" e "Very Berlin":


"Du bist kein Mann" (2008), Herpes, letra e voz de Florian Pühs.

Você não é homem, nada
texto de Florian Pühs, tradução de Ricardo Domeneck

E você corre e corre e corre
Mas não chega a paragem alguma
E você procura e procura e procura
Alguma coisa que não encontra, nunca

A vida é tão anti-você
Sobre você a vida só chove

E você corre e corre e corre
Mas não chega a paragem alguma
E você tem uma penca de sonhos
Mas só os constrói sobre dunas

E você corre e corre e corre
Pra dar de cara em outra parede
E mesmo que foda e trepe e beije
Mesmo assim não é nenhum homem

A vida é tão anti-você
Sobre você a vida só chove


§



"Very Berlin", da banda alemã Herpes, letra e voz de Florian Pühs.

Very Berlin
texto de Florian Pühs, tradução de Ricardo Domeneck

Essa batida, esse baixo, essa monotonia
Isso é very Berlin, você é very Berlin
Esse som, esse estilo, esses jeans
Isso é very Berlin, você é very Berlin

Baby, enfim chegamos ao fim
Enfim chegamos a Berlim

Vem pra cá,
Saia do buraco,
Tão mesquinho
E tão ferrado

Sem contrato,
Sem dinheiro,
Dá na mesma.

Essa batida, esse baixo, essa monotonia
Isso é very Berlin, você é very Berlin
Essa camisa, nessa cor!
Isso é very Berlin, você é very Berlin

§


A propósito, Florian Pühs discoteca hoje à noite em nossa SHADE inc.

.
.
.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Alguns comentários pós-eleitorais, agora que os amigos baixaram talvez as armas da militância, à direita e à esquerda

Nos últimos meses, alguns amigos entregaram-se com paixão à militância política por seus candidatos à presidência, tanto à direita como à esquerda, ainda que tenha se tornado difícil, hoje em dia, aplicar esta velha dualidade como distinção absoluta. Se levarmos em conta as críticas que compareceram na campanha, em que acusações de "fascismo", "autoritarismo" ou "antidemocrático" eram aplicados de cada lado do debate, pareceria difícil. As alianças políticas estabelecidas por cada partido para garantir sua vitória e possível maioria no Congresso Nacional tornariam ainda mais impossível esta velha distinção. Mas sejamos práticos: ignorando, por ora, acusações de possíveis veleidades antidemocráticas de cada lado, o fato concreto de que o PT defende uma participação muito mais clara e massiva do Estado nas relações sócioeconômicas que influem no bem-estar da população, quando comparado ao laisser-faire massivo do PSDB, já nos serviria para distinguir de que lado balançavam os pezinhos dos candidatos sobre esta cerca, na qual pareciam em muitos momentos estarem de mãos dadas.

Nas conversas, discussões e tentativas de debate que tive com estes vários amigos, em geral particulares, às vezes públicas, fui percebendo como era praticamente impossível manter aquele desejo sincero, de todos, de um debate verdadeiro e amplo, simplesmente porque a militância exige, em tantos momentos de uma campanha difícil como esta, aquela defesa quase cega, a aceitação em bloco, impedindo que as limitações óbvias de cada partido pudessem ser discutidas de forma aberta, clara. Cada um dirá também que as estratégias assumidas pelo adversário impediram este debate adulto e sério. Não sei. Saio desta experiência com a impressão de que debate político não existe em tempo de eleição, quando tanto parece estar em jogo, e está, prestes a perder-se ou confirmar-se.

Além disso, o discurso apocalíptico de cada lado pareceu-me muito mais intenso nesta eleição. A tática populista do "messianismo político" parece ter cedido à estratégia da invectiva escatológica, ou (permitam-me o neologismo) de um "apocalipsismo político". O eco de "calipso" no neologismo traz à mente o caráter de religião de espetáculo presenciado nas últimas semanas. Não pareciam contar tanto as qualidades de cada candidato quanto afirmar o desastre político que a vitória do adversário significaria. E não duvido que cada um acreditava realmente neste apocalipse anunciado. Para os interesses políticos e principalmente econômicos dos eleitores de Serra (apenas a curto ou médio prazo, se tivessem visão política verdadeira), a vitória de Dilma Rousseff significa verdadeiramente uma catástrofe, como a vitória de Serra teria significado uma catástrofe para os interesses políticos dos adversários. Neste duelo para decidir quem tinha o maior Apocalipse, tomar uma decisão lúcida parecia realmente difícil, em especial em meio à histeria das últimas semanas, e da interferência canhestra de questões religiosas em um debate político. O episódio em que Joseph Ratzinger, o líder de um estado teocrático, tentou influir nas eleições de um estado democrático e oficialmente laico fica em nossa História como um momento de desrespeito a mais da Igreja Católica em solo brasileiro. Não estou diminuindo a importância da discussão da legalidade do aborto, mas buscar fazer com que isto defina a eleição do presidente da República, quando tantos fatores estavam em jogo, pareceu-me em alguns casos beirar o grotesco.

No entanto, se os discursos apocalípticos pareciam exagerados, tampouco cria eu ser prudente ignorá-los. E foi levando-os em conta, contabilizando estas possíveis catástrofes, que tomei minha decisão pessoal de qual candidato preferia ver na presidência da República, mesmo que tenha também tomado a decisão clara de não militar por tal candidato. Explicarei o porquê adiante. Para o revelar aqui, recorreria a uma paráfrase daquele capítulo de negativas do romance genial de Machado de Assis: pois, contabilizando os débitos da possível catástrofe política anunciada e alegada a cada lado da disputa presidencial, e o crédito das possibilidades de transformação social necessária no Brasil que cada um representava, ao chegar à tabela e resultado da conta encontrei Dilma Rousseff com um pequeno saldo. E é por isso que me alegrei, sem qualquer entusiasmo ingênuo, com sua vitória neste domingo. Tentarei elaborar um pouco sobre isso. O uso que vários amigos queridos meus fizeram da acusação de "fascista" e "antidemocrático", tanto para Lula ou Dilma, assim como para Serra, parecem-me exageradas, mesmo que o PT esteja realmente muitíssimo confortável no poder, e Serra me pareça um protótipo mal-acabado de brutamontes truculento e autoritário. A isso, restaria dizer: mostre-me o partido que algum dia deixou o poder de bom grado. O PSDB criou a emenda da reeleição para manter Fernando Henrique Cardoso no poder, emenda vilipendiada por Lula e pelo PT, aqueles que, na sua boa hora, a souberam usar. De qualquer forma, a disputa presidencial ocorreu em terreno democrático, e o discurso de bicho-papão hoje em dia não ajuda, nem convence. De qualquer forma, por mais temerário que seja afirmá-lo aqui, confesso que, ao levar sim a sério as possibilidades de catástrofe antidemocrática de cada candidato, pareceu-me mais importante manter a continuidade dos programas sociais que (alega-se e torço para que seja verdade) tiraram 30 milhões de brasileiros da pobreza extrema. Se foram criados no governo de FHC, parece claro que passaram a funcionar no de Lula. Para mim, isto foi o que mais pesou na balança de minha decisão pessoal. Que estes brasileiros tenham votado para defender seus interesses econômicos (mesmo que estes interesses econômicos envolvam uma bolsa do governo de míseras dezenas de reais) parece-me totalmente legítimo, ainda que figuras como Olavo de Carvalho e Ferreira Gullar (ou nanicos intelectuais como Reinaldo Azevedo), em meio a certa histeria religiosa e ideológica, tentassem fazer disso algo a se lamentar. Ora, a classe média e alta vêm agindo politicamente de acordo com seus interesses econômicos há séculos. E insisto dizer tudo isso sem a menor simpatia especial pelo PT.

Deixei o Brasil há cerca de uma década. Vivi entre a Alemanha e o Brasil nos anos 2000 a 2002, quando me mudei de forma definitiva para Berlim, voltando ao Brasil apenas para visitar meus pais ou resolver questões burocráticas. Em 2002, uma de minhas últimas ações como residente da República Federativa do Brasil foi votar em Luís Inácio Lula da Silva em sua primeira vitória eleitoral à presidência, e sair às ruas para comemorar. Lembro-me ainda de estar com amigos na Avenida Paulista, com aquele cheiro de mudança no ar. Estava entusiasmado. Oito anos depois, vivendo em Berlim, lendo homens e mulheres favoritos como Ludwig Wittgenstein e Hannah Arendt, confesso não encontrar em mim sequer sombra daquele brand tipicamente latino-americano de messianismo. O que resta é um desejo difuso de parúsia que se faz herança da minha educação religiosa como criança, pela qual sou tão grato, e pela leitura de outros seres prediletos e mestres eleitos, como Walter Benjamin. Contemplo hoje homens como Lula, FHC e Serra, ou mulheres como Dilma Rousseff e Marina Silva, com uma desconfiança e suspeita que são o que de melhor aprendi e herdei dos poetas anarquistas que me formaram, como os dadaístas germânicos.

Restaria, por fim, falar sobre aquela imposição est-É-tica de não militar. Como disse, muitos amigos meus militaram de forma ativa por um ou por outro candidato nesta eleição. Também testemunhei a maneira como muitos poetas tomaram partido, não posição, e defenderam claramente um ou outro candidato, mesmo entre aqueles que são tão adamant sobre a separação entre estética e ética.

A alguns isso parecerá uma contradição, vindo de alguém que insiste (ad nauseam, dirão alguns) na conjunção de ética e estética, fazendo meu joguinho gráfico constante na palavra est-É-tica, mas só me manifestei publicamente com amigos, em debates virtuais, quando parecia haver um abuso da linguagem no que se debatia na imprensa brasileira, distorcendo-a, como na maneira que o PT vinha usando o substantivo "mudança", ou na estratégia absurda do PSDB, de ferir a natureza laica do nosso Estado ao usar como usou suas alianças políticas com a Igreja Católica. Era este o limite imposto por minha crença inabalável na conjunção entre ética e estética. Ora, alguém poderá peguntar, por que "imposto"? Essa discussão toca no dilema que senti nestes últimos meses e ao qual já me referi aqui.

O que, eu passei a me perguntar, permitia a tantos poetas brasileiros, poetas que insistem na separação entre poesia e política, poetas que insistem na separação entre ética e estética, poetas que abraçam conceitos questionáveis como trans-historicidade e "poema pós-utópico", poetas que se assanham, atiçam e atacam a qualquer tentativa de leitura contextual de sua poesia, poetas que são inimigos da crítica sociológica, poetas que afirmam que a única obrigação do poeta é escrever poemas bons e bonitos, sem qualquer ligação obrigatória com seu tempo, o que, eu me perguntei, permitia a estes poetas tomarem partido tão claro, defenderem Dilma Rousseff ou José Serra com tanta paixão em seus blogs, em seus perfis no Facebook, no Orkut, etc, etc, etc. Não há contradição nisso, eu creio: pois é justamente sua crença na separação completa entre ética e estética que lhes permitiu esta imisção nos jogos de poder. Porque eles acreditam na separação, digamos, entre sua pessoa física e sua pessoa poética. Assim, eu imagino, eles criticariam poetas que escrevem para defender partidos, como um Maiakóvski ou Brecht o fizeram em vários momentos, mas talvez por misturarem sua poesia e sua política, não necessariamente por assumirem posições num possível governo, mesmo que seja a posição de defendê-lo textualmente.

Não estou de maneira alguma criticando os poetas que defenderam Dilma Rousseff ou José Serra abertamente apenas por fazê-lo. Há muitos amigos meus, extremamente próximos, que o fizeram. O que me chamou a atenção é quantos deles discordam, às vezes com veemência, de minha tentativa de conjugar poetica e formalmente a discussão ético-estética. Pois alguns destes amigos (e os que estão longe de serem amigos) sempre defendem com paixão o que chamaria de absenteísmo público do poeta nestes últimos 25 anos, como uma defesa da suposta independência política do poeta, sua neutralidade. É aí que me pergunto se não haveria certa contradição. Ao mesmo tempo, algumas pessoas me escreveram perguntando por que um poeta como eu, tão insistente na discussão das implicações políticas do trabalho formal e crítico, mantinha-me assiduamente fora da militância pelo PT ou pelo PSDB em meio à shit storm que foi esta eleição, como se houvesse aí uma contradição de minha parte. Pois reafirmo que foi minha crença na est-É-tica que me impôs a não-militância. No ensaio que estou escrevendo e que gostaria de haver terminado antes das eleições, trato das alianças sociopolíticas dos poetas, sua relação com o mecenato, seja privado ou governamental, e como estas alianças sociopolíticas podem influir em suas escolhas formais. Assim como as transformações formais da poesia dos últimos séculos estão ligadas às transformações do papel do poeta em sua comunidade, deflagradas por tantos cataclismos políticos, como a Revolução Francesa e a Revolução Russa, para mencionarmos dois de ligação clara com algumas transformações poéticas que se seguiram, dois momentos em que os poetas foram OBRIGADOS a mudarem suas alianças sociopolíticas, entre as classes ou grupos que estavam ou pareciam estar no poder. Nada glamouroso para os que ainda parecem ver o poeta como um ser entre o santo e o mítico, nas palavras daquele grão-desmistificador das nossas imposturas, João Cabral de Melo Neto. É por isso que não militei nem pretendo militar por qualquer candidato ou governo, por essa crença na conjunção entre ética e estética, pois me parece mais importante, politicamente, manter uma verdadeira independência para criticar e denunciar as "imposturas de linguagem" ocorridas nos últimos meses. Isso é, eu admito e entendo quem assim o veja, realmente complicado, questionável e segue sendo um dilema pessoal meu, algo que me incita à meditação nestes dias e que compartilho aqui com vocês. Eu acredito hoje que o poeta deveria ser oposição sempre, não importando quem está no Governo, e trata-se aqui de um parâmetro pessoal para mim mesmo, sem querer impor essa visão a outros poetas.

Há muitas outras coisas que gostaria de discutir, como a tentativa de interferência perpetrada por Joseph Ratzinger no debate político de um estado laico e democrático, ou sobre o fato de termos uma mulher como futura presidente, mas deixo isso tudo para outro momento. Devemos nos alegrar, porém, pelo fato de que as estratégias políticas questionáveis das últimas semanas não se fizeram valer.



.
.
.

Arquivo do blog