domingo, 17 de outubro de 2010

Aniversário do Moço e Milésimo Centésimo Quadragésimo Terceiro Dia de Minha Alegria, Com Poemas e Declarações Embriagadas, Ridículo e Amoroso



Hoje é aniversário d´O Moço. Ele completa hoje seus 26 anos de existência desarmada sobre a terra, três dos quais (ou exatos 1143 generosos dias) ele vem decidindo continuamente compartilhar comigo, eu, felizardíssimo após três décadas de espera e catástrofes, en l'an de mon trentiesme aage descobri aquele que aceitaria encolherar-se em concha comigo todas as noites, tornando meu aquecimento a carvão em plenos invernos belimbosos coisa supérflua. Hoje é aniversário d´O Moço. No ano passado, quando ele completou um quarto de século, escrevi para ele o poema "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos", que reproduzirei mais uma vez ao fim desta postagem. Antes, posto aqui, logo abaixo, um poemícula que escrevi hoje, pensando n`O Moço, assim como a tradução do mais simples e popular poema de amor na Lírica Amorosa Alemã do pós-guerra, poema chamado "Was es ist", do austríaco Erich Fried, terminando com a música "It´s a wonderful life", do finado poeta-cantor americano Mark Linkous (1962 - 2010), uma das canções mais lindas da década, deste líder da banda Sparklehorse e trovador suicida neste ano de tantas mortes, canção no entanto linda e que dedico hoje ao Moço, com um vídeo de cortar o coração, feito por um estranho (com quem adoraria tomar um café) que usou imagens de três dos meus filmes favoritos, e enfim encerrando esta celebração-postagem com outros poemas escritos para O Moço, neste 17 de outubro, aniversário dele e Dia Internacional da Felicidade de Ricardo Domeneck.


O que o poeta deseja ao namorado no dia de seu aniversário

....................................a Jannis Birsner

Quisera eu que você fosse grande e gordo
como uma baleia, ou melhor, um cachalote
(o que evitaria que eu tivesse
que abster-me dos seus dentes),
cujo coração é do tamanho de um Fusca,
assim quem sabe eu arriscasse viagens,
não com você ou a seu lado, o que faz
sempre com que a visão de sua crista
ilíaca e nuca
desvie, redirija ou distraia a atenção
que eu deveria dedicar à arquitetura
e à paisagem,
mas pudesse, como um Jonas felizardo
e voluntarioso, viajar em você, alojado,
confortável em seu miocárdio,
massageado pelo inflar metódico
dos seus pulmões,
entrincheirado (feito um presidiário
que imaginasse o exterior como estado
de calamidade e sítio) entre as grades
simétricas de sua caixa torácica,
e desta forma inaugurasse
nossa colaboração, simbiose compulsante
e vitalícia,
nunca mais comensal de farelos e migalhas
de machos-alfa ou
godfathers,
e doravante
não mais sofresse a dependência
dos movimentos voluntários
alheios
para exercitar no amante meus cinco sentidos,
ou acabar, como sempre dantes, forçado,
com minha própria mão febril
sobre minha própria testa,
a constatar e provar a mim mesmo
a minha febre,
pois relegaria a você, moço,
a regulação e constância da nossa temperatura,
mesmo que hoje me contente, corregente e duplo,
com esta pressão arterial e taquicardia
de beija-flor, cuitelo,
com meus cerca de 1,260
batimentos cardíacos por minuto
quando sobrevoo seu rosto,
como se este fosse a cara amarelada
de uma angiosperma polpuda e melosa,
pois eu também, moço,
tal qual esta espécie
de pássaros rapidíssimos
e glutões, estou sempre a meras horas
de distância da amorosa inanição.



Ricardo Domeneck. Berlim, 17 de outubro de 2010.

§

Canção de Mark Linkous (1962 - 2010) e de sua banda Sparklehorse, que eu hoje dedico ao Moço como se a houvesse escrito, em que a letra a certa altura diz "I am the dog that ate / your birthday cake", canção com um vídeo feito por um estranho, usuário chamado no Youtube de "balladof", com cenas de três de meus filmes favoritos, Grey Gardens (Albert & David Maysles, 1975), Badlands (Terrence Malick, 1973) e Who's Afraid Of Virginia Wolf (Mike Nichols,1966):

"It´s a wonderful life", da banda Sparklehorse, canção do poeta-cantor Mark Linkous (1962 - 2010)



Tradução para o mais simples e popular poema de amor da língua alemã no pós-guerra, "Was es ist", de Erich Fried, tomando minhas usuais liberdades tradutórias para fazer com que o poema funcione em português brasileiro e sirva para alguma coisa além de encher revistas de literatice:

O que é

É louco
diz a razão
É o que é
diz o amor

É desastroso
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desesperado
diz a inteligência
É o que é
diz o amor

É ridículo
diz o orgulho
É inconsequente
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Was es ist
Erich Fried

Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe

Es ist Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe

Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinnig
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe



§

Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos


.........................a Jannis Birsner

Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos,
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.



Ricardo Domeneck. Modo de Usar & Co., número 2, 2009.


§


Texto em que o poeta sente-se impelido a dizer a Jannis Birsner em Zurique o que Frank O´Hara quis dizer a Vincent Warren em Nova Iorque

.............. "which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it"
........................................................... Frank O´Hara, Having a coke with you


Caminhar com você por Zurique
num domingo de chuva e com fome
é tão melhor que um dia qualquer
de sol algures, com outros
ou hipernutrido,
talvez porque você pareça
insistir neste aspecto empírico
de quem está a aquecer o planeta,
derretendo inconsequente
todas as calotas polares
como se fosse o pulôver
de mil avós
ou apenas porventura o plural
do substantivo “sol”,

talvez ainda porque ali andemos
até ao acaso dar de cara e ancas
com a estátua de Marino Marini
mencionada no poema de O´Hara,
ou, esquecendo por completo DADA
por estar mais atento à sua bunda,
surpreender-me como se fora 1916
ao adentrar a Spiegelgasse
e passar todo casual e causal
pelo prédio que abrigou o Cabaret Voltaire,
o que então visitamos espantadíssimos
para descobri-lo mera loja de souvenirs,
e nem o “Karawane” de Hugo Ball
ou a caravana de axilas dos turistas ao redor

me distraem do seu nariz e nuca,
pois é tão Júpiter você, moço,
enquanto eu mero me regalo
e contento em órbita irregular
como uma sua lua, Temisto
ou certa Carpo,
e visito seu rosto
com o zelo e o temor
de carteiros obrigados
a seguirem suas rondas
de entrega das cartas mesmo
após uma noite de bombardeios
para talvez encontrarem não
endereços, mas escombros,

e eu penso tudo
isso mas nada
digo pois você detesta
declarações públicas,
destarte escrevo este texto
na língua de que nem sílaba
você domina,
esta língua
que é meu sistema de signos
e também com o que o lambo,
língua em que “vontade”
é-me ao mesmo tempo
aquilo que impera
e aquilo que implora.






(Poema iniciado na cabeça em Zurique,
terminado no papel em Berlim, agosto de 2010)


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Poeminha recentíssimo, bem cheio de adjetivos, mas porque foram necessários, queridos, sem querer irritar os concisos com siso

O acordeonista da Catedral de Bruxelas

De Bruxelas eu
esperava tudo, talvez
a reprise
do que ali já vivera,
uma noite ao lado
de Jey Crisfar,
chuva e cansaço,
conversas com taxistas
e árabes, mas não
este acordeonista
loiro de 20 anos
diante da Catedral,
sim, a de Bruxelas,
acordeonista loiro e imberbe,
alto e imundo,
a quem doei 2 euros
num excitativo segundo de tacto
entre sua mão e meus dedos fechados
abrindo-se em bojo sobre sua palma,
após fazer com a visão
o rodízio contemplativo e luxurioso,
alternando o foco dos olhos
entre a catedral imberbe e loira
e o acordeonista alto e imundo,
a quem ensaiei, por 20 minutos
que mais pareceram seus 20 anos,
perguntar seu nome, quiçá filmá-lo
com a câmera que deixara
no Berlimbo,
ou imaginá-lo fotografado em série
por Adelaide Ivánova,
Heinz Peter Knes
ou qualquer fotógrafo
íntimo que me cedesse
os direitos autorais
desta imagem loira,
imunda,
para que eu de alguma forma
possuísse
este acordeonista imberbe e alto
em seus 20 anos,
a quem então batizo
em minhas glândulas
e passarei a chamar de Loïc
ou quem sabe Guillaume
pelo resto dos meus dias
após falhar em criar os colhões
de pedir seu nome,
e é assim, sr. Loïc ou Guillaume
aos 20 anos imundo e acordeonista,
que a você eu dedico
diante da alta e imberbe
Catedral de Bruxelas,
estes 2 euros
e uma ereção.



Ricardo Domeneck. Bruxelas, 8 de outubro de 2010.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um filme sobre a escrita e sobre o silêncio de Friederike Mayröcker



Fui ontem ao cinema com minha querida Odile Kennel, para a pré-estreia do filme Das Schreiben und das Schweigen (A escrita e o silêncio), de Carmen Tartarotti, feito ao longo de dois anos de entrevistas e filmagens com a poeta austríaca Friederike Mayröcker, nascida em Viena em 1924. Mayröcker é frequentemente descrita como a Grande Dama da Poesia Germânica Contemporânea, e é um dos meus poetas favoritos ainda vivos neste espaço linguístico.

O filme é bastante delicado ao adentrar a casa e a intimidade da poeta octogenária, e trata-a com grande respeito, sem tentar exotizá-la ou exagerar as idiossincrasias que ela inegavelmente tem. Vivendo em um velho apartamento vienense, reclamando do exagero de sol em Viena (!!!), é engraçado observar o caos de papéis por todos os lados.



Trailer (bastante minimalista) do filme Das Schreiben und das Schweigen, sobre Friederike Mayröcker.


O filme é também muito terno ao tratar de sua relação com o poeta Ernst Jandl (1925 - 2000), seu finado marido. Jandl e Mayröcker formaram um dos mais famosos casais de poetas dos países germânicos, mas sem as tragédias, por exemplo, de um casal como Ted Hughes e Sylvia Plath. Na verdade, Ernst Jandl e Friederike Mayröcker foram abençoados com aquele mistério cósmico do amor correspondido, e foram poetas que viveram felizes, mesmo que não para sempre, já que Jandl infelizmente faleceu já há uma década. O único sofrimento que ela descreve no filme foi o do ostracismo que eles sofreram como poetas no início de suas carreiras. Isso, no entanto, é realmente passado. Os dois são hoje nomes importantíssimos e reconhecidos. Ainda que Friederike Mayröcker ainda seja considerada por muitos uma poeta hermética e difícil, Ernst Jandl tornou-se, ao lado de Erich Fried, um dos poetas mais populares da língua, especialmente por sua pesquisa no campo da poesia sonora.


Vídeo em que Ernst Jandl vocaliza seu famoso poema sonoro "schtzngrmm".


Abaixo, deixo vocês com a postagem sobre Friederike Mayröcker que preparei para a Modo de Usar & Co.. É hora do Brasil também descobrir esta Grande Dama da Poesia Contemporânea, germânica e mundial.


Friederike Mayröcker nasceu em Viena, Áustria em 1924. Seus primeiros textos publicados surgiram na revista Plan, a partir de 1946. Manteve um diálogo com os poetas do Grupo de Viena mas não se filiou ao grupo. Conhece em 1954 o poeta Ernst Jandl, com quem viveria até a morte deste no ano 2000. Seu trabalho afasta-se muitas vezes da sintaxe normativa. Alguns de seus livros de poemas mais importantes são Tod durch Musen (1966) e Winterglück (1985). Está entre os poetas vivos mais respeitados da língua, e recebeu o prestigioso prêmio Georg Büchner em 1991. A editora Suhrkamp publicou seus Poemas Reunidos (Gesammelte Gedichte) em 2004. Friederike Mayröcker vive em Viena.




Às vezes por quaisquer movimentos
acidentais
roça minha mão sua mão o dorso de sua mão
ou meu corpo enfiado em roupas encosta-se quase sem saber
um piscar-de-olhos em seu corpo de roupa
estes minúsculos movimentos quase vegetais
seu olhar de ângulos e suas pupilas de propósito
vagam no vazio
sua pergunta logo de início interrompida aonde você
viaja no ver
ão
o que você está lendo
atravessam-me o peito em cheio
e através da garganta como uma doce faca
e eu resseco por completo como um po
ço num verão escaldante


Manchmal bei irgendwelchen zufälligen
bewegungen

streift meine Hand deine Hand deinen
Handrücken
oder mein Körper der in Kleidern steckt lehnt fast ohne es zu wissen
einen Augenblick gegen deinen Körper in Kleidern
diese kleinsten beinahe pflanzlichen Bewegungen
dein abgewinkelter Blick und dein Auge absichtlich ins Leere
wandernd
deine im Ansatz noch unterbrochene Frage wohin fährst du im Sommer
was liest du gerade
gehen mir mitten durchs Herz
und durch die Kehle hindurch wie ein süszes Messer

und ich trockne aus wie ein Brunnen in einem heiszen Sommer


§§§


a uma papoula em meio à urbe

de meus crânios brota
a pirotecnia das lágrimas, o
lilás enferruja-se, o ligustro
sopra, a camuflagem do verão sugere temporais -
coroa-de-espinhos fecunda o campo, os
estorninhos caem, mosquitos
zunem em meio às sar
ç
as, a
florada murcha duma
nuvem coroada de cerejas
esverdilhas -
incluindo heráldicas águias-bicéfalas
em relevo - retratos em cerâmica rubra - esfarela-se
o muro do cemitério
apoiado apenas na sempre-viva
hera -
ao vento vertical quilhágil
páira
meu peito falconiforme a pupilar presas

an eine Mohnblume mitten in der Stadt

aus meinen Köpfen sprieszt
das Feuerwerk der Tränen, der
Flieder rostet, der Liguster
weht, die Camouflage des
Sommers läszt Gewitter ahnen -
Wolfsmilch besamt die Flur, die
Stare fallen, Mücken
flirren im Dorngebüsch, das
abgewelkte Blühen einer
Wolke von erbsengrüner Kirschenfrucht
gekrönt -
samt aufgeprägten kaiserlichen
Doppeladlern - Portraits auf roten Ziegeln - bröckelt
die Friedhofsmauer ab
gestützt nur noch von immergrünen
Efeuranken -
im Aufwind flügelschlagend
steht
raubvögelgleich mein Herz nach Beute äugend


§§§


Preferível viajar no pensamento, Hokusai
às costas, ou sob a lâmpada,
caminhar ao pé do Fuji e lançar o olhar
sobre o pico nevado, as sete-léguas
molhadas, geladas, a gola enrugada.
Como, eu pergunto, exploração duma distância
com os próprios pés, como, eu pergunto, experiência duma distância
com os próprios olhos. Como conciliar sede da distância
com sedentariedade. Como, pés e olhos,
tristeza e vontade.


Lieber in Gedanken reisen, Hokusai
auf dem Rücken, oder unter der Lampe,
laufen zu Füszen des Fuji und blicken hinauf
zu verschneiter Spitze, die Schnürstiefel
feucht und kalt, die Halskrause welk.
Wie, frage ich, Erkundungen einer Ferne
mit den eigenen Füszen, wie, frage ich, Erfahrungen einer Ferne
mit den eigenen Augen. Wie Sehnsucht nach Ferne
mit Seszhaftigkeit vereinen. Wie, Fusz und Auge,
Träne und Lust.

§§§


Lobo / como um lobo / ele diz


lobo como um lobo você
ficou cara e focinho de lobo pen-
sativo e inclinada a cabeça, cabeça
da matilha
, a imagem gerou sua
metamorfose em lobo também dissolvido, não
tanto loba, lobo! também irmão irmão qual lobo,
lebréu, sentado com a cabeça inclinada
sobre o peito, um lobo não sei
pareado com corpulência
felpuda-pensativa (longânima?) cabeça: peso
peludo suspenso, lupina-
mente você olha você senta-se um tanto
corcunda lupina a nitidez!, e
impiedoso a tremer ossos enlutado
de sulcos, isto fez de mim também todo
extinto
,


Wolf / wie ein Wolf / sagt er

Wolf wie ein Wolf du siehst
darauf aus wie ein Wolf nach-
denklich mit gesenktem Kopf, Kopf-
tier, das Bild hat dich in einen
Wolf verwandelt auch aufgelöst, nicht
so sehr Wölfin, Wolf! auch Bruder Bruder Wolfs-
hund, mit dem Kopf auf die Brust
gesenkt sitzend, ein Wolf ich weisz
nicht gepaart mit struppig-nachdenklicher
Korpulenz (nachsichtig?) Kopf : behaartes
Gewicht nach unten, wolfs-
mäszig du siehst du sitzt ein wenig
zusammengesunken wölfisch die Schärfe!, und
gnadenlos knochenschüttelnd von Gullies
umflort, das hat mich auch ganz
verstorben,


Poemas de Friederike Mayröcker, traduções de Ricardo Domeneck.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Uma performer islandesa na SHADE inc: Berglind Ágústsdóttir

Berglind Ágústsdóttir

A convidada especial desta quarta-feira na SHADE inc, para aquilo que chamamos de midnight session (que é a parte mais Cabaret Voltaire do nosso evento, evento que logo descamba para uma festa bêbada), é a performer/cantora islandesa Berglind Ágústsdóttir.



("husid a antmannstignum", da islandesa Berglind Ágústsdóttir)


Tenho mantido contacto à distância com ela há alguns meses, e há tempos queríamos fazer algo juntos. Ela já colaborou com bons amigos meus na Islândia, o duo Hellvar (a cantora Heida Eiríksdóttir e o músico Elvar Saevarsson), que já musicou e vocalizou um texto meu.



(Berglind Ágústsdóttir em colaboração com o duo Hellvar, ao vivo em Berlim)


Bom, vou fazer o quê? Eu tenho uma queda por islandeses...

Completando a noite, DJ sets do italiano Massimiliano Pagliara, do canadense Dickey Doo e dos meninos berlinenses do A-Team (Jacob Bauernfeind e Carl Luis Lange).



("poppvisur", da Berglind Ágústsdóttir)

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domingo, 10 de outubro de 2010

Um brasileiro em uma bienal internacional de poesia

Estive na semana passada em Liège (parece que em português a cidade se chama Lieja), na Bélgica, entre os dias 7 e 9 de outubro, participando da XXVI Biennale Internationale de Poèsie, sediada pela Université de Liège, na região conhecida como Valônia. Foi um daqueles convites que me surpreendem de quando em quando, especialmente vindo de um evento tão oficial. De qualquer forma, o adjetivo "internacional" mereceria uma qualificação: tratava-se de um encontro, digamos, internacionalmente francófono. Havia poetas de várias partes do mundo, mas pelo que notei, com a exceção de uma inglesa, uma japonesa e um iraquiano, em sua maioria eram poetas que escreviam em francês, vindo da França, Bélgica, Haiti, Argélia, Marrocos, ou mesmo de países como o Líbano e a Romênia. Senti-me um tanto isolado com meu português/inglês/alemão. Além disso, a idade média dos poetas convidados parecia beirar os... 60 anos, com as exceções da franco-romena Linda Maria Baros, nascida em 1981 (às vezes eu me pergunto qual a porcentagem de romenos que realmente escrevem em romeno); meu querido Antoine Wauters, poeta belga que pude conhecer pessoalmente após uma longa correspondência, também nascido em 1981; e Samira Negrouche, poeta franco-argelina nascida em 1980 e que eu já havia conhecido no Festival de Medana, na Eslovênia, em 2008. Foi, de qualquer forma, uma experiência muito legal. Confesso não ser um visitante tão assíduo da poesia em língua francesa, não da maneira como habito as poesias em língua portuguesa, inglesa e alemã, e foi também interessante conviver com alguns poetas mais velhos, pertencendo a tradições por vezes distantes. Havia certamente uma porcentagem de "poetas institucionais", aqueles velhos acadêmicos que vivem de academia em academia, mas havia também vários poetas muito interessantes, que foi um prazer descobrir.

O grão-senhor do evento parecia ser o libanês Salah Stétié. Nascido em Beirute em 1929, durante o mandato francês do país, ele é, segundo minha querida Samira Negrouche, um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos. Stétié escreve, porém, em francês, não em árabe, como foi também o caso, por exemplo, do grande poeta argelino Mohammed Dib ‎(1920–2003). Foi interessante observar a reverência com que ele foi tratado durante o evento. Um cavalheiro, pude conversar um pouco com ele (fomos apresentados por Samira), e dividir uma mesa de debates na sexta-feira pela manhã.


Apresentando minha intervenção ao debate "O poeta é/e sua língua", com Salah Stétié à mesa, ao fundo da foto.


Reproduzo abaixo um pequeno poema lírico do libanês:

Les Conversants
Salah Stétié

Nous avons donc parlé sous la tonnelle
De la diversité concertante des anges
Des fourmis affairées dans le jardin
Où l’eau brillait parmi ses catégories
Jusqu’au lointain des cruches

La poésie dormait dans ses racines d’arbre
Depuis l’antiquité comme une jeune fille
Agrippée au désastre de la parole
Pour ce naufrage où la terre est consolatrice

La terre était l’enfant de nos viscères
Où déjà des fleurs de formaient préparant
Notre silence vide le plus intime
Sous le ciel dur invisiblement défait
Par la mêlée des grues et des nuages



Outros dois encontros que renderam conversas muito enriquecedoras, e que me deixaram feliz:

§ - com o poeta iraquiano Salah Niazi (n. 1935), o tradutor para o árabe de trabalhos como Macbeth e Hamlet, além do Ulysses (1922), de James Joyce, num volume publicado em Damasco, na Síria, há dois anos. Conversamos longamente sobre traduzir Joyce para o árabe, sobre democracia no Iraque, sobre poesia brasileira.

§ - e com o "trovère valão", como ele foi apresentado pelo diretor do festival: o poeta belga Julos Beaucarne (n. 1936). Um de seus assuntos mais queridos parece ser seu amor pela língua valona, ou o valão.




Após a conversa e debate de que participei, uma senhora veio conversar comigo, dizendo que era teatróloga, que havia gostado de minhas intervenções, e que algumas das coisas que eu disse, ilustradas por meu jogo de palavras com o vocábulo francês langue e o vocábulo inglês lung, a tinham feito pensar em Valère Novarina (n. 1947), o que tomei como grande elogio. A quem interessar, reproduzo abaixo minha consideração inicial no debate:

The poet is/and his language
Ricardo Domeneck


What most calls my attention in the proposed title of this roundtable is not so much its nouns, the poet or the language, but that possessive pronoun linking them, its concepts of possession and belonging.

The idea of possessing a language tantalized the Brazilian intellectuals and writers since our first Romantic poets in the XIX century, and creating a Brazilian poetic language was one of the most obsessive objectives of the Brazilian modernists in the 1920s. Linguistic nationalism among Romantic or Modernist poets is of course not a Brazilian privilege or disease, depending on the perspective. North American poets like Walt Whitman and William Carlos Williams were also greatly preoccupied with the creation of an American prosody for their poetic language. Other pairs in the Romantic & Modernist movements could be found in other countries, Pushkin and some of the Russian futurists, or among German poets of the Sturm und Drang and Expressionism. The Portuguese modernist poet Fernando Pessoa once wrote that the Portuguese language was his nation. I find it compelling that he did not write that “the poetic language” was his nation, but chose to inhabit a collective language, one officially spoken throughout his country. The idea of a national language doesn´t interest me, but the implications of his statement, which could also then be read as a refusal to make a clear difference between the poet´s language and that of his readers.

I would like to address these two possible readings of our title today, “the poet is / and his language”:

§ - the idea of a national language to which a poet would belong;

§- and a poetic language, inherently different from the common language, a language that the poet alone would therefore possess.

Rosmarie Waldrop, a poet who emigrated from Germany to the United States when she was 20 years old, and started writing in American English in the 1970s, once stated that she spoke both German and English with a “foreigner´s accent”, and that this fact liberated her from the illusion of ever being a “master of one language”. As a Brazilian poet living in Germany, writing in the language of my mother, which we could call Brazilian Portuguese, but also writing in what I call “the language of the Empire”, American English, this statement has always touched me in its frankness and humility, the desire not to “master a language”, not to possess, but maybe simply to belong to it. Later, reading Wittgenstein, who would become central in my language thinking, I was thrilled to discover his notion of “language games”, with the possible implications of no separation or essential difference between the language of the poem and the language I am using right now to exchange thoughts with you. What we would have is then the different games and uses for this organism or system of tools that we call "language". The verb “to use” is very important to this notion. In Brazil, I edit a magazine with three other poets, Angélica Freitas, Fabiano Calixto and Marília Garcia, a magazine we call
Modo de Usar & Co., something like “How To Use & Co.”, trying to investigate the poetic language through the idea of textuality, a text conscious of its artifices, thinking of the poet´s language as a site of intervention, the place where public and private meet, where he or she tries to achieve an ethical relationship between the individual and the collective, between own and other. The poetic language as a bridge between dualities and extremes, remembering how often these dualities have caused wars and massacres, especially when it deals with ideas and (mainly) ideals of national/local and alien/foreign. In this realm, the only thing the poet possesses is not a langue or language, but his lungs, inhaling and exhaling air for the production of concrete sounds (and its signs and letters) with the mission of uniting, not dividing. The language uses / with her poets.


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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Poema inédito em livro, com título longuíssimo e todas as minhas obsessões recorrentes, que talvez irrite, mas só quem já estava irritado

Em 2008, quando a língua portuguesa foi o foco do Festival de Poesia de Berlim, com poetas do Brasil, Portugal e países lusófonos da África, alguns de nós fomos convidados a gravar poemas para o portal Lyrikline, que se dedica a registrar leituras de poemas nas próprias vozes de seus autores, armazenando ainda traduções para os textos em várias línguas. Pediram que selecionássemos poemas que tinham pelo menos tradução para o alemão, por isso concentrei-me em poemas do livro Carta aos anfíbios (2005) e do livro a cadela sem Logos (2007), mas incluí alguns inéditos que tinham sido traduzidos especialmente para o festival. Entre eles, havia dois poemas que naquela época eram importantes para mim, pois eu sentia neles uma espécie de momento de transição no meu trabalho. As obsessões estavam todas ali, mas surgindo de outra forma. Um deles alguns de vocês talvez conheçam, chama-se "Mula", foi publicado no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., e já foi também lindamente musicado/vocalizado pelo duo Tetine:


"Mula" (2007)
Texto de Ricardo Domeneck.
Voz e composição do Tetine.
Vídeo de Eugen Braeunig.

O outro poema chama-se "Texto em que o poeta medita sobre a fuga inexequível da História como turista em Budapeste, Hungria", e é quase exagerado na forma como tentei concentrar nele toda a minha obsessão com a historicidade poética. Iniciei-o mesmo em Budapeste, quando lá estive em 2007, apresentando-me como DJ. Fiquei alguns dias na cidade, lendo seus poetas (como Miklos Radnóti), perambulando, escrevendo. Tem muitas das características dos poemas do livro Sons: Arranjo: Garganta (2009), a composição e encadeamento altamente paratáticos, o sequestro de elementos da tal de Cultura, seja pop ou não, mas da mesma maneira que um poeta romântico do século XIX teria usado a tal de Natureza. Não é apenas um poema sobre a historicidade poética. É um poema à historicidade poética, ante a historicidade, até a historicidade, após a historicidade, com a historicidade, mesmo contra a historicidade, mas também da historicidade, desde a historicidade, na historicidade, entre a historicidade poética e algo outro, para a historicidade, perante a historicidade, pela historicidade, sob a historicidade, sobre a historicidade, atrás/de trás/por trás da historicidade poética. Só uma preposição fica de fora: sem. É tudo que depende da historicidade (saravá Walter Benjamin!), mas nunca sem ela. Não é composto por metáforas... é composto por figuras, na minha leitura pessoal do conceito da teologia cristã. Como já tentei elaborar em vários artigos e aqui o repito: conceito de figura, em minha pesquisa por uma poesia que se faz consciente de sua historicidade, FIGURA, não metáfora, talvez funcionando como metonímia, sinédoque talvez?, FIGURA, em que um acontecimento histórico liga-se a outro acontecimento histórico, prefigurando-o, dois fatos distintos e temporalmente segregados prevendo um último acontecimento que revelaria seus significados. Dito tudo isso, abaixo você tem meu poema irritante para os que já estavam irritados; porque talvez não entendam ou reconheçam minhas figuras; talvez porque acham que estou apenas name dropping para ser pop. Sei que é irritante para qualquer leitor ter que ficar googlando nomes ou fatos para "entender" algo. Compreendo, aceito. Evito quanto posso. Mas não há certas coisas que a poesia nos ajuda a descobrir? Nos ajuda a passar a saber? Este poema, por exemplo, utiliza uma figura bastante específica ao final: a da morte do poeta húngaro Miklos Radnóti. Utiliza vários elementos biográficos e poéticos, por exemplo com o fim (a morte) de Radnóti, que foi fuzilado por nazistas em 1944, mais tarde reconhecido, ao ser exumado, por encontrarem no bolso de sua camisa seus últimos poemas, ligando-o figurativamente ao fim do poema "A step away from them", de Frank O´Hara; conectando, em arco histórico, Joaquim de Sousândrade e Federico García Lorca como poetas nova-iorquinos; não são metáforas, são figuras. Ao mesmo tempo, questiono nossa composição narrativa para a História, ao unir o Twin Peaks (1990), de David Lynch, ao imperador Xerxes I da Pérsia, Heródoto e as graphic novels. O poema talvez seja difícil, chato, peço perdão por isso, mas não peço desculpas. Beijo em vossas almas por vossa paciência com minhas ladainhas. Eis o poema:


Texto em que o poeta medita sobre a fuga inexequível da História como turista em Budapeste, Hungria

Oblivion não
me assusta,
Claudette Colbert.
Evito praticar o
nado-sincronizado
no formol das evidências
fotográficas de
moi-même & myself.
Se possuísse na geografia
residência fixa em Twin Peaks,
sei que talvez os tupiniquins
elegessem os tons e timbres
de minha sinfonia de ossículos
para martelo, bigorna e estribo:
echolalaica
do silenciável
se a alfândega
rege as adegas
da anomalia.
Meus autobiógrafos
impossibilitados de
narrar meu martírio
em Montmartre,
como não houve
sobreviventes
com meu nome
em Guernica
ou Treblinka.
Em meio à hipoteca
dos meus despejos
não invoco
Hiroshima mon glamour.
Escuta aqui, Titanic:
tão Aristóteles quanto
Heródoto ou aritmético
o erótico,
todo mundo
sabe que o manual
de dança
conspira pelo decreto
dos pés
como obsoletos.
Não venha
mimetizar-me o miasma.
Qualquer Xerxes
a chicotear o mar
sabe que o olvido de Myrna Loy
não é o ouvido de Mina Loy
e Góngora não serve gôndolas
a canais de televisão, jornais
vespertinos em dia
crônico do hodierno
se é
hipótese a manhã.
Tal qual
este planeta
que aceita satélites
ou ser terceiro
em relação
a um sol
localizável mesmo
em seu espiralar
de eixo,
que não
pausa a cada
0:00
ou advoga o
stand by
do meu sono.
Buda não
é Manhattan,
feito aquele Guesa
em vertigem no Stock
Market
ou Lorca
histérico no Harlem.
Narrar o passado
é tal ginástica odisséica,
& ! que ginga, que físico
deste acrobata do empírico.
Eu aceito, sim, da totalidade
o resquício, poderia escrever
sobre Nova Iorque,
Manaus ou Poughkeepsie
mas nunca o pús nos pés
lá, isto aqui é Budapeste,
não as Ilhas Mauritius.
Hoje, ou em 1956, jamais
corresponder-se-ia
como os Poems
by Pierre Reverdy

no bolso de O´Hara,
então aceito a ladainha
da lingueta sem chave
à resistência da História
e a cartografia
inelegível, o mundo.
Sim, Budapest não é New York
& meu miocárdio está no bolso:
pocket book de Miklos Radnóti.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Apropriação e paródia: postagem ilustrativa

Convites e cartazes mensais de nosso evento às quartas-feiras, SHADE inc, iniciado em abril de 2010, para substituir a antiga Berlin Hilton. O conceito para os cartazes e convites segue a apropriação, reencenação e paródia de imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo. Concebidos e produzidos pelo coletivo SHADE (em ordem alfabética: Daniel Reuter, Niklas Goldbach, Oliver A. Krüger, Ricardo Domeneck e Viktor Neumann), e então fotografados em geral por N. Goldbach ou D. Reuter, com a exceção da foto de outubro, feita por André Simonow a partir de nosso conceito. Não escapará, mesmo aos olhos menos sagazes, certa política queer à maneira como algumas das fotos foram reencenadas e parodiadas. Mas elas não têm discursos prontos esgueirando-se por trás delas... são, no fim, um sorriso cúmplice com algumas pessoas, as que têm senso de humor.

Clique nas imagens para aumentá-las.


Outubro de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por André Simonow.



Para quem não reconhece a foto, veja a original, sobre a performance-protesto conhecida como "Bed-In", de Lennon e Ono, aqui. Na foto: Lukas Juretko e Akim.

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Setembro de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.



Para quem não reconhece a foto, veja a original, autorretrato de Herbert Bayer quando ainda estudante da Bauhaus em 1932, aqui. Na foto: Jannis Birsner.


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Agosto de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Daniel Reuter.




Para quem não reconhece a foto, veja a original de Francesco Scavullo, retratando o ícone warholiano Joe Dallesandro, aqui. Na foto: André Scheffler a.k.a. Andre Lange.

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Julho de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Daniel Reuter.




Para quem não reconhece a foto, veja a original de Alfred Eisenstaedt aqui. Na foto: Niklas Goldbach e Viktor Neumann.


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Junho de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.





Para quem não reconhece a foto, veja a original de Diane Arbus aqui. Na foto: Ricardo Domeneck.

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Maio de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.




Para quem não reconhece a foto, veja a original de Man Ray aqui. Na foto: Lorcan Leather-barrow.


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Abril de 2010. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado por Niklas Goldbach.





Para quem não reconhece a foto, veja a original, imagem famosa da vitória americana em Iwo Jima feita por Joe Rosenthal, aqui. Na foto: Philipp Sapp, Ricardo Domeneck, Viktor Neumann e Oliver A. Krüger.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Das canções favoritas: "Fall on me", de Michael Stipe, com o R.E.M.

Em julho, a banda R.E.M. passou um mês em Berlim, gravando seu novo álbum. Michael Stipe começou a ser visto em várias festas da cidade, especialmente, é claro, as festas queer (justo ele, que tanto popularizou a expressão em uma entrevista do fim dos anos 90). Para minha sorte, ele é muito amigo de um DJ canadense que toca todos os meses na nossa festa semanal, e graças a este amigo pude conhecer pessoalmente o sr. Stipe, um dos meus heróis da adolescência. Encontramo-nos uma noite em um clube subterrâneo, acabamos na mesma mesa em bebedeira, e outra noite ele veio ao nosso evento de toda quarta-feira.

Tive que me controlar para não regredir a um adolescente trêmulo, como sempre me ocorre quando me vejo diante destas criaturas que por tantos anos foram míticas para mim. Sobre o que se falou à mesa naquela noite bêbada, num clube subterrâneo do Berlimbo? De tudo, da vida nossa de cada 80s e 90s, porque moramos onde moramos, de amores passados por meninos lindos, de como ele detesta Damian Hirst (havia uma exposição de Hirst em Berlim naquele momento) e de como eu por outro lado o acho divertidíssimo, de como todos na mesa gostávamos de Bruce Nauman (havia uma exposição de Nauman em Berlim naquele momento), sobre o Berlimbo, sobre Athens - Georgia, sobre Nova Iorque.

E eu me controlei o tempo todo para não bancar o fã idiota, e desandar a falar sobre como ele foi importante para mim quando adolescente, sobre como algumas de suas canções salvaram minha sanidade em uma cidade pequena do interior de São Paulo, sobre como "Fall on me" era um mantra pessoal meu, e, finalmente, de como em certa tarde de São Paulo, há muitos anos, eu havia chorado convulsivamente enquanto esta canção rolava na vitrola, em módulo repeat. Eu me controlei, kept my cool, e quase derreti quando ele se despediu dizendo "It was very nice to meet you, Ricardo", uma frase feita e simplesmente polida, que se diz a qualquer um, mas que terminava com meu nome, vindo da boca do herói de um (como me tornei naquele momento mais uma vez) adolescente magricelo, corcunda e cheio de acne.



"Fall on me", do álbum Life's Rich Pageant (1986), do R.E.M.


Abri a postagem com este relato pessoalíssimo, beirando nota de coluna social. Quanto à canção, que é o que interessa, o texto de "Fall on me" é uma coisa muito sofisticada, em minha opinião, e traz umas lições exemplares de poeticidade. Pessoalmente, encontro mais aprendizagem em um verso como "Feathers hit the ground before the weight can leave the air", neste poema cantado, que em muita poesia escrita e publicada na década de 80. Posso estar insano, mas não consigo chacoalhar a impressão de certa wit metafísica neste verso, como se viesse em linhagem de "heredipoeticidade" de criaturas como Donne ou Crashaw. O texto duplo, em sobreposição de vozes, tem uma carga tão forte na última estrofe, é tão lindo: "There's the progress we have found (when the rain) / A way to talk around the problem (when the children reign) / Building towered foresight (keep your conscience in the dark) / Isn't anything at all (melt the statues in the park) / Buy the sky and sell the sky and bleed the sky and tell the sky". Um dia o céu há de cair sobre nossas cabeças, mas até lá continuo ouvindo R.E.M., como qualquer adolescente digno dos anos 80/90.


Fall on me
Michael Stipe, com o R.E.M.


There's a problem, feathers iron
Bargain buildings, weights and pullies
Feathers hit the ground before the weight can leave the air
Buy the sky and sell the sky and tell the sky and tell the sky

(chorus)
Fall on me (what is it up in the air for) (it's gonna fall)
Fall on me (if it's there for long) (it's gonna fall)
Fall on me (it's over it's over me) (it's gonna fall)

There's the progress we have found (when the rain)
A way to talk around the problem (when the children reign)
Building towered foresight (keep your conscience in the dark)
Isn't anything at all (melt the statues in the park)
Buy the sky and sell the sky and bleed the sky and tell the sky

(repeat chorus)

Fall on me

Well I could keep it above
But then it wouldn't be sky anymore
So if I send it to you you've got to promise to keep it whole

Buy the sky and sell the sky and lift your arms up to the sky
And ask the sky and ask the sky

(repeat chorus 2x)

Fall on me

(repeat chorus)

Fall on me

(repeat chorus)


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domingo, 26 de setembro de 2010

Cuidado com os anos de 13 luas, avisa mestre Fassbinder

Quando eu me mudei para a Alemanha, no começo desta década que agora se encerra, já trazia do Brasil em minha bagagem mental alguns mestres pessoais que eram alemães. De forma bastante clara, Walter Benjamin (1892 - 1940), e Bertolt Brecht (1898 - 1956). O pensador berlinense passou a ser presença determinante em meus pensamentos desde que li alguns de seus ensaios traduzidos para o português, lá pelos idos de 1997, quando tinha uns 20 anos. Brecht tornou-se uma presença forte em minha vida a partir do meu primeiro ano na Universidade de São Paulo, onde estava matriculado como estudante de filosofia, mas onde passei a frequentar um grupo de estudos da Faculdade de Artes Cênicas, que se reunia todas as quartas-feiras para ler e discutir uma peça de Brecht, até lermos todas. Este grupo viria a se tornar a Tribo de Teatro Tumutupugá, que teve uma importância gigantesca em minha vida. Vale lembrar que, no final da década de 90, o grupo teatral paulistano Companhia do Latão havia se lançado em uma verdadeira cruzada brechtiana em meio à Paulicéia.

Mais tarde vieram Joseph Beuys (1921 - 1986), com seu conceito de escultura social, e Eva Hesse (1936 - 1970), com sua brilhante manipulação de materiais, na qual eu enxergava elementos para minha busca da corporalidade poética. Estes dois artistas funcionavam como a parelha alemã de minha admiração por Lygia Clark (1920 - 1988), e Hélio Oiticica (1937 - 1980).

No início desta década viriam então, com grande força, a presença de austríacos como o gigantesco SALVE SALVE Ludwig Wittgenstein (1889 - 1951), o poeta H.C. Artmann (1921 - 2000), o cineasta Michael Haneke.

Minha primeira reação e relação com o trabalho de Rainer Werner Fassbinder (1945 - 1982) foi tumultuosa, negativa. Os primeiros filmes a que assisti foram Liebe ist kälter als der Tod {O amor é mais frio que a morte} (1969) e Händler der vier Jahreszeiten {Negociante das quatro estações} (1971), que me pareceram, com o perdão da palavra, chatos, nouvellevagueanos em um sentido negativo, copioso. Mesmo um filme como Götter der Pest {Deuses da peste} (1969), filmado entre os dois que mencionei, ainda mostra certos trejeitos godardianos, em minha opinião. Mas é no ano seguinte (ele trabalhava em cerca de 3 ou 4 filmes por ano) que Fassbinder dirigiria, baseado em uma peça teatral sua, um dos meus filmes favoritos, e aquele que faria com que eu retomasse toda a sua filmografia com outros olhos: o estupendo e completamente Fassbinder Die bitteren Tränen der Petra von Kant {As lágrimas amargas de Petra von Kant} (1972). Nele, a visão extremamente negativa e cheia de cicatrizes com que Fassbinder contemplava as relações amorosas chega a um de seus ápices do sarcasmo, a mesma que ele já demonstrara em sua peça Tropfen auf heisse Steine {Gotas d´água em pedra escaldante), que seria mais tarde muito bem filmada por outro diretor homossexual, o francês François Ozon. Em Petra von Kant, as cores berrantes que Pedro Almodóvar passaria a usar aparecem com uma década de antecedência, mas sem o humor do espanhol. Fassbinder, como Pasolini, sempre foi um mestre da observação detalhada da crueldade entre os humanos, de como o amor se torna um jogo de poder e dominação.


Die bitteren Tränen der Petra von Kant {As lágrimas amargas de Petra von Kant} (1972), de Rainer Werner Fassbinder


A importância do papel desempenhado por Rainer Werner Fassbinder na Alemanha das décadas de 60 - 80 é inestimável, talvez comparável apenas à influência de Joseph Beuys, dois dos intelectuais e figuras públicas mais fascinantes do país naquele período. Sua coragem em atacar as hipocrisias nacionais, sem medo de ofender a direita ou a esquerda, só pode ser comparada na literatura e cinema da Europa do pós-guerra à coragem de outro intelectual homossexual, o italiano Pier Paolo Pasolini.

O motivo desta postagem na verdade é que assisti, há uma semana e com meus queridos amigos Heinz Peter Knes e Jonas Lieder, a um dos filmes mais impressionantes e assustadores de Fassbinder, que me deixou com calafrios est-É-ticos e muitas perguntas. Trata-se do obscuro In einem Jahr mit 13 Monden {Em um ano com 13 luas} (1978), do mesmo ano em que Fassbinder filmaria com outros alemães o filme coletivo Deutschland im Herbst {Alemanha no outono}, que trata dos acontecimentos assustadores daquele ano, que culminariam com a morte misteriosa dos líderes da Facção do Exército Vermelho na prisão. A cena que mostro abaixo, do filme In einem Jahr mit 13 Monden, é bastante chocante, aviso aos leitores. Trata-se da história de um transexual alemão, o órfão Erwin Weishaupt, que se transforma em Elvira Weishaupt, interpretado de forma brilhante por Volker Spengler.


Cena de In einem Jahr mit 13 Monden {Em um ano com 13 luas} (1978), de Rainer Werner Fassbinder.

Passei os últimos dias pensando em Fassbinder, mestre eleito pessoal meu, em Pasolini, outro mestre, e comecei a me perguntar se havia alguém deste patamar no Brasil. Patamar é uma palavra difícil, pois não quero apenas fazer comparações de valor, e alguém poderia entender a pergunta desta forma. Digamos então, alguém com tal vigor em investigar a política e suas relações de poder, dominação, servidão, até mesmo nas relações entre os sexos e as sexualidades, alguém com tal agenda, de uma potência ética quase minimalista (ouso aqui este conceito), não em estilo, mas em denúncia e desmascaramento minucioso das filigranas sociais, não apenas por épicos messiânicos, de caráter nacional.

Serei ainda mais direto: não houve no Brasil do pós-guerra um intelectual homossexual deste calibre, do calibre de Fassbinder, de Pasolini, com um alcance e uma combatividade tão amplas. Compará-los com a figura brasileira que ocupou este espaço, o heterossexual Glauber Rocha, homem genial e que admiro muitíssimo, sempre propenso ao épico, ao descomunal, ao messiânico, mostra alguns detalhes importantes nas diferenças entre certas sensibilidades. Já sei... os amigos e colegas heterossexuais (são sempre eles que se incomodam com esta discussão) enviarão mensagens, dizendo que este debate é desimportante, que a sexualidade destes homens NADA (!!!) define em suas sensibilidades. Eles talvez estejam certos. Mas eu duvido.

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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Corinne Day (1965 - 2010)

Soube apenas hoje que a fotógrafa britânica Corinne Day faleceu no final do mês passado. Após lutar por alguns anos contra um tumor no cérebro, Day morreu em Londres, a 27 de agosto. Talvez uma das mais icônicas criadoras de imagens da década de 90 e ao mesmo tempo uma das mais obscuras, a imagem de Day está intimamente ligada à de Kate Moss. As duas tornaram-se famosas juntas, de certa forma. Foi uma sessão de Corinne Day com Kate Moss para a extinta revista The Face que lançaria e sedimentaria a carreira das duas. Moss, a deslumbrante (escrevam o que quiserem os cinquentões, com seus poemas que demonstram uma mentalidade poética e política equivalente à de um adolescente de 16 anos) tinha apenas 16 anos.





A fotógrafa foi bastante vilipendiada pela crítica, por criar imagens que passaram a ser vistas como o exemplo máximo do chamado heroin chic. O que posso dizer é o seguinte: como adolescente magricelo e acanhado, olhando ao redor e sentindo a pressão de uma sociedade que parecia valorizar apenas a beleza musculosa, foi liberador ver as fotos de Corinne Day, que para mim queriam apenas dizer que estava tudo bem, eu podia ser magricelo, pálido, desengonçado, esquisito, raquítico, fora do padrão. Eu não precisava de bíceps avantajados para sentir-me bem no meu próprio corpo. Além disso, cansado como eu mais tarde estava daquela coisa bem comportada dos poetas da década de 90, tão respeitosos dos mais velhos, tão preocupados com o sublime e a Beleza com aquele gigantesco B maiusculíssimo, eu encontraria em fotógrafos do pós-guerra como Lisette Model e Diane Arbus, os da década de 70, como Nan Goldin, Nobuyoshi Araki e Walter Pfeiffer, assim como seus seguidores da década de 90, Corinne Day, Wolfgang Tillmans, Heinz Peter Knes, Jack Pierson, etc., aquela saúde de quem queria a beleza, mas sem mascarar o que havia de grotesco (uso este último adjetivo com o maior respeito, respeito bakhtiniano), daqueles que queriam SIM subir aos céus, mas não estavam dispostos a esconder suas secreções corporais, ou fingir que elas não existiam. É isso o que eu via nas fotos de Corinne Day e alguns de seus companheiros de geração ou seus mestres, mas, para o mundo dos limpinhos, parecendo querer fingir que não possuem um ânus entre os glúteos, tratava-se de mera celebração da degradação. Para eles, o "grotesco" era algo a ser evitado a qualquer custo. Eu não tenho vergonha de escorrer em líquidos, minhas secreções não me degradam. Meu interesse por estes fotógrafos era o mesmo que me levava à leitura de Wittgenstein, e a buscar poetas fora do Rol dos Escolhidos da década de 90 (os sequinhos-contidos-econômicos), encontrando os impulsos de saúde úmida que buscava na brasileira Hilda Hilst, na argentina Susana Thénon, no americano Frank O´Hara, no alemão Rolf Dieter Brinkmann, no francês Emmanuel Hocquard, etc. Daí minha obsessão com o corpo (grotesco) e todas as suas secreções em um livro como Carta aos anfíbios (2005). Daí minha eleição de Murilo Mendes como mestre. Meu amor por Arthur Bispo do Rosário, por Lygia Clark, por José Leonilson, por Félix González-Torres. Por Corinne Day. Descanse em paz, moça.


PEQUENA SELEÇÃO DE FOTOS DE CORINNE DAY









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